definições, acaricidas e opções fundamentadas

  • o) Resíduos de medicamentos veterinários: substância farmacologicamente activa, tal como definida na alínea a) do artigo 1.o do Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações, que prevê um procedimento comunitário para o estabelecimento de limites máximos de resíduos de medicamentos veterinários nos alimentos de origem animal;
  • p)  Limite máximo de resíduos (LMR): o teor máximo em resíduos, tal como definido na alínea b) do artigo 1.o do Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações;
  • q)  Intervalo de segurança: período de tempo entre a última administração do medicamento veterinário ao animal, em condições normais de utilização, e a obtenção de alimentos provenientes desse animal, a fim de garantir que os mesmos não contêm resíduos em teor superior aos LMR estabelecidos em conformidade com o Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações.

Fonte: Infarmed (http://ofporto.org/upload/documentos/595029-egime-juridico-dos-med-veterinarios.pdf)

Juntando as peças do puzle temos:

  • para o Apivar o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de amitraz (substância activa no Apivar) no mel é de 200 microgramas por Kg de mel;
  • para o Bayvarol o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de flumetrina (substância activa no Bayvarol) no mel não está definido pela UE;
  • para o Apistan o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de fluvalinato (substância activa no Apistan) no mel não está definido pela UE.

Sem fantasmas e sem alarmismos continuarei a tratar as minhas colmeias com os melhores tratamentos, os de mais garantida eficácia, os mais simples de utilizar, os homologados e os inócuos para a saúde dos meus clientes… ciente que é meu dever, minha obrigação, ouvir quem de facto merece ser ouvido, sobretudo neste aspecto em particular, para fazer opções fundamentadas e não embaladas por modas.

varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas

Afirmei na abertura desta categorias o seguinte: “não considero que haja mel bom e mel menos bom, mais sendo esta classificação feita com base nos tratamentos utilizados. Todo o mel puro é bom até prova em contrário.” Senti necessidade de fazer esta afirmação porque infelizmente no nosso país, e não só, há apicultores que, de uma forma que eu considero irresponsável, mal informada e alarmista, tendem a associar a qualidade do mel ao tipo de tratamentos utilizados pelos apicultores no combate à varroa. Falam em resíduos no mel deixados por esses varroacidas, e chegam a levantar graves suspeitas da perigososidade que estes méis apresentam aos consumidores. No sumário em baixo podemos ver que as análises feitas na Alemanha a méis de colónias tratadas com acaricidas sintéticos, só detectaram vestígios de fluvalinato em 1% das amostras, e que a flumetrina e o amitraz não foram detectados. Refiro-me apenas a estes princípios activos porque são os únicos que estão presentes nas marcas dos tratamentos  homologadas como varroacidas no nosso país.

Sumário: “Em geral, a utilização de varroacidas nas colónias de abelhas deixa resíduos nos vários produtos das abelhas. Entre a variedade de varroacidas disponíveis, três ingredientes são comumente detectáveis no mel e cera de abelha: bromopropilato (Folbex VA), cumafos (Perizin, Asuntol) e fluvalinato (Apistan, Klartan, Mavrik). Estes produtos químicos são solúveis na gordura e não voláteis, e, portanto, acumulam-se a níveis de ppm como resíduos na cera de abelha e com vários anos de tratamento. Através do processo de difusão, estes ingredientes migram a partir do favo de cera para o mel lá armazenado. No mel alemão, o varroacida mais frequentemente encontrado é o cumafos (28%). O bromopropilato é detectável mas com baixa frequência (11%). Devido à sua alta força de ligação com a cera de abelha, a detecção fluvalinato é relativamente rara no mel (1%). Todos os resíduos foram encontrados a baixos níveis de ppb.  Outros ingredientes com um comportamento químico semelhante têm um papel sem importância enquanto resíduos no mel, cera e própolis, devido à quantidade muito baixa de ingredientes utilizados (acrinatrina, flumetrina) ou sua instabilidade (amitraz).”

Fonte: https://hal.inria.fr/file/index/docid/891581/filename/hal-00891581.pdf

Nota: ppm (partes por milhão) é a medida de concentração que se utiliza quando as soluções são muito diluídas.

Exemplo: Quando se afirma que a água poluída de um rio contém 5 ppm em massa de mercúrio significa que 1 g da água deste rio contém 5 µg (0,000005 gr) de mercúrio.

mercado do mel: mel ou adoçantes??!!

Inicio este nova categoria intitulada “mercado do mel” dado que a comercialização a retalho ou por grosso do mel que as nossa abelhas produzem é um tema que a todos nós importa.

Deixo também já clara a minha declaração de interesses: por norma serei um defensor convicto do mel produzido em Portugal, um mel de grande qualidade que tem na sua origem florações predominantemente silvestres, e um observador muito desconfiado do mel que a nossa lei permite que seja designado “não UE”. O que se quer esconder por detrás do biombo desta designação que encontramos tão frequentemente nos rótulos do mel importado? Estou consciente que a maior parte dos meus leitores (apicultores também) pensam como eu, e que para poder ter algum impacto teria de chegar a outro público, o público dos que consomem mel e não são apicultores. Contudo caso por aqui passe um consumidor de mel, menos prevenido e informado acerca do mercado do mel, espero que no final faça como os consumidores chineses que estão a mudar as suas opções de compra e a comprar sempre que podem directamente ao apicultor. As razões de tal opção estão bem sustentadas como podemos ver de seguida.

ESTRANHÍSSIMO!!! Estudos em torno da produção e consumo de mel chinês têm indicado que a China consome muito mais mel do que produz, e muito mais mel do que a soma da sua produção e importações.

COMO SE FAZ A QUADRATURA DO CIRCULO??? Conforme relatado ao longo dos últimos anos, a comunicação social chinesa indicou que em numerosas cidades onde foram realizados testes à pureza do mel vendido no mercado de retalho, em mais de metade das amostras de mel analisadas foram encontradas adulterações com até 70-100 % de outros adoçantes.

ELES RECLAMAM!!! E NÓS??? Isto levou a reclamações dos consumidores chineses e a uma tendência para comprar o mel diretamente aos apicultores.

Fonte: http://us1.campaign-archive1.com/?u=5fd2b1aa990e63193af2a573d&id=78b929f20f&e=5229dfa01a

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Fig. 1 — Se nem todos os que se vestem como Batman são o Batman porque é que uma embalagem rotulada como sendo mel de origem “não UE” teria de ser mel puro?

projeto alemão de monitoramento de abelhas: um estudo de longo prazo para compreender as perdas periodicamente altas de inverno em colónias de abelhas do mel

Resumo – A abelha ocidental do mel, Apis mellifera, é o animal polinizador mais importante na agricultura em todo o mundo proporcionando mais de 90% dos serviços de polinização comerciais. Devido ao desenvolvimento agrícola a procura das abelhas do mel para os serviços de polinização está a aumentar progressivamente, sublinhando a capacidade de polinização da população mundial de abelhas geridas pelo homem. Assim, o declínio a longo prazo das colónias de abelhas geridas pelo homem tanto na Europa como na América do Norte é fonte de grande preocupação e tem estimulado uma intensa pesquisa sobre os fatores que presumivelmente estão a causar o colapso das colónias de abelhas. Apresentamos um estudo de quatro anos que envolveu a monitorização de mais de 1200 colónias de abelhas, instaladas em cerca de 120 apiários, de onde foram recolhidas as abelhas durante todo o período em que decorreu o estudo. As amostras de abelhas foram coletadas duas vezes por ano e foram analisados vários fatores patogénicos, incluindo o ectoparasita ácaro Varroa destructor, fungos (Nosema spec., Ascosphaera apis), a bactéria Paenibacillus larvae, e vários vírus. Dados sobre os factores ambientais, práticas apícolas e pesticidas também foram coletados. Todos os dados foram analisados ​​estatisticamente por forma a estabelecer  relações com a mortalidade das colónias de abelhas no período invernal. Podemos demonstrar que vários factores estão significativamente relacionados com as perdas de inverno observadas durante a monitorização de 4 anos das colónias de abelhas, a saber:

  • (i) nível alto de infestação pelo varroa destructor,
  • (ii) a infecção com o vírus das asas deformadas e vírus da paralisia aguda no outono,
  • (iii) a idade rainha, e
  • (iv) a fraqueza das colónias no outono.

Nenhum efeito pode ser observado para Nosema spec. ou pesticidas. As implicações destes resultados serão discutidos.

Fonte: https://hal.archives-ouvertes.fr/hal-00892101/document

uma abordagem mais “natural” para fazer núcleos de fecundação

Quando uma colónia produz a sua rainha após a enxameação ou o apicultor faz a divisão de uma colónia, há uma probabilidade elevada (superior a 90%) de produzir uma nova rainha com uma vida reprodutiva normal, à sua frente. Este elevado nível de sucesso contrasta com o resultado obtido com rainhas fecundadas nos pequenos nucléolos ou mini-núcleos, onde a melhor taxa de sucesso que podemos esperar é de 2 em cada 3 (66%), e muitas vezes pode ser substancialmente mais baixa.

Qual a razão da diferença? Em parte é uma questão de escala, porque num nucléolo temos apenas 200-300 abelhas para dar apoio a uma rainha virgem. Mesmo os mais pequenos enxames secundários, mais conhecidos como garfos, são muito maiores do que isto. Portanto os mini-núcleos colocam as rainhas virgens e as abelhas numa situação excessivamente artificial, para a qual não estão naturalmente adaptadas.

Se o objectivo é partir uma colónia e fazer dela duas, para aumentar o efectivo a tarefa fica concluída assim que a divisão é feita. A colónia mãe (aquela que mantém a velha rainha) e a colónia filha (a que está criando as suas realeiras de emergência) pode permanecer no mesmo apiário, quer em assentos separados ou com a colónia filha em cima da colónia mãe usando um prancheta especial de divisão. Tudo o que o apicultor precisa de fazer é sentar-se e esperar e, após 4-5 semanas, verificar se uma nova rainha está fazendo postura na colónia filha. A colónia mãe que doou abelhas e criação e é improvável que enxameie. Por outro lado, o excedente de realeiras de emergência produzidas pela divisão podem ser utilizados para criar mais alguns núcleos com abelhas, quadros e criação retirados de outras colmeias no apiário. Cerca de 90% destas rainhas são sobreviventes de longo prazo (sobrevivem pelo menos até o final da temporada seguinte).

Os aspectos-chave envolvidos na concretização deste processo de criação e fecundação de rainhas podem ser resumidas como se segue :

 

  1. Os núcleos devem ser preenchidos com as abelhas da mesma colónia que fez as realeiras;
  1. Cada núcleo deve ser fornecido pelo menos com 2 células reais e de preferência mais (não há nenhum limite);
  1. Os quadros com realeiras devem ser retirados logo que possível após a operculação (cerca do 9º dia);
  1. As entradas das caixas de núcleos devem ser fechadas e o núcleo deve ser transferido para um apiário de acasalamento, situado a mais de 3-4 Km de distância.

Achamos que desta maneira a criação de núcleos de fecundação funciona melhor porque é mais “natural” , ou seja assemelha-se muito ao que acontece na natureza. A explicação é a seguinte :

  • As orientações 1 e 2 estão logicamente relacionados e são destinadas a garantir que as rainhas em desenvolvimento são cuidadas por abelhas operárias com quem estão geneticamente relacionados (ponto 1). As abelhas estão conscientes da relação genética que têm com os suas companheiras de ninho (se são irmãs completas ou apenas meia-irmãs — dependendo do zangão que as gerou). Estas relações fazem parte integrante da organização colónia, embora eles não sejam completamente compreendidas no presente momento. Isto contrasta com o método tradicional de fazer núcleos, onde uma única célula real é geralmente dado a um grupo de abelhas não relacionadas. A provisão de um núcleo com várias realeiras tem a vantagem de permitir que as abelhas podem fazer “o que acontece naturalmente”, isto é, façam as suas escolhas (ponto 2). Nós (meros seres humanos) não entendemos que critérios elas estão usando, mas eles (as abelhas) claramente fazem-no e a melhor estratégia é não interferir.
  • As orientações 3 e 4 também estão logicamente relacionados e visam aumentar o sucesso do acasalamento das rainha virgens. Fazendo-se os núcleos assim que as células rainha foram operculados (ponto 3) aumentamos o número de dias antes de uma nova rainha nascer e estar pronta para realizar os vôos de acasalamento. O bloqueio de entrada evita a perda de abelhas aquando da transferência para outro apiário (ponto 4) e garante que elas ficam no núcleo e não vão voar de volta para casa. Estudos recentes mostram que rainhas virgens não saem sozinhas nos seus vôos de acasalamento, mas são acompanhados por um número de abelhas operárias maduras que as guiam para as áreas de congregação dos zãngãos e asseguraram seu retorno seguro. Para fazer bem esta tarefa um núcleo deve ter abundância de abelhas forrageiras que tenham tido tempo suficiente para conhecer o seu novo território. Se núcleos são feitos no dia 9 e são transferidos imediatamente para o apiário de acasalamento deve haver um mínimo de 7 dias antes de uma nova rainha estar pronta para acasalar (e provavelmente mais) e as abelhas forrageiras estarem capacitadas para desempenhar esta função tão importante. A falta de abelhas pode ser uma das razões para os mini-núcleos terem um menor nível de sucesso no acasalamento das suas rainhas do que as colónias maiores. Uma desvantagem adicional pode ser que as rainhas mal apoiadas são obrigados a acasalar mais perto de casa, resultando num menor acesso à diversidade genética dos zângãos.

Consciente que alguns aspectos podem e devem ser discutidos e bem reflectidos por todos nós, importa que a nossa prática seja conduzida cada vez mais respeitando o “modo natural de fazer”das abelhas. Pergunto se com um excessivo artificialismo nos procedimentos por nós escolhidos não estaremos a ganhar a curto prazo para desperdiçar a longo prazo, ou como diz o nosso povo não estaremos a poupar no farelo e a desperdiçar na farinha?

o impacto de diferentes fontes de alimento na saúde das abelhas

Apresento em baixo as conclusões de um estudo muito interessante, realizado para avaliar os efeitos sub-letais e invisíveis aos olhos dos apicultores de algumas fontes de alimentos artificiais/suplementares na saúde e longevidade das nossas abelhas de inverno. Este estudo revela que, apesar das nossas melhores intenções em manter as nossas abelhas saudáveis com uma dieta artificial, podemos estar inadvertidamente a causar-lhes um prejuízo. Este post vem no seguimento deste.

Conclusão

Com base na nossa pesquisa, pode concluir-se que alimentar com diferentes fontes de alimentos tem efeitos diferente no tracto digestivo das abelhas, especialmente na camada epitelial do intestino médio. A fonte natural de alimento para as abelhas, o mel, não teve efeitos nocivos na camada epitelial do intestino médio, e os conteúdos intestinais estavam completamente ligada a esta camada, a qual conduz a uma boa qualidade da digestão e a uma máxima reabsorção dos nutrientes. Resultados semelhantes foram obtidos coma alimentação das abelhas com xarope de açúcar e xarope invertido enzimaticamente sem a adição de levedura e mosto de cerveja. Isto significa que a adição de levedura e mosto de cerveja  produz um dano na camada epitelial do intestino médio, e as diferenças estão dependentes da fonte de alimento. O danos mais grave na camada epitelial do intestino médio foi encontrada nas abelhas alimentados com xarope de açúcar invertido com ácido tartárico (em todas as combinações examinados).  No que diz respeito ao impacto de diferentes fontes alimentares na duração da vida das abelhas, concluímos que a alimentação com mel, xarope de açúcar invertido com enzimas teve um efeito positivo sobre o tempo de vida das abelhas, enquanto que a adição de leveduras e malte de cerveja encurta a vida das abelhas, deste modo recomendamos a utilização de alimentação suplementar sem a sua utilização destes dois aditivos, e que o uso destes suplementos deve ser mais praticado durante outras estações do ano, especialmente se não houver fontes naturais de pólen.

Fonte: http://www.resistantbees.com/fotos/estudio/feeding.pdf

Nota: a inversão do açúcar nos xaropes comerciais pode ser realizada industrialmente através da sua combinação com o ácido tartárico.

desaparecimento das abelhas: uma resposta possível

Marla Spivak, no vídeo linkado em baixo, apresenta-nos a seguinte resposta para enfrentar a questão do desaparecimento das abelhas:

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“O aspecto básico presente no problemático desaparecimento das abelhas está no facto de refletir uma paisagem onde as flores estão a desaparecer, assim como um sistema alimentar disfuncional. Precisamos de uma grande diversidade de flores ao longo de todas as estações de crescimento das colónias de abelhas, da primavera ao outono. Precisamos de bermas de estradas semeadas com flores para as nossas abelhas, e também para as borboletas, pássaros e outros animais selvagens. Precisamos de pensar novamente em voltar a fazer culturas de protecção e pousio que nutram os nosso solos assim como as nossas abelhas. Precisamos de diversificar as culturas nas nossas fazendas/quintas. É preciso plantar/semear plantas nos limites destes terrenos e que interrompam o deserto verde das monoculturas, assim como corrigir o sistema alimentar disfuncional que criámos.” Marla Spivak, 2013

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Fonte: https://www.ted.com/talks/marla_spivak_why_bees_are_disappearing?language=en#t-123744

um método muito simples para criar rainhas: a semi-orfanação

Um pequeno número de rainhas com qualidade pode ser criado numa câmara de criação orfanada, criada pelo apicultor no topo de uma colónia forte. No final dos procedimentos descritos mais abaixo a disposição da colónia deve respeitar esta ordem vista debaixo para cima:

  1. Câmara de criação inferior com a rainha
  2. Grelha excluidora de rainhas
  3. Meia-alça
  4. Grelha excluidora de rainhas
  5. Câmara de criação superior orfanizada.

Neste arranjo da colmeia, a câmara de criação superior é utilizada para a criação de mestreiros e as meia-alças para o armazenamento do néctar. A presença da rainha, no ninho inferior, irá manter a força da colónia no decorrer do processo.

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Fig. 1 — Grelha/grade excluidora de rainhas

Procedimentos:

  • Retiramos os quadros com criação não operculada juntamente com as abelhas amas aderentes do ninho original que colocamos num corpo de colmeia vazio. A rainha deve ser encontrada e mantida no ninho original.
  • Substituímos os quadros retirados ao ninho por quadros de cera puxada ou laminada.
  • Colocamos uma grelha excluidora de rainhas no topo deste ninho por forma a confinar a rainha.
  • Colocamos uma meia-alça com quadros puxados ou laminados em cima da grelha excluidora de rainhas.
  • Uma segunda grelha excluidora de rainhas é colocada por cima da meia-alça.
  • O segundo corpo com os quadros e abelhas resultante da etapa 1 é colocado no topo desta colmeia, com dois quadros com mel e pólen. Coloca-se a prancheta, um alimentador com alimento e o telhado da colmeia.
  • Depois de 3 – 12 horas subsequentes aos procedimentos anteriores, colocamos um quadro com ovos e larvas muito jovens retirados de uma colónia que nos agrade e inserimo-lo no meio da câmara de criação situada no corpo superior. Devemos colocar uma marca neste quadro para o reconhecermos mais tarde.

O objectivo é que as abelhas amas produzam algumas realeiras nesta condição de semi-orfanação. Passados 8 a 9 dias inspecionamos os quadros deste ninho superior. Destruímos as realeiras que encontramos nos quadros não assinalados e/ou não nos agradem.

As etapas seguintes podem ser as mais variadas dependendo dos objectivos do apicultor. Esta técnica contribui ainda para a prevenção da enxameação e renovação de ceras no ninho. Utilizo frequentemente esta técnica, a partir do momento em que as temperaturas nocturnas rondem ou ultrapassem os 10-12º C, para produzir novos enxames.

as minhas colmeias de 9 quadros no ninho

Apicultores conceituados (Charles Dadant entre outros) foram apologistas das colmeias com 9 quadros no ninho. A distância entre os centros dos quadros nestas colmeias é de 38mm. Lembro que a configuração de 10 quadros no ninho determina uma distância entre o centro dos quadros de 35mm e 32 mm no caso de ninhos com 11 quadros. Estas distâncias referem-se a colmeias padronizadas Langstroth, Dadant/Jumbo ou outras, com uma distância interior entre as extremidades laterais do ninho de 37,5 cm.

Entre as vantagens mais notáveis apresentadas pelos defensores da configuração com 9 quadros surge a diminuição do impulso para a enxameação. A maior ventilação e o menor congestionamento do ninho são as razões mais referidas para explicar o fenómeno.

Mas como na apicultura raramente se encontram unanimismos, há um outro grupo de apicultores, entre os quais se destaca Michael Bush, que entendem que esta opção pelos 9 quadros no ninho atrasa significativamente o crescimento da população de abelhas à saída do inverno e entrada da primavera. A razão que estes apicultores dão é que a distância de 38 mm entre o centro dos quadros é demasiada o que dificulta o aquecimento dos ovos e larvas.  Na sua opinião este facto tem consequências, nomeadamente as áreas de criação acabam por ser inferiores se comparadas com as das configurações de 10 quadros e/ou 11 quadros, e isto numa época do ano crítica para o crescimento da população de uma colónia.

Como sabemos em Portugal, assim como noutros países, a prevenção da enxameação é uma tarefa à qual os apicultores devem dar muita atenção com o objectivo de maximizarem a capacidade produtiva das suas colónias. Tendo eu lido acerca da inibição ou atraso do impulso da enxameação em ninhos de 9 quadros decidi fazer a experiência colocando 20 colmeias com esta configuração nos meus apiários. No final desta primavera fará 2 anos sobre o início desta experiência, que tem decorrido sem preocupações de controlar ao detalhe as condições envolventes, mas que me permitirá tirar conclusões gerais acerca da validade desta opção tendo em conta as minhas condições.

Avanço alguns dos dados que possuo até agora, e que surgem na decorrência da dinâmica que surgiu dos diálogos no blog.

À entrada do inverno de 2015/2016 tinha 18 colmeias com esta configuração do ninho nos meus apiários. De acordo com a última inspecção realizada há poucos dias, as 18 colmeias estão vivas sendo que uma delas se encontra zanganeira. O tratamento dos dados que recolhi nestas 18 colmeias foram trabalhados no sentido de obter uma visão de conjunto acerca de três aspectos:

  1. Enxameação no ano de 2015.
  2. Produção de mel no ano de 2015.
  3. Força dos enxames à saída do actual inverno (2015/2016).
  1. No final do verão das 18 colmeias existentes, 12 não enxamearam no decorrer da época de enxameação de 2015 e não mostraram sinais de o desejar fazer; 4 foram divididas para controlar a enxameação eminente; 2 enxamearam. Uma nota que me parece importante: nas 12 colmeias que não enxamearam 9 tinham uma rainha com mais de um ano; 2 substituíram a rainha e numa introduzi uma rainha para melhorar a genética.

2. Relativamente à produção de mel nas 12 colmeias que não enxamearam 7 delas tiveram uma boa produção (acima dos 20 Kg/colmeia); 4 produziram medianamente (entre 10 e 20 Kg/colmeia); não disponho de dados acerca da produção de uma colmeia. Lembro que o ano passado foi um ano de baixa produção um pouco por todo o país (temperaturas muito altas em maio e meses seguintes e uma pluviosidade inexistente).

3. Já em 2016, com base nos dados mais atuais que disponho, as colónias estão a sair vivas do inverno. Das 18 colónias avaliadas, todas estão vivas e uma está zanganeira. Das 17 que interessa detalhar: 7 colónias apresentam mais de 8 quadros de abelhas; 4 apresentam entre 5 e 7 quadros de abelhas; 6 apresentam menos de 5 quadros de abelhas.

Deixo três notas para enquadrar alguns dos aspectos observados: das 6 colónias mais fracas 4 têm rainhas com mais de dois anos; as 17 colmeias estão em zonas de escassez durante o outono-inverno (não é zona de eucaliptais ou outras florações invernais); foram alimentadas com pasta açucarada/fondant durante o inverno.

Estes dados, num primeiro olhar deixam-me relativamente optimista acerca do futuro das minhas colmeias com 9 quadros no ninho. Vou continuar a recolher dados durante esta época para fortalecer as conclusões que daí possa vir a tirar.

A terminar enfatizo que estes dados são acerca das minhas colmeias, nos meus apiários e com o meu maneio. Reforço que esta experiência pessoal está a ser realizada sem um controlo rigoroso de um conjunto de outras variáveis naturalmente envolvidas.

avaliação dos tratamentos orgânicos de primavera contra a Varroa destructor (Acari: Varroidae) em abelhas Apis mellifera (Hymenoptera: Apidae) em colónias no leste do Canadá

Deixo em baixo a transcrição/tradução de um estudo muito citado, que avalia o impacto do ácido fórmico e ácido oxálico, quando aplicados na primavera para o controle da varroa, no desenvolvimento das colónias, na produção de mel e na sobrevivência das colmeias. Acho que este estudo é muito interessante e que merece a sua divulgação no meu blog, pois se o controlo da varroa nos importa muito, de pouco nos servirá se coloca em causa o desenvolvimento das nossas colónias assim como a sua produção. Não nos interessa mesmo nada deitar o bebé fora juntamente com a água do banho. Pois parece que isso pode acontecer com algumas formulações acaricidas estudadas. Leiam, por favor, o sumário do estudo e tirem as vossas conclusões.

“O objetivo deste estudo foi medir a eficácia de dois tratamentos com ácidos orgânicos, o ácido fórmico (AF) e o ácido oxálico (AO) para o controle do Varroa destructor (Anderson e Trueman) em colónias abelhas (Apis mellifera L.) na primavera. Quarenta e oito colónias infestadas de varroa foram distribuídas aleatoriamente por seis grupos experimentais (n = 8 colónias por grupo):

  • um grupo controle (G1);
  • dois grupos testados com aplicações com diferentes dosagens de uma solução de 40g de AO/1 litro de xarope de açúcar 1:1 gotejado sobre as abelhas (G2 e G3);
  • três grupos testados com diferentes aplicações de AF: 35 ml de AF a 65% veiculado numa almofada absorvente (G4); 35 ml de AF a 65% despejada diretamente sobre o estrado das colmeias (G5) e as placas MiteAwayII ™ (G6).

A eficácia dos tratamentos (queda varroa), o desenvolvimento das colónias, a produção de mel e a sobrevivência das colmeias foram monitorados a partir de maio e até setembro.

  • Cinco rainhas de abelhas morreram durante esta pesquisa, todas verificadas nas colónias tratadas com AF (G4, G5 e G6).
  • As colónias G6 tiveram significativamente menos criação e menor desenvolvimento durante a temporada de apicultura.
  • As populações de criação no final do verão foram significativamente maiores nas colónias G2, tratadas com AO.
  • A produção de mel por colónia na primavera foi significativamente menor no G6 e maior no G1.
  • O fluxo de mel no verão foi significativamente menor no G6 e superior no G3 e G5.
  • Durante o período de tratamento, houve um aumento da queda de ácaros em todas as colónias tratadas. A queda diária de varroa no fim da estação de apicultura (Setembro) foi significativamente mais elevada no G1 (colónias não tratadas) e significativamente inferior no G6.
  • O número médio de abelhas mortas encontradas na frente de colmeias durante o tratamento foi significativamente menor no G1, G2 e G3 em relação G4, G5 e G6.

Os resultados sugerem que o controle varroa é conseguido com todas as opções de tratamento aplicadas na primavera. No entanto, todos os grupos tratados com ácido fórmico (AF) mostraram um crescimento da população mais lento no verão, resultando numa recolha de mel reduzida e enxames mais fracos no final do verão. O ácido fórmico teve um efeito tóxico imediato sobre abelhas, que resultou na morte da rainha em cinco colónias. Os tratamentos com ácido oxálico que foram testados têm impactos tóxicos menores sobre as colónias de abelhas.”

fonte: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21442305