a termorregulação na criação de novas abelhas no período outono-inverno: aspectos específicos

A temperatura da criação no ninho é de extrema importância para a colónia de abelhas e é controlada com a maior precisão. As abelhas mantêm a temperatura da câmara de criação entre os 32°C e os 35°C, de modo a que a sua prole se desenvolva em condições óptimas. Quando a temperatura no ninho é demasiado elevada, as abelhas ventilam o ar quente para o exterior, ou usam mecanismos de arrefecimento por evaporação da água do néctar ou da água simples temporariamente colocada nos alvéolos. Quando a temperatura é muito baixa, as abelhas geram calor metabólico, contraindo e relaxando os músculos das asas. A vibração resultante gera calor nesses músculos. Muitos insetos aquecem os seus músculos de voo antes de levantar voo, mas as abelhas têm explorado essa função para termorregular o seu ambiente.

A investigação tem mostrado que mesmo pequenos desvios (superiores a 0,5°C) a partir das temperaturas óptimas tem influência significativa sobre o desenvolvimento da criação e a saúde das abelhas adultas resultantes. Abelhas criadas em temperaturas sub-ótimas são mais suscetíveis a certos pesticidas quando adultos. Curiosamente, a temperatura de desenvolvimento da pupa também afeta a atribuição de tarefas nas abelhas adultas resultantes.

Vejamos com maior detalhe como a termorregulação é levada a cabo pelas abelhas adultas, afim de originar condições de temperatura óptima para a criação da sua prole no período invernal. A termorregulação da temperatura no ninho e, especificamente, na área da criação, a qual é altamente sensível às flutuações na temperatura como referido em cima, é conseguido através das duas formas descritas de seguida:

  • a criação operculada é aquecida por abelhas que pressionam os seus tórax firmemente para baixo sobre os opérculos dos alvéolos e transferem o calor para as pupas no seu interior. Desta forma, apenas um alvéolo é aquecido por cada abelha aquecedor que consegue manter esta posição até 30 minutos e mantém a temperatura do seu tórax estabilizada em torno de 43° C. A fim de minimizar a dissipação do calor produzido por estas abelhas aquecedoras, as restantes abelhas estão densamente aglomeradas, sobrepondo-se em camadas, sobre esta área de criação a aquecer.
  • outra maneira mais eficiente ainda de aquecer a criação, é conseguido através da ocupação dos alvéolos vazios, aí deixados estrategicamente no seio da área de criação, pelas abelhas aquecedor. A área de criação operculada no favo normalmente contém 5-10% de alvéolos vazios. Esta percentagem varia de acordo com o clima exterior. Estes alvéolos vazios são ocupados pelas abelhas aquecedor que se inserem de cabeça para baixo no alvéolo e mantêm o seu abdómen a pulsar. Estas abelhas também mantêm uma temperatura média do tórax de cerca de 43°C.

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Fig. 1 — Abelhas-aquecedor no interior dos alvéolos nas proximidades de uma área com criação operculada

Estas abelhas aquecedor que actuam como descrito para aquecer a criação gastam enormes quantidades de energia na forma de mel maduro altamente concentrado. Ocasionalmente usam néctar não maduro, mas este combustível não é de tão alta qualidade como é a do mel maduro, que é transferida de boca em boca pelas abelhas (trofalaxia).

Para concluir realço os seguintes aspectos práticos:

  1. a colmeia deve estar bem povoada para aquecer as novas abelhas de inverno a criar, portanto é necessário fazer os tratamento da varroa atempadamente e evitar os desdobramentos tardios;
  2. os quadros centrais do ninho não devem estar bloqueados com mel e/ou pólen, devem ter um número razoável de alvéolos vazios, portanto devemos evitar o fornecimento excessivo de xarope no final do verão/início do outono.  

Fontes consultadas:

  • Medrzycki P, Sgolastra F, Bortolotti L, Bogo G, Tosi S, et al. (2009) Influence of brood rearing temperature on honey bee development and susceptibility to poisoning by pesticides. J Apic Res 49: 52–60.
  • Matthias AB, Holger S, Robin FAM (2009) Pupal developmental temperature and behavioral specialization of honeybee workers (Apis mellifera L.). Journal of Comparative Physiology A 195: 673–679
  • Tautz J (2008) The Buzz about Bees. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg.
  • Winston ML (1987) The Biology of the Honey Bee. Harvard University Press, Cambridge Massachusetts.

aluen CAP para quando em Portugal?

Aluen Cap é um novo tratamento acaricida, formulado com ácido oxálico e desenvolvido por uma cooperativa de apicultores argentinos em estreita ligação com a Universidade local. Terei lido acerca deste novo tratamento há cerca de um ano. A propósito de uma questão do Bernardino, decidi fazer uma referência a este tratamento, que me parece muito promissor. Munido desta informação cada um de nós poderá falar do mesmo junto da sua Associação de Apicultores e estas, por sua vez, poderão fazer chegar os nossos anseios junto dos técnicos da DGAV, para que possam analisar a pertinência de iniciar o seu processo de homologação em Portugal, caso confirmem todas as características referidas pelos seus inventores e que transcrevo/traduzo em baixo.

“Aluen CAP” é um novo acaricida orgânico para combater a varroa, que elimina a necessidade de aplicação de produtos sintéticos, sem perder o potencial de produção. O tratamento, que atinge mais de 95% de eficácia e pode ser usado por décadas, foi recentemente aprovado pelo Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Alimentar (SENASA) para a sua produção e distribuição.

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Fig. 1 — Rótulo/logotipo actual do acaricida Aluen CAP

O Dr. Elian Tourn observa: “o Aluen CAP é a única formulação acaricida orgânica do mundo que é eficaz em colmeias com grande desenvolvimento da criação e sem restrições ambientais”. Além do mais, indica que a sua utilização não exige que as abelhas o consumam, evitando a sua intoxicação; reduz de cinco para uma as visitas necessárias para a sua aplicação, reduzindo em 20% o consumo de combustível fóssil em apicultura.

Como funciona?

O tratamento que acaba de ser aprovado pelo SENASA, é aplicado por meio de tiras de celulose de libertação lenta, impregnadas com uma solução acaricida à base de ácido oxálico. Essas tiras devem ser colocados entre os quadros com criação e deixam-se ficar durante 42 dias.

Resumo Técnico do tratamento

  • Requer uma única aplicação e a eficiência é superior a 95%, mesmo em colónias com muita criação;
  • É orgânico e não contamina o mel, mesmo que seja usado durante a melada;
  • Não gera resistência, pois é uma molécula (ácido oxálico) naturalmente presente em todos os seres vivos;
  • Não tem restrições ambientais na sua aplicação. O produto foi testado na Patagónia, no Litoral, Cuyo e nas Pampas húmidas e semi-áridas;
  • Não interfere no desenvolvimento da criação e/ou da abelha adulta.”

Fonte: http://inta.gob.ar/noticias/apicultura-aluen-cap-fue-aprobado-por-senasa

prevalência e persistência do vírus das asas deformadas (VAD) em colónias de abelhas melíferas infestadas, não tratadas ou tradadas contra o ácaro Varroa destructor

“O ácaro Varroa destructor é uma praga grave da abelha Apis mellifera. A ocorrência natural do vírus conhecido como Vírus das asas deformadas (VAD) tem sido associada ao colapso de colónias de abelhas infestadas pelo ácaro. Nós, pesquisámos a prevalência e persistência de VAD em quatro colónias altamente infestados não tratadas (Pesquisa 1), e cinco colónias altamente infestados que foram tratados com um acaricida (Pesquisa 2). A presença do VAD em amostras de abelhas adultas, criação operculada e ácaros foi detectada usando uma Enzima Linked Immunosorbent Assay (ELISA). Vinte indivíduos de cada amostra foram analisados mensalmente em cada colónia ao longo do estudo. Durante o verão, a proporção de adultos, criação operculada e ácaros em que o VAD foi detectado aumentou, até que a colónia ou morreu ou foi tratada. Quando as colónias foram tratadas, removendo assim os ácaros da colónia, o VAD deixou de se detectar na criação operculada a uma taxa semelhante à perda/eliminação dos ácaros. A velocidade com que o VAD se tornou indetectável em abelhas obreiras adultas dependia, no entanto, da estação do ano, verificando-se diferenças na esperança de vida entre as obreiras adultas emergentes no verão ou emergentes no inverno. Se o tratamento foi retardado até Outubro, o VAD ainda foi detectada em abelhas adultas durante o inverno, mesmo na ausência de ácaros. Para reduzir a carga viral da colónia, portanto, o tratamento de ácaros deve ser iniciado o mais tardar no final de agosto, a fim de remover os ácaros antes da criação das abelhas de inverno começar.”

fonte: https://www.researchgate.net/publication/229086938_Prevalence_and_persistence_of_deformed_wing_virus_DWV_in_untreated_or_acaricide-treated_Varroa_destructor_infested_honey_bee_Apis_mellifera_colonies

sumo de limão: um verdadeiro acaricida?

Ainda não há muitos dias vi, pela primeira vez, um vídeo no youtube onde um apicultor fazia a promoção da utilização do sumo de limão (ácido cítrico) no combate à varroa. Afirma que este tratamento na primavera e/ou no verão controla a varroa. Fiquei muito surpreendido que a simples aplicação do sumo de limão possa ser suficiente para controlar a varroa ao longo de um ano. A minha dúvida prende-se com o facto de na primavera/verão, na generalidade dos apiários do nosso país, haver muita criação operculada no ninho. Sabemos que, nestas condições, 90% das varroas estão abrigadas e protegidas dentro dos alvéolos operculados. Como pode a aplicação de sumo de limão permitir que a colónia siga saudável neste período e, em especial, entrar com níveis baixos de varroa no outono? Há algo que me está a escapar ou então a informação dada nesse vídeo é muito insuficiente. Se algo me escapa tenho a certeza que algum dos companheiros me irá elucidar. Se a informação do referido vídeo é incompleta é lamentável, porque com mais de 5500 visualizações (à data do meu visionamento),  e assumindo que apenas 1% dos que o viram decidiram seguir estritamente o que lá é recomendado, significa que mais de 50 apicultores poderão ter posto em risco as suas colónias de abelhas. Eu pessoalmente conheço um companheiro, que por ter sido crente, perdeu até agora 8 das 13 colmeias que possuía com os tratamentos com sumo de limão.

Tanto quanto sei os tratamentos com outros ácidos orgânicos obrigam a 3 a 4 aplicações intervaladas por 4-7 dias. E são ácidos com um efeito acaricida muito superior ao do ácido cítrico a acreditar em vários estudos devidamente controlados. Em baixo ficam alguns dados recolhidos por esses estudos.

Vários ácidos orgânicos que têm mostrado atividade acaricida têm sido utilizados na luta contra a varroa destructor. Os ácidos mais eficazes, desde que em concentrações não prejudiciais para as abelhas, são o ácido oxálico e o ácido fórmico.

O ácido cítrico tem actividade acaricida contra a varroa, mas em muito menor grau do que o ácido oxálico. Milani (2001) identificou no laboratório que uma dose letal de ácido citrico para varroa necessita de ser três vezes superior à de ácido oxálico e, especialmente, o ácido cítrico apresenta uma grande variabilidade na eficácia. Highes et al. (2006), comparando diversas soluções de açúcar com vários ácidos orgânicos, incluindo o cítrico, concluíram que o único ácido orgânico com uma eficácia apreciável, pelo método de gotejamento, foi o ácido oxálico. A solução de ácido cítrico, apesar de ter um pH menor do que a solução de ácido oxálico não induziu uma queda de varroa significativamente superior à das colónias não tratadas, o que sugere que não é só a acidez mas também outros mecanismos metabólicos os que podem estar na base de maior susceptibilidade da varroa ao ácido oxálico.

Em alguns países europeus é autorizado a utilização do produto austríaco Hive Clean enquanto acaricida. Este produto contém ácido cítrico e vários outros ingredientes, como o ácido oxálico. A sua eficácia média é semelhante ao de uma solução normal de açúcar com ácido oxálico (Howis e Nowakowski de 2009). Podemos, portanto, pensar que o ácido cítrico não acrescenta nada ao Hive Clean.

Há uns anos cheguei a comprar uma garrafa de Hive Clean, que acabei por não utilizar depois de alguns companheiros se terem mostrado muito insatisfeitos com os resultados que obtiveram com a sua utilização.

Com base nestes dados, e neste momento em que escrevo, para mim é pouco crível que o ácido cítrico possa ser considerada uma ferramenta adicional na luta contra a varroa. Por maioria de razão digo o mesmo em relação ao sumo de limão, dado que nestes não é possível uma dosagem precisa de ácido cítrico.

Ressaltamos, a concluir, que não existe em Portugal, qualquer produto autorizado à base de ácido cítrico e, portanto, a legislação dos acaricidas existente no nosso país não permite a sua administração nas colmeias para tratar a infestação pela varroa. Quando muito podemos dar-lho como uma bebida refrescante… juntamente com um acaricida de créditos comprovados!

Fontes consultadas:

  • Higes, M., R. Martin Hernandez, and A. Meana. 2006. “Effectiveness of Organic Acids in Varroa (Acarina: Varroidae) Mite Control.” Revista Ibérica de Parasitología 66 (1-4): 3–7.
  • Howis, Maciej, and Piotr Nowakowski. 2009. “Varroa Destructor Removal Efficiency Using Beevital Hive Clean Preparation.” Journal of Apicultural Science 53 (2): 15–20.
  • Milani, Norberto. 2001. “Activity of Oxalic and Citric Acids on the Mite Varroa Destructor in Laboratory Assays.” Apidologie 32 (2): 127–38.

humidade no ninho das abelhas: um prejuízo? uma benesse?

A humidade na câmara de criação é um factor crítico para a boa qualidade das condições físicas-ambientais tão necessárias a um desenvolvimento saudável das colónias de abelhas. Numerosos estudos demonstraram que os níveis extremos de humidade, sejam elevados, sejam baixos, afectam a saúde das abelhas e da sua criação. Por exemplo, a níveis inferiores a 50% de humidade relativa os ovos não eclodem (Doul, 1976), o que é particularmente impactante nos pequenos núcleos de abelhas. Outro exemplo, a humidade entre 68% a 87% aumenta a percentagem de mumificação das larvas em 8%, também conhecida por criação de giz. Um dado interessante, a taxa de reprodução da varroa destructor diminui com o aumento da humidade.

A humidade no ninho numa colónia forte e saudável situa-se entre os 50% e 60%. Raramente se encontra abaixo dos 40% ou acima dos 80%. Numa colónia forte e em condições normais, este valor é estável e não está dependente das condições ambientais. Pelo contrário, numa colónia fraca as condições internas são muito influenciadas pelas condições ambientais externas.

Um fator importante que influencia o nível de humidade no ninho é a quantidade de criação não operculada/selada. Sabemos que os ovos e as larvas são altamente sensíveis à dissecação. Pensa-se que as áreas de criação têm um microclima com uma humidade relativa significativamente maior que o conjunto do ninho. Isto é conseguido pela presença de geleia real, que tem um conteúdo de água alto. Por outro lado os casulos são higroscópicos e promovem a absorção de água (Human, 2006). Além disso, as abelhas nutrizes/amas que cobrem os quadros de criação limitam a quantidade de água que se evapora.

Sabe-se que as colónias de abelhas regulam a humidade interna do ninho pelo batimento das asas, pelo transporte e depósito de água para o ninho, e pelos dissipadores de humidade, como o néctar e os casulos (Ellis, 2008).

Ouvimos dizer frequentemente que durante o inverno é a humidade, não o frio, que mata as abelhas. O que pode o apicultor fazer nesta estação do ano para ajudar as abelhas a regular a humidade no ninho?

As orientações são variadas e há duas escolas principais de pensamento. Uma defende a ventilação assistida da colmeia, deixando orifícios de ventilação na zona superior da colmeia, quer através da inserção de palitos de fósforo ou cunhas nos cantos inferiores das pranchetas, ou deixando o óculo da prancheta semi-aberto. Este conselho é geralmente dado por apicultores que usam pisos sólidos.

Por outro lado, se as colmeias estão equipadas com estrados de rede, o pensamento é que os métodos de ventilação nas zonas superiores da colmeia são desnecessárias dado que o estrado de rede atua como um sistema de ventilação inferior.

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Fig. 1 — Exemplar de um estrado em malha de rede metálica

Portanto, o tipo de colmeia e, obviamente, o clima ambiente vai determinar se é necessário um sistema de ventilação ou isolamento que permita uma renovação mais rápida do ar saturado com humidade que se produz habitualmente no interior da colmeia.

Fontes consultadas:

  • Doul KM (1976) The effects of different humidities on the hatching of the eggs of honeybees. Apidologie 7 (1) 61-66
  • Ellis MB (2008) Homeostasis: Humidity and Water Relation in Honeybee Colony, Master Thesis (University of Pretoria)
  • Human H, Nicolson SW, Dietemann V (2006) Do honeybees, Apis mellifera scutellata, regulate humidity in their nest? Naturwissenschaften 93(8):397-401.
  • Tautz J (2008) The Buzz about Bees. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg.
  • Winston ML (1987) The Biology of the Honey Bee. Harvard University Press, Cambridge Massachusetts.

 

Independentemente do tipo de estrado utilizado, acrescento estas orientações que têm ajudado as minhas abelhas a regular a humidade no ninho:

  • colocação das colmeias em assentos 15-30 cm acima do solo;
  • construir os assentos com uma ligeira inclinação descendente no sentido do alvado/entrada da colmeia;
  • substituir, particularmente no final do verão, as colmeias com rachas nas paredes, com a pintura estalada ou o óleo de linhaça já sumido, por outras devidamente restauradas;

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Fig. 2 — Exemplo de um assento que protege as colmeias da humidade do solo

… e outras medidas que se justifiquem localmente, e que os companheiros desejem acrescentar.

perigos de alimentar com açúcar invertido

O especialista espanhol António Pajuelo colocou recentemente na sua página de facebook considerações acerca da utilização do açúcar invertido na alimentação das abelhas. Fica aqui a tradução.

“Ultimamente na nossa apicultura está na moda alimentar com açúcar invertido. Existem diferentes fórmulas caseiras para o fazer e os fornecedores industriais cantam seus louvores.

O açúcar invertido é um produto para uso em padaria-pastelaria, para se conseguir algumas texturas interessantes. É uma sacarose, açúcar branco, submetido a um processo de acidificação, temperatura, e, industrialmente, é submetida à ação da enzima beta-frutofuranosidase , que divide a sacarose nos seus dois componentes, glicose e frutose.

Os vendedores deste produto descobriram há algum tempo este novo segmento de mercado, e entrou com um argumento de vendas: “está desdobrado, tornando-o mais fácil de assimilar”. De fato, a abelha e nós temos que dividir a sacarose em glucose e frutose, e em seguida, a glucose em frutose, para poder fragmenta-la e usá-la em outros compostos ou queimá-la para produzir energia. Para isso temos umas enzimas na saliva, elas e nós. Mas o organismo não vai parar de fabricar estas enzimas e colocá-los na saliva consuma-se o açúcar que se consumir. E as enzimas são não se “gastam”, são uma espécie de vai e vem que transportam as moléculas ao seu local de e ficam livres para voltar a atuar; embora haja uma certa perda de moléculas ao longo do tempo. Ou seja, ao ser dada sacarose “desdobrada” é mais um argumento de vendas do que uma vantagem.

Além disso, o processo de aquecimento da sacarose para a “desdobrar” produz HMF, em quantidades variáveis, dependendo de como foi feito o açúcar invertido. E o HMF é tóxico para as abelhas, para nós não (pudins, doces, caramelo … seriam letais se assim fosse). Apesar de não haver consenso na literatura sobre o nível de toxicidade, há dados bibliográficos sobre a toxicidade para as abelhas enjaulado laboratório a partir de cerca de 50mg/kg de HMF. Para mim os valores mais realistas são de 150 mg/kg.

O açúcar de beterraba invertido também é usado para adulterar mel, por isso o mercado possui técnicas analíticas muito avançados que são usualmente utilizadas ​​para detectar a sua presença no mel. Os laboratórios de análises do mel oferecem esta detecção desde 2009, com base na presença da enzima beta-frutofuranosidase (exógena ao mel, mas usada industrialmente para “desdobrar”) e pelos níveis de ácido utilizados na acidificação.

Portanto, se há um armazenagem do açúcar invertido nos favos, pode haver níveis elevados de HMF no mel, se você o inverteu caseiramente e restos de ácidos. E, especialmente, quando se usou açúcar invertido industrialmente em quantidade, ficam presentes no mel enzimas que o mel não possui, que o inabilitam para o mercado. Esta situação já aconteceu, de hás uns anos a esta parte, mas aumentou este ano pela campanha de vendas agressiva destes açúcares invertidos. Tenho clientes que tiveram este problema e os compradores devolveram-lhe o mel. E eu sei que outros colegas passaram pelo mesmo.”

fonte: António Gomez Pajuelo, pg. do facebook

acaricidas homologados em Portugal

A DGAV é a autoridade portuguesa que tem em mãos a responsabilidade de homologar os acaricidas a utilizar na luta contra a doença das abelhas conhecida como varroose.

Nesta hiperligação podem consultar uma lista quase completa dos acaricidas homologados à data de hoje: http://www.apiset.pt/docs/MUV_autorizados.pdf

Nesta hiperligação surge o acaricida mais recentemente homologado pela DGAV, e que não se encontra ainda na lista anterior:  http://www.melvag.com/blog/api-bioxal-novo-tratamento-homologado-contra-a-varroa/

Como facilmente se constata a lista compreende 5 marcas de tratamentos não-convencionais ou orgânicos, a saber: MAQS; Apilife VAR; APIGUARD; THYMOVAR e Api-Bioxal.

Os tratamentos convencionais ou sintéticos presentes na lista são de 4 marcas, a saber: APITRAZ; APIVAR; Apistan e Bayvarol.

Uma primeira consideração que desejo fazer acerca desta lista diz respeito à diversidade de princípios activos disponíveis, o que dá boas garantias e oportunidade ao apicultor para fazer a adequada rotação de princípios ativos, por forma a evitar ou minimizar os efeitos do surgimento de varroas resistentes.

Uma segunda observação, que com toda a justiça entendo dever fazer, é que a mortalidade de colmeias por via da varroa não se deve à falta de oferta na escolha de acaricidas homologados. Vamos a ser francos, a mortalidade das colmeias resulta, na grande maioria dos casos, do desconhecimento e/ou incúria do apicultor. Na minha opinião, o argumento dos elevados custos dos tratamentos homologados não colhe, uma vez que a grande maioria dos apicultores associados podem adquirir os mesmos a preços muito mais baixos que o preço de 1 Kg de mel.

de que morreu a minha colmeia…

O inverno é a estação mais crítica que a colónia de abelhas tem de ultrapassar. E, na verdade, algumas não a conseguem ultrapassar. Todo o apicultor que se vê confrontado com uma ou várias colónias mortas deve procurar fazer o diagnóstico post mortem. Este diagnóstico, se bem feito, é uma peça essencial para melhorar o seu maneio no futuro. Só sabendo as causas das perdas invernais ele estará em boas condições de as evitar no futuro. Deixo em baixo algumas pistas para fazerem este diagnóstico.

  • Se a colónia morreu por fome, encontra uma colmeia leve em peso e abelhas enfiadas de cabeça para baixo nos alvéolos (ver fig. em baixo).

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  • Se a colónia morreu pelos danos causados pelo ácaro da varroa, encontra poucas abelhas, pequenas áreas de criação operculada e abelhas com asas deformadas (ver fig. em baixo).

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  • Se a colónia morreu porque a rainha chegou ao seu fim, encontra realeiras ou criação de zângãos(ver fig. em baixo).

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  • Se a colónia morreu por humidade excessiva, encontra muito mofo nos quadros (ver fig. em baixo) e muita humidade condensada nas paredes interiores da colmeia e no fundo do estrado.

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  • Se a colónia morreu por desinteria, encontra muitas manchas de resíduos fecais no topo dos quadros (ver fig. em baixo) e/ou na entrada da colmeia.

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  • Se a colónia morreu por doença na criação, encontra sinais de loque americana (ver fig. em baixo), ou loque europeia.

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  • Se a colónia morreu porque foi pilhada por outras abelhas encontra os alvéolos e opérculos ligeiramente mastigados ou roídos (ver fig. em baixo) e pequenos resíduos de cera no estrado e entrada da colmeia.

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  • Se a colónia morreu pela acção dos roedores (ratos e outros), encontra os favos muito roídos (ver fig. em baixo), pedaços de favo no estrado e na entrada da colmeia, caganitas de rato no meio dos resíduos de cera, cheiro a urina do roedor no interior da colmeia.

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A terminar sublinho que várias vezes se encontram sinais a apontar para diversas causas. Neste caso importa tentar destrinçar qual foi a causa primeira, a causa que fragilizou a colónia inicialmente. Foi esta a causa que permitiu o aparecimento e desenvolvimento dos outros problemas a jusante. Interessa-nos, no futuro, evitar a causa primeira. Estando esta resolvida, os outros danos têm menos oportunidade de se desenvolverem. Não sendo uma regra que deva ser aplicada a 100% dos casos, a varroa é geralmente a causa primeira de mortandade no inverno. Sobre os ombros de uma varroose deficientemente controlada surgem outros danos que, de forma oportunista, se aproveitam da fragilidade da colónia e lhe dão o golpe de misericórdia.

Esta lista de pistas não é exaustiva e pode ser completada com os vossos contributos. De apicultor e de detective todos temos um pouco!

nenhum efeito negativo da exposição prolongada ao amitraz

Em Julho de 2015, no American Bee Journal, Randy Oliver (Scientific Beekeeping.com) lançava estas questões aos leitores: “Porque se ouve falar de taxas elevadas de perda de rainhas e baixa capacidade de sobrevivência das colónias nos dias de hoje? Poderá ter algo a ver com os efeitos sub-letais do amitraz, um acaricida comumente usado?”

Quem está familiarizado com o trabalho de Randy Oliver, sabe que ele, para além de apicultor profissional, tem por hábito e gosto fazer um conjunto de investigações próprias, devidamente controladas, acerca de problemas com os quais os apicultores se vão confrontando no dia-a-dia. Estas investigações, realizadas de forma muito regular, são uma fonte de ensinamentos e reflexões muito valiosa, o que lhe tem granjeado uma enorme estima e uma reputação inabalável junto da comunidade de apicultores dos EUA.

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Fig. 1 — Randy Oliver analisando um quadro

Voltando aos eventuais efeitos da utilização do Apivar (que tem como princípio activo o amitraz) nas colónias de abelhas, em especial os efeitos sub-letais dos metabolitos (designados por alguns de nós como “moléculas alien”), Randy Oliver não foi no “diz que disse” e decidiu testar e investigar seriamente, de forma controlada, os mesmos. Transcrevo/traduzo de seguida o que ele escreve a título de introdução e discussão deste seu estudo (fonte consultada: http://scientificbeekeeping.com/no-negative-effect-from-extended-exposure-to-amitraz/).

“Introdução

Na primavera passada eu realizei um teste de campo, a fim de determinar se o tratamento de núcleos com tiras de Apivar (o princípio activo é o amitraz) afetaria o seu desenvolvimento. Os resultados (não houve nenhum efeito negativo observável) foram publicadas neste Jornal em outubro de 2014. Mas por essa altura eu já tinha lido mais acerca do amitraz, e estava curioso de saber se os seus resíduos (principalmente os seus metabolitos) teriam um efeito adverso sobre a colónia ou a saúde rainha e a sua sobrevivência. Como eu já tinha 36 colónias que tinham sido anteriormente expostas ao tratamento com Apivar, decidi continuar o teste para ver se surgiam efeitos a longo prazo, com a utilização prolongada das tiras de Apivar. […]

Discussão

Apesar de continuamente expostos às tiras de libertação lenta de amitraz (as tiras de Apivar foram colocadas continuadamente três vezes e ao longo de 8 meses), não encontrámos nenhuma diferença no desenvolvimento destas colónias, na sua sobrevivência à invernagem, ou na capacidade de sobrevivência das rainhas devido ao tratamento, quando comparadas com o nosso grupo de controle. Verificámos também que o Apivar é eficaz no controlo dos níveis de varroa. Embora eu não tenha podido confirmar os níveis de resíduos reais de amitraz ou metabolitos nos favos, por análise química, a minha outra pesquisa anterior sugere que os níveis terão sido substanciais, com base na elevada e prolongada taxa de exposição às tiras e considerando o número de quadros cobertos pelas abelhas durante a realização do teste. Os resultados destes dois ensaios combinados indicam que o tratamento com Apivar à taxa recomendada pelo fabricante parece ser uma ferramenta segura e eficaz para a gestão da varroa.”

 

A minha experiência pessoal com o Apivar tem sido muito positiva. Contudo é um tratamento que não faz milagres! Algum fará? Já tive algumas colmeias que morreram por causa da varroa depois de tratadas com Apivar. Sim, é verdade que sim! Sempre que coloquei as tiras tarde demais e/ou quando as não ajustei devidamente à câmara de criação, a meio do tratamento, em especial no tratamento de fim de verão, algumas colmeias não aguentaram com os meus erros. A responsabilidade foi minha, não foi das tiras, e seguramente não foi por ter varroas resistentes ao princípio ativo. Como não faço tudo bem, tenho por hábito olhar primeiro para mim e procuro descortinar onde falhei, para amanhã rectificar e melhorar o que há a melhorar. Contudo, parece-me por aquilo que vou ouvindo, que há outros companheiros que fazem tudo bem, e quando a varroa lhes mata as suas colmeias, responsabilizam as tiras que aplicaram ou, se não são as tiras, são as varroas que já são resistentes a este mundo e ao outro. A minha realidade é semelhante à descrita pelo Randy Oliver e isso dá-me muita tranquilidade porque não estou a lidar com nenhuma realidade ou factos “alien”, de outro mundo. Tudo é deste mundo!

termorregulação numa colmeia: alguns aspectos

Sabemos que as abelhas, em condições normais, são capazes de manter constante a temperatura interior da colmeia assim como um grau de humidade próximo da saturação.

No verão, com dias em que as temperaturas rondam frequentemente os 40ºC, as obreiras promovem a ventilação da colmeia colocando-se, estrategicamente, na rampa de vôo a bater energicamente as asas. Esta acção contribui para a evaporação da água contida no néctar e no mel desoperculado e, simultaneamente, para o refrescamento do ar no interior da colmeia. Quando tal acção não é suficiente um número apreciável de abelhas sai para o exterior da colmeia formando a conhecida “barba”.

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Fig. 1 — Abelhas à entrada de uma colmeia a fazerem a “barba” num dia quente

No inverno, o esforço das abelhas é dedicado a manter a sua temperatura corporal superior à do ambiente externo. As abelhas cuja temperatura corporal desce abaixo dos 9º-11º C ficam paralisadas e entram no chamado coma por arrefecimento, ficando incapacitadas de se alimentar, acabando por morrer. Em Portugal encontramos regiões, sobretudo no interior centro e norte, com dias seguidos em que as temperaturas atmosféricas rondam os 0ºC. As abelhas, nestas circunstâncias, mantêm as temperaturas corporais formando o cacho invernal, agrupamento denso de abelhas em várias camadas sobrepostas. O enxame ou super-organismo consegue, com este comportamento colectivo, manter a temperatura corporal dos seus indivíduos entre os 13ºC e 20ºC. O mecanismo pelo qual as abelhas conseguem esta façanha é conhecido, e passa por uma sequência de etapas, que se inicia pela ingestão do mel presente na colmeia, a combustão do mesmo no seu corpo, o movimento intenso dos músculos das asas, a geração de calor corporal tão necessário ao aquecimento das abelhas e do cacho de abelhas, que se forma no interior da colmeia sempre que as temperaturas no exterior baixam a 10ºC ou menos.

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Fig. 2 — Vista de topo do cacho invernal numa colónia de abelhas 

Nos invernos mais rigorosos, em muitas zonas do interior do nosso país, as rainhas param a postura. Nesta condição o enxame não necessita de manter uma temperatura no cacho acima dos 13-20ºC. O consumo de mel é baixo, porque o isolamento térmico conseguido pela estrutura do cacho invernal, com uma reduzida superfície externa, diminui as perdas de calor.

Isto num outono-inverno como manda a tradição.