melhoramento de abelhas: facto ou ficção?

O Dr. Keith Delaplane, investigador da Universidade da Geórgia, pergunta nesta palestra dada a 9 de fevereiro de 2013, na Associação de Apicultores do Estado de Indiana, se o melhoramento de abelhas é um fato ou uma ficção.

K. S. Delaplane vai apresentando ao longo desta palestra um conjunto de questões e afirmações relativamente surpreendentes/provocatórias (porque provocam reflexão). Destaco estas:

  • pergunta quão bem sucedido tem sido a selecção e melhoramento de abelhas nas últimas décadas?
  • pede à sua audiência para comparar a tinta que foi gasta, o tempo gasto a pensar, falar, escrever, a investigação que foi levada a cabo com o produto final do processo de melhoramento (a abelha) para solucionar os maiores problemas da apicultura actual;
  • refere, que o que vemos e ouvimos é que “estamos a caminho”, “estamos a caminho”, “estamos a caminho”… e que um dia destes chegaremos lá (ironicamente!);
  • anuncia que não está ali para denegrir os programas de melhoramento de abelhas, e que concorda que se deve investir nestes programas, mas questiona-se se estes programas não estão a ignorar áreas importantes da biologia da abelha?
  • a biologia actual é cada vez mais uma “ciência dura”, sustentada na investigação genética e na estatística, e que visa responder a questões muito simples como esta: quando o gene G1 está presente ocorre “sempre” aquele comportamento C1?
  • O estudo da biologia das abelhas nos dias de hoje é muito isto: que genes estão presentes nos cromossomas e como esta “informação” é expressa no comportamentos das abelhas, como por ex. comportamento higiénico, comportamento defensivo, comportamento de forrageamento, comportamento anti-varroa, …?
  • na ordem himnoptera (onde estão incluídos os insectos em geral e as abelhas em particular) há indivíduos hemozigóticos com apenas metade do genoma, no caso que nos interessa os zângãos;
  • existem basicamente três programas diferentes de melhoramento de abelhas: a) selecção materna/com acasalamento livre (do tipo “eu gosto desta colónia, vou seleccionar/melhorar a partir das suas larvas”); b) melhoramento através do acasalamento de indivíduos híbridos (heterozigóticos) com indivíduos puros (homozigóticos); c) melhoramento pelo acasalamento de populações próximas/fechadas (o programa mais sofisticado dos três );
  • os dois primeiros programas funcionam até um certo ponto mas não são suficientemente poderosos para seleccionar para um traço específico, como por ex. a resistência à varroa;
  • para seleccionar para traços específicos o programa mais adequado é o c (melhoramento pelo acasalamento de populações próximas). É um programa de compromisso entre seleccionar para um traço, sem correr o risco de estreitar demasiado o “pool” genético; contudo é um programa que funciona até 20 gerações para a frente… depois começam a surgir os problemas com a homozigose recessiva/consanguinidade (por ex. criação em mosaico);
  • K. Delaplane levou a cabo um programa de melhoramento pelo acasalamento de populações próximas e ao longo de 5 anos para conseguir o que ele chama uma abelha perfeita para os dias de hoje: uma abelha prolífica e ao mesmo tempo muito resistente a doenças e ao ácaro varroa;
  • refere que este programa é muito exigente e complexo a vários níveis se feito de forma séria: envolve equalização rigorosa das colónias no início do programa, medições rigorosas dos comportamentos desejados, priorizar os comportamentos desejados, transformar dados de escalas diferentes numa escala única (“z score”); criar um índice de seleção;
  • No final dos 5 anos do programa de melhoramento com a estratégia acasalamento de populações próximas Delaplane apresenta as conclusões: para o traço comportamento higiénico os resultados foram inconsistentes; para o traço área de criação os resultados foram bons com melhoria leve mas consistente; para o traço compacticidade da criação os resultados mantiveram-se estáveis ao longo dos 5 anos, não melhoraram mas também não pioraram; para o traço resistência à varroa os resultados foram muito desanimadores, não se verificaram melhorias consistentes, verificaram-se avanços e retrocessos ao longo dos 5 anos;
  • K. S. Delaplane acaba a dizer com algum desânimo que passados 5 anos de um trabalho muito sério, utilizando o programa de melhoria de abelhas mais sofisticado que dispomos na actualidade… selecionar para uma abelha melhor não conseguiu mostrar grande coisa, não conseguiu uma abelha geneticamente melhorada;
  • O investigador está a pensar numa outra hipótese/estratégia de trabalho: assentar o programa de melhoria numa característica da espécie, o acasalamento poliândrico. O caminho não é estreitar o “pool genético”, é alargar a diversidade genética. Os genes que desejamos são raros e recessivos, e podem estar presentes de forma homozigótica/recessiva em várias sub-famílias de abelhas numa colónia naturalmente poliândrica;
  • K. S. Delaplane conclui a sua apresentação afirmando: é possível seleccionar para o melhoramento de determinados traços nas abelhas; reter e propagar esses traço ao longo de várias gerações tem-se mostrado muito difícil; o produto (abelha) alcançado com os programas de melhoramento não tem sido suficientemente interessante; a poliandria é central na história evolutiva da abelha melífera; os dois programas de melhoramento, o poliândrico (natural) com a selecção para traços (o manipulado pelo homem) são compatíveis.

Pelo menos assim o deseja K. S. Delaplane, que nesta apresentação complexa apresentou os limites dos actuais programas de melhoramento de abelhas, a falta de resultados interessantes para os apicultores. Deixa, contudo, uma porta aberta para um caminho que se está a iniciar. Sem marketing ilusório, sem garantias que a “abelha perfeita” está logo ali ao virar da esquina, apenas a promessa de trabalho sério e honesto pela frente.

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