apimondia 2019: pesticidas, um tema em destaque

Não me surpreende que um dos temas privilegiado e mais discutido na Apimondia, este ano realizada no Canadá, seja o impacto dos pesticidas utilizados na agricultura sobre as colónias de abelhas melíferas. E não me surpreende por 4 razões sobretudo:

— é uma temática que tem sido alvo de numerosos estudos de natureza científica e a Apimondia é um dos palcos mais importante e natural para a apresentação destes estudos;

— estamos numa encruzilhada a este respeito, entre produtos e práticas ditas mais amigas das abelhas mas com impactos negativos na rentabilidade dos agricultores, segundo alguns, e a manutenção com melhorias muito gradualistas e lentas de algumas práticas culturais, sem rupturas e interdições radicais, mas que não salvaguardam as abelhas melíferas e outros polinizadores segundo outros, entre os quais muitos apicultores;

— porque sendo o Canadá, país com enormíssimas extensões de monocultura de canola, entre outras, onde se aplicam pesticidas da mais variada natureza, fará todo o sentido para os organizadores canadianos trazerem este tema para cima da mesa;

— porque, nesta área de estudo em particular, os resultados não são concludentes e não apresentam a convergência necessária para que suportem inequivocamente e com garantia decisões políticas, sejam num ou noutro sentido, decisões essas que podem ter impactos financeiros enormes e que os políticos não desejam tomar de ânimo leve.

Vejamos em baixo o que escreve P.B., um participante regular e respeitado no Bee-L, acerca de uma recente investigação apresentada na Apimondia, a decorrer nestes dias em Montreal no Canadá, sobre o impacto nas abelhas melíferas dos pesticidas utilizados pelo sector Agro-Industrial numa região dos EUA.

“O presente estudo descreve a exposição potencial a substâncias químicas no território de forrageamento de colónias de abelhas localizadas numa zona agrícola no sul dos Estados Unidos. Os locais de estudo foram selecionados para representar a diversidade da agricultura do Sul, bem como áreas com pouca ou nenhuma agricultura.

Dado que os pesticidas agrícolas eram aplicados rotineiramente em grande parte da paisagem ao redor do apiário, esperávamos que as abelhas fossem expostas a eles enquanto procuravam alimento nomeadamente através do néctar ou pólen contaminado ao redor das colmeias. Amostras de cera de abelha, pão de abelha, mel e abelhas foram pesquisadas quanto a 174 pesticidas agrícolas comuns e seus metabolitos. Desses, apenas 26 compostos foram detectados durante o estudo de dois anos:

um desfoliante, um regulador de crescimento de insectos, cinco herbicidas, seis fungicidas, seis inseticidas nunca utilizados na apicultura e cinco insecticidas / acaricidas e seus metabolitos, utilizados na apicultura e para diversos outros fins agrícolas, além de dois acaricidas usados ​​exclusivamente pelos apicultores para controlar o Varroa.

No geral, considerando o uso generalizado de pesticidas na paisagem ao redor do apiário no local da Alta Agro-indústria, as amostras de abelhas continham muito pouca contaminação.

No mel amostrado no local Alta Agro-indústria, os únicos contaminantes detectados foram flubendiamida (em 2014) e DMPF (2,4-dimetilfenil formamida) (em 2015). Isso concorda com Rissato et al. e Alburaki et al., que também consideraram as concentrações de pesticidas no mel muito baixas ou indetectáveis.

Isso é provável porque muitos pesticidas sintéticos são lipofílicos e se acumulam rapidamente na cera de abelha, mas não são especialmente solúveis no mel. Além disso, muitos insecticidas aplicados foliarmente actuam por contato e é improvável que estejam presentes no néctar coletado pelas abelhas.

Não foram detectados resíduos de pesticidas em amostras de abelhas adultas em 2014, nos locais de alta e baixa densidade agrícola. No entanto, como as abelhas adultas têm vida curta no verão, nossa amostragem limitada no final da temporada pode não ter detectado aplicações feitas anteriormente. Da mesma forma, em 2015, apenas produtos aplicados por apicultores foram detectados nas amostras de abelhas adultas.

[…]

Não surgem na lista de compostos encontrados os insecticidas da família dos neonicotinóides, que têm recebido uma atenção especial pelo seu papel suspeito no declínio de população de abelhas.

Apesar do amplo uso desses produtos químicos, apicultores amadores e profissionais continuam a manter colónias produtivas de abelhas em áreas com práticas agrícolas intensivas. Além disso, foi demonstrado que a produtividade das colónias aumenta com a proximidade das terras cultivadas, e as pesquisas também mostraram que as culturas em massa podem beneficiar abelhas silvestres e abelhas melíferas maneadas pelo homem, apesar de outros riscos decorrentes das práticas agrícolas e do maneio da terra.”

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