Preferência por açúcares e efeitos na digestibilidade alimentar e e longevidade das abelhas-mel
As abelhas-mel dependem fortemente de fontes externas de energia para sustentar as suas actividades metabólicas, o desenvolvimento das glândulas e a manutenção da colónia. Em condições naturais, essa energia é obtida sobretudo a partir do néctar floral, cuja composição é dominada por sacarose, glucose e frutose, em proporções variáveis consoante a espécie vegetal. Quando o néctar escasseia, a alimentação suplementar com xaropes de açúcar torna-se uma prática essencial em apicultura.
Os resultados deste estudo demonstram de forma consistente que as abelhas apresentam uma preferência marcada pela sacarose, especialmente quando fornecida em concentrações elevadas. Em todos os ensaios de escolha, tanto em gaiolas como em contexto de colónia, a solução de sacarose foi consumida em maiores quantidades do que as soluções de glucose, frutose ou misturas destes monossacarídeos.
Esta preferência alimentar não é apenas comportamental, mas está intimamente ligada à eficiência nutricional. As abelhas alimentadas com sacarose consumiram mais alimento energético e, simultaneamente, ingeriram maiores quantidades de pólen, o que sugere uma relação positiva entre a disponibilidade de sacarose e o estímulo da alimentação proteica.
Um dos resultados mais relevantes discutidos no artigo diz respeito à digestibilidade do pólen. As abelhas alimentadas com sacarose apresentaram melhores índices de digestão, evidenciados por uma menor quantidade de resíduos não digeridos no trato digestivo. Isto indica que a sacarose favorece um ambiente digestivo mais eficiente, potenciando a assimilação dos nutrientes do pólen.
Em contraste, as dietas baseadas exclusivamente em frutose ou glucose revelaram pior aproveitamento digestivo, apesar de serem açúcares simples. Estes resultados sugerem que a facilidade química de absorção dos monossacarídeos não se traduz necessariamente numa melhoria da digestão global da dieta sólida associada, como o pólen.
A sacarose, sendo um dissacarídeo, necessita de ser hidrolisada pelas invertases das abelhas antes de ser absorvida. Este processo parece desempenhar um papel regulador benéfico no metabolismo digestivo, promovendo uma libertação de energia mais equilibrada e compatível com os ritmos fisiológicos das abelhas-operárias.
Além disso, a presença de sacarose pode estimular a actividade das enzimas digestivas envolvidas na degradação das paredes do pólen, facilitando o acesso às proteínas, lípidos e micronutrientes nele contidos. Este efeito é particularmente importante para abelhas jovens, responsáveis pela produção de geleia real e pela alimentação da criação.
Outro aspecto discutido prende-se com a longevidade. As abelhas alimentadas com sacarose apresentaram maior sobrevivência ao longo do tempo, o que sugere que este açúcar não só é preferido, como também mais seguro e adequado do ponto de vista fisiológico quando comparado com frutose ou glucose isoladas.
Embora as abelhas alimentadas com frutose tenham apresentado, em alguns casos, níveis corporais de lípidos ligeiramente mais elevados, este efeito não se traduziu numa melhoria funcional da saúde ou da longevidade. Pelo contrário, pode reflectir alterações metabólicas menos eficientes ou até desequilíbrios energéticos.
É importante salientar que o teor de água corporal não diferiu significativamente entre os tratamentos, indicando que os efeitos observados se devem sobretudo ao tipo de açúcar ingerido e não a alterações na hidratação das abelhas.
Do ponto de vista da apicultura prática, estes resultados reforçam a ideia de que a sacarose é o substituto mais adequado do néctar natural. Não só é mais bem aceite pelas abelhas, como promove maior consumo de pólen e uma digestão mais eficiente, factores essenciais para a vitalidade da colónia.
A utilização de glucose ou frutose isoladas, apesar de energeticamente viáveis, pode comprometer o aproveitamento da dieta proteica e, a longo prazo, afectar negativamente o desenvolvimento das abelhas e a sua capacidade de trabalho.
Os autores sublinham ainda que a composição do xarope não deve ser avaliada apenas em termos de energia imediata, mas também pelo seu impacto indirecto na digestão do pólen e no equilíbrio nutricional global da abelha.
Em períodos críticos, como o final do inverno ou durante fluxos de néctar fracos, a escolha correcta do tipo de açúcar pode fazer a diferença entre colónias resilientes e colónias debilitadas. A sacarose surge, assim, como a opção mais segura e fisiologicamente compatível.
Em síntese, a discussão deste estudo confirma que a sacarose não é apenas preferida pelas abelhas-mel, mas desempenha um papel central na optimização da digestão, da ingestão proteica e da sobrevivência, reforçando a sua importância como base dos xaropes de alimentação suplementar em apicultura moderna.


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