Ao longo das últimas duas décadas, várias hipóteses tentaram explicar as perdas anormais de colónias de abelhas. Entre elas, duas surgem repetidamente: Nosema ceranae e Varroa destructor. A diferença entre ambas não está na sua presença — ambas são hoje comuns — mas no seu peso real enquanto causa de colapso. A sequência de estudos abaixo, apresentada por ordem cronológica, permite perceber como a evidência científica foi clarificando esta hierarquia.

2010 — Genersch et al.; Projeto Alemão de Monitorização de Abelhas (Apidologie, 2010)
Este foi um dos primeiros estudos longitudinais de grande escala: mais de 1200 colónias, acompanhadas durante vários anos, com análise simultânea de varroa, vírus, nosema, estado da colónia e fatores ambientais.
Os resultados foram consistentes: as perdas invernais correlacionaram-se fortemente com níveis elevados de Varroa destructor e vírus associados, sobretudo quando a infestação era alta no outono. Nosema spp. não surgiu como fator explicativo robusto nas análises multivariadas.
Conclusão-chave:
À escala populacional e temporal, o colapso de colónias está ligado sobretudo à varroa e às viroses, não à nosema.
2010 — Guzman-Novoa et al.; Invernagem no Ontário, Canadá (Apidologie, 2010)
Neste estudo de campo em condições reais de apicultura comercial, foram acompanhadas centenas de colónias durante o inverno. A análise focou-se na relação entre sobrevivência, níveis de varroa e presença de nosema.
O resultado foi inequívoco: mais de 80% das colónias que morreram apresentavam níveis elevados de varroa no outono. A presença de nosema não diferenciou colónias sobreviventes das colónias perdidas.
Conclusão-chave:
Quando a varroa está presente a níveis elevados, ela domina completamente o risco de mortalidade; a nosema torna-se irrelevante como causa primária.
2015 — Kielmanowicz et al.; Modelo preditivo de colapso (PLOS Pathogens, 2015)
Este estudo prospetivo acompanhou 179 colónias em três regiões climáticas dos EUA, sem tratamentos contra varroa ou antibióticos, permitindo observar a dinâmica natural de colapso. O grande avanço foi a criação de um modelo preditivo multifatorial.
O modelo mostrou que cerca de 70% dos colapsos podiam ser explicados por:
- Varroa destructor,
- replicação ativa do vírus das asas deformadas (DWV),
- e fatores climáticos em combinação com os anteriores.
Nosema ceranae não foi selecionada como variável preditiva relevante, apesar da sua elevada prevalência.
Conclusão-chave:
O colapso não ocorre porque a nosema está presente, mas porque a varroa amplifica viroses letais.
2015 — Dainat et al.; Predictive markers of honey bee colony collapse — PLoS ONE (2012)
Este estudo combinou dados de campo, patógenos e sobrevivência de colónias, procurando marcadores preditivos reais de colapso. Embora não seja o mais recente, é importante porque define o enquadramento epidemiológico moderno.
Conclusões relevantes:
- A replicação de vírus associados à varroa (especialmente DWV) foi o melhor preditor de colapso.
- Nosema ceranae não surgiu como marcador fiável de perdas.
- O colapso foi melhor explicado por interações varroa–vírus, não por infeções isoladas.
Conclusão clara: O colapso é um processo epidemiológico dominado por varroa e viroses; a nosema não funciona como marcador principal.
2018 — van Dooremalen et al.; Efeitos isolados e interativos (Ecosphere, 2018)
Neste ensaio experimental de campo, os autores testaram separadamente e em combinação:
- Varroa destructor,
- Nosema spp.,
- e exposição crónica subletal a imidacloprida.
O estudo mostrou que a varroa teve o impacto mais consistente na dinâmica das colónias, enquanto a nosema apresentou efeitos fracos ou contextuais, sem provocar colapso por si só.
Conclusão-chave:
Nem todos os stressores têm o mesmo peso: a varroa continua a ser o fator estruturalmente mais destrutivo.
2018 — Nazzi & Pennacchio; Disentangling multiple interactions in the hive collapse — Trends in Parasitology (2018)
Este é um dos artigos de revisão mais influentes da última década sobre colapso de colónias. Não é um estudo experimental, mas integra dados globais e propõe um modelo epidemiológico coerente.
Pontos centrais da revisão:
- Varroa destructor é o “driver” central que reorganiza todo o ecossistema patogénico da colónia.
- A varroa altera o panorama viral global, transformando DWV num agente altamente virulento.
- Nosema ceranae é classificada como stresso r secundário, com impacto dependente do contexto.
- Não há evidência sólida de que a nosema, isoladamente, cause colapso generalizado.
Conclusão clara:
O colapso de colónias é um fenómeno epidemiológico emergente dominado pela varroa; outros agentes, incluindo a nosema, orbitam esse núcleo causal.
2020 — Traynor et al.; Varroa destructor: A complex parasite, crippling honey bees worldwide — Trends in Parasitology (2020)
Categoria: revisão epidemiológica global (últimos 10 anos)
Este artigo revê décadas de dados de campo, genética, virologia e epidemiologia, com foco explícito na pergunta: porque é que as colónias colapsam?
Resultados-chave:
- A varroa é apresentada como o principal fator causal direto e indireto das perdas globais.
- O impacto real da varroa ocorre através da amplificação viral, sobretudo DWV.
- Nosema ceranae é considerada ubíqua, mas sem correlação consistente com colapso em estudos de larga escala.
- Onde a varroa é controlada eficazmente, as perdas caem drasticamente, mesmo com nosema presente.
Conclusão clara:
Se existe um fator epidemiológico dominante no colapso de colónias a nível mundial, esse fator é a varroa.
2021 — Neumann & Carreck; Honey bee colony losses — Journal of Apicultural Research (2021)
Esta revisão sintetiza dados europeus e globais recentes, incluindo monitorizações nacionais.
Conclusões relevantes:
- As perdas de colónias são multifatoriais, mas não simétricas.
- Varroa destructor permanece o fator mais consistentemente associado a perdas.
- Nosema ceranae é raramente identificada como causa primária, surgindo sobretudo como infeção concomitante.
Conclusão clara:
Multifatorial não significa “tudo pesa o mesmo”: a varroa pesa mais.
2023 — Schüler et al.; “Significativa, mas não biologicamente relevante” (Communications Biology, 2023)
Com base em 15 anos de dados, este estudo avaliou a relação entre infeções por Nosema ceranae e perdas invernais. Embora a nosema apresentasse associação estatística com perdas, o tamanho do efeito foi considerado biologicamente irrelevante.
Quando comparada com a varroa, a nosema não explicou nem previu a mortalidade.
Conclusão-chave:
A nosema pode estar presente, mas não explica o colapso; a varroa explica.

A leitura crítica de Randy Oliver sobre os estudos de Higes
Da hipótese à hierarquia real das causas
Ao longo de mais de uma década de análise de dados e ensaios de campo, Randy Oliver acompanhou criticamente os estudos de Higes e os trabalhos posteriores. A sua posição atual é clara:
- Nosema ceranae raramente é o motor principal do colapso,
- atua sobretudo como stressor secundário ou oportunista,
- enquanto Varroa destructor, através das viroses, é o verdadeiro fator estruturante das perdas globais.
Conclusão-chave:
Se a nosema fosse a causa dominante, os sinais seriam claros e repetíveis — e não são.
Conclusão geral
Quando se olha para estudos epidemiológicos e revisões de alto nível da última década, o padrão é extraordinariamente consistente:
- Varroa destructor → fator central, estruturante, dominante.
- Vírus associados (DWV) → mecanismo direto de colapso.
- Nosema ceranae → comum, por vezes agravante, mas epidemiologicamente secundária.
Perceber esta diferença não é apenas um debate académico: é a base para decisões eficazes no terreno, na investigação e no maneio apícola.
É sobre decisões eficazes no terreno que falaremos na próxima edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, a iniciar-se a 20 de fevereiro. Últimas vagas disponíveis (os interessados solicitem mais informação para o e-mail jejgomes@gmail.com)