Todos os anos, no final do verão e início do outono, repetem-se os mesmos relatos nos grupos apícolas: “a colónia desapareceu”, “estava fortíssima e de repente ficou vazia”, “devem ter abandonado a colmeia”.
A explicação parece simples. E, por isso mesmo, é confortável.
Mas na esmagadora maioria dos casos, não houve abandono.
Houve colapso por varroose — previsível, modelável e evitável quando se compreende a dinâmica do parasita ao longo do ano.
O mito do abandono e a realidade do colapso
O verdadeiro abandono (absconding) é raro em abelhas europeias e ocorre apenas sob condições extremas.
Em contrapartida, o colapso por varroa é hoje a principal causa de mortalidade de colónias e ocorre sempre no mesmo período: final do verão e outono.
O problema não é falta de relatos.
O problema é que os sinais são repetidamente mal interpretados.
Os sinais não enganam — apenas são ignorados
O padrão é conhecido:
- Colónias grandes, produtivas
- Aparência normal poucas semanas antes
- Desaparecimento rápido entre setembro e novembro
- Mel deixado na colmeia
- Alguma criação residual
- Poucas abelhas apáticas
- Rainha ausente ou isolada
Este conjunto de sinais não descreve abandono coordenado.
Descreve um colapso rápido por sobrecarga de varroa e vírus, típico de colónias que entram no outono já condenadas.
Porque morrem primeiro as colónias “melhores”
Este é um dos pontos mais difíceis de aceitar — e um dos mais importantes.
Colónias grandes:
- criam mais criação
- multiplicam mais varroas
- acumulam cargas parasitárias enormes durante o verão
Quando a criação diminui no final do verão:
- as varroas concentram-se nas abelhas adultas
- a carga viral dispara
- a colónia colapsa rapidamente
Por isso, a frase “não podia ser varroa, era a minha melhor colónia” está quase sempre errada.
Era precisamente por ser a melhor que estava mais infestada.
O verdadeiro erro: tratar sem compreender a dinâmica
Muitos apicultores tratam.
Mas tratam às cegas.
Tratam:
- demasiado tarde
- em momentos biologicamente desfavoráveis
- ou repetindo esquemas alheios sem relação com o seu apiário
Depois, quando a colónia colapsa, concluem que:
- “os tratamentos já não funcionam”
- “a varroa está impossível”
- “as abelhas desapareceram”
Na realidade, o erro aconteceu meses antes.
Em baixo, três fotografias minhas, captadas recentemente (janeiro de 2026).
São o reflexo da ligação entre o conhecimento técnico e o trabalho de campo — duas valências que me orgulho de conjugar e que considero essenciais para compreender verdadeiramente a varroose. É essa combinação, entre análise informada e observação no terreno, que me permite transmitir de forma clara, rigorosa e sem atalhos as mensagens-chave que importa dominar nas várias edições do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano.



O colapso por varroose não é súbito. É o resultado de uma dinâmica cumulativa, influenciada por:
- ritmo de criação
- tamanho da colónia
- eficácia real dos tratamentos
- escolha errada dos acaricidas em função do nível de infestação
- escolha errada dos acaricidas em função da extensão do período forético
- momento do ano em que são aplicados
O simulador de dinâmica da varroa permite visualizar exactamente isso:
- como a população de varroa cresce ao longo do ano
- quando um tratamento é eficaz… e quando já é tarde
- porque certos tratamentos “parecem resultar” mas falham no outono
- porque colapsam as colónias mesmo após terem sido tratadas
Quando se observa a dinâmica no simulador, o mito do abandono desaparece.
O colapso deixa de ser um mistério e passa a ser uma consequência previsível.
Da teoria à prática: aprender a decidir, não a copiar
É precisamente este salto — da reacção para a compreensão — que está no centro do curso “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano”
Neste curso, o foco não é:
- decorar calendários
- repetir receitas
- aplicar tratamentos por rotina
O foco é:
- compreender a dinâmica da varroa ao longo do ano
- usar o simulador para identificar os momentos críticos
- adaptar estratégias às condições específicas de cada apiário
- evitar tratar nos piores momentos, como fluxos de néctar ou armazenamento de mel
- reduzir drasticamente o risco de colapso no outono
Quem aprende a trabalhar com o simulador deixa de perguntar “o que correu mal?” Passa a saber quando e porque teria corrido mal.
Conclusão: quando se compreende a dinâmica, o colapso deixa de ser surpresa
Continuar a chamar “abandono” ao que é colapso por varroa não protege as abelhas. Apenas mascara erros de diagnóstico e adia a aprendizagem.
A varroose:
- não se controla com fé
- não se controla com tradição
- controla-se com compreensão da dinâmica e decisões informadas
E quando essa dinâmica é clara, uma coisa torna-se evidente: as abelhas não foram embora — morreram de varroa.
Se a leitura deste artigo o fez perceber que conhecer e saber operar com ferramentas de apoio à decisão e planeamento, como é o caso do simulador de crescimento da população de varroa, são fundamentais, então o curso Controlo efectivo da Varroa ao longo do ano foi pensado precisamente para si. Nesta nova edição, vamos muito além da aplicação de medicamentos de forma cega e tardia: trabalhamos a varroa como um problema biológico e populacional, integrado no ciclo anual da colónia, no clima e no maneio real do apiário.
O curso decorrerá online, via Zoom, nos dias 20 e 27 de fevereiro e 6 de março, com início às 20h30, permitindo participação a partir de qualquer ponto do país. Ultimas vagas disponíveis. Solicite mais informação para: jejgomes@gmail.com