as abelhas preferem verdadeiramente água “suja”?

Publicado há pouco mais de um mês “Study of honey bee (Apis mellifera) water preferences: do bees really like dirty water?” os resultados colocam em causa algumas crenças apícolas muito enraizadas de que as abelhas preferem consumir água “suja”, muito mineralizada.

Faço um resumo deste interessante artigo.

A água é um recurso essencial para as colónias de abelhas, desempenhando funções críticas na termorregulação da colmeia, na diluição do alimento larvar e na manutenção do equilíbrio fisiológico dos indivíduos. Apesar disso, a escolha das fontes de água pelas abelhas tem sido pouco estudada, sendo frequentemente observadas a recolher água em poças, charcos ou locais aparentemente “sujos”, o que levanta questões sobre os critérios que orientam esse comportamento.

O estudo “Study of honey bee (Apis mellifera) water preferences: do bees really like dirty water?” procurou compreender se as abelhas preferem de facto águas contaminadas ou se essa preferência resulta de factores específicos como a composição química, a mineralização ou a presença de determinados compostos dissolvidos.

Para responder a esta questão, os investigadores realizaram ensaios controlados em condições de semi-campo e de campo, disponibilizando simultaneamente às abelhas diferentes tipos de água: água destilada, água da chuva, água de piscina, água de charco natural, poças de explorações pecuárias e águas com diferentes níveis de diluição de chorume bovino.

Os resultados mostraram de forma clara que as abelhas não preferem águas altamente contaminadas ou muito mineralizadas. Pelo contrário, a água destilada e a água da chuva foram consistentemente as mais visitadas, revelando uma forte preferência por fontes de água quimicamente simples e com baixa carga mineral.

As águas provenientes de poças de bovinos e cavalos, ricas em sais, matéria orgânica e compostos nitrogenados, foram praticamente evitadas pelas abelhas. Mesmo em condições de temperaturas elevadas, que aumentam a necessidade de água da colónia, estas fontes continuaram a ser rejeitadas.

Um resultado particularmente interessante foi a elevada atratividade de águas com chorume extremamente diluído (0,1%). Esta observação sugere que não é a “sujidade” em si que atrai as abelhas, mas sim a presença de determinados compostos em concentrações muito baixas, possivelmente relacionados com micronutrientes ou sinais químicos específicos.

O estudo demonstrou também que a temperatura ambiente influencia o número total de visitas às fontes de água, mas não altera a hierarquia de preferências. Em dias mais quentes, as abelhas recolhem mais água, mas continuam a escolher preferencialmente as mesmas fontes de melhor qualidade.

A análise química das águas revelou que fontes muito mineralizadas, especialmente ricas em potássio, cálcio, cloretos e azoto, tendem a ser evitadas. Estes resultados reforçam a ideia de que as abelhas possuem mecanismos sensoriais finos que lhes permitem avaliar a composição da água, evitando concentrações potencialmente prejudiciais.

Este comportamento desafia a ideia simplista de que as abelhas “gostam de água suja”. Na realidade, o estudo mostra que as abelhas fazem escolhas altamente seletivas, procurando água que satisfaça necessidades fisiológicas específicas sem expor a colónia a riscos químicos ou biológicos.

Do ponto de vista da apicultura, os resultados têm implicações práticas importantes. Fornecer água limpa, estável e acessível no apiário pode reduzir a procura de fontes externas potencialmente perigosas, como águas contaminadas por pesticidas ou efluentes agrícolas.

O estudo também sugere que a composição da dieta, nomeadamente o pólen disponível, pode influenciar as preferências das abelhas por determinados tipos de água. Quando as necessidades minerais são satisfeitas pela alimentação, a procura de água mineralizada diminui.

Em síntese, este trabalho mostra que a recolha de água pelas abelhas é um comportamento complexo, adaptativo e finamente regulado, integrando necessidades nutricionais, sensoriais e ambientais. A água não é apenas um recurso funcional, mas uma peça integrada na ecologia nutricional da colónia.

Compreender estas preferências ajuda-nos a olhar para as abelhas com maior rigor científico e reforça a importância de práticas apícolas que respeitem não apenas a alimentação, mas também a gestão adequada da água como elemento essencial da saúde e resiliência das colónias.

A 3.ª edição do curso Nutrição Suplementar de Abelhas / Nutrição Apícola Aplicada, a realizar via Zoom nos dias 16, 23 e 31 de janeiro, com início às 20h30, irá aprofundar esta e outras questões frequentemente envoltas em mitos e simplificações excessivas na apicultura. Ao longo do curso serão analisados, de forma crítica e fundamentada, vários pressupostos comuns sobre alimentação, suplementação e necessidades nutricionais das abelhas, à luz da literatura científica mais recente e da experiência prática.

Para além do enquadramento teórico, o curso irá apresentar dados testados, ferramentas de cálculo, exemplos práticos e propostas economicamente vantajosas, pensadas para a realidade dos apiários. O objetivo é autonomizar e qualificar os apicultores, permitindo-lhes tomar decisões mais informadas, apoiar melhor as colónias ao longo do ano e, de forma consistente, aumentar o seu potencial produtivo e a resiliência das colmeias, sem recorrer a soluções simplistas ou descontextualizadas.

Enviar pedido de mais informações/interesse por via de mensagem através do blog ou para o e-mail jejgomes@gmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.