Há uma tendência recorrente na apicultura prática para tratar a enxameação como um acidente, um capricho da rainha ou uma falha de espaço. A perspetiva biológica apresentada por Randy Oliver no Scientific Beekeeping é substancialmente diferente: a enxameação é um processo previsível, desencadeado quando uma colónia atinge determinado limiar populacional em contexto de abundância. Não é um erro. É um imperativo biológico.
O ponto essencial é compreender que a enxameação não começa quando vemos realeiras. O apicultor que reage apenas ao que vê está inevitavelmente atrasado.
Na fase de crescimento primaveril, a colónia entra num período de expansão quase linear. A rainha pode estar a pôr 1500 a 2000 ovos por dia, a emergência de abelhas jovens ultrapassa claramente a mortalidade e a população acumula-se dentro do ninho. Durante algum tempo, tudo parece ideal: mais abelhas, mais criação, mais potencial produtivo. Mas é precisamente esta acumulação demográfica que prepara o terreno para a divisão.
Em paralelo, altera-se a estrutura etária interna. A proporção de abelhas jovens aumenta, acumulam-se nutrizes e a dinâmica de circulação interna modifica-se. A colónia deixa de estar apenas a crescer; começa a reorganizar-se. Do ponto de vista biológico, já entrou na fase pré-enxameatória. Quando finalmente aparecem realeiras, estas são apenas a expressão visível de um processo que já estava em curso.
O grande desafio para quem produz mel é evidente: precisamos de colónias fortes no início do fluxo principal, mas é precisamente nesse pico populacional que o risco de enxameação se torna máximo. Se limitarmos demasiado cedo o crescimento, sacrificamos produção. Se deixarmos crescer sem controlo, a própria força acumulada transforma-se no gatilho da divisão. O equilíbrio exige compreensão demográfica, não apenas intervenção pontual.
É aqui que muitos mitos persistem. A idade da rainha pode influenciar, mas não explica sozinha o fenómeno. Adicionar espaço pode atrasar o processo, mas não o elimina se a densidade interna já ultrapassou o limiar crítico. Destruir realeiras ataca o sintoma, não a causa. Se a condição biológica se mantém, a colónia voltará a iniciá-las. A enxameação não é uma decisão emocional da colónia; é a consequência lógica de uma equação populacional.
Quando olhamos para este processo de forma estruturada, percebemos que a prevenção não começa com a inspeção das realeiras.
A lição central desta perspetiva é simples, mas exigente: a enxameação é previsível para quem compreende a biologia da colónia. Não é um mistério, nem uma fatalidade inevitável. Quem aprende a ler esses sinais atempadamente deixa de lutar contra a natureza da abelha e passa a trabalhar com ela.

É precisamente este o ponto de partida do curso “Prevenção e controlo da enxameação e multiplicação de enxames”, cuja 6.ª edição decorre hoje, e onde aprofundamos esta leitura demográfica da colónia de forma estruturada e aplicada ao terreno. A próxima edição já está agendada para o dia 9 de março, em formato via Zoom, para todos os que pretendem substituir a reação tardia por uma estratégia técnica, antecipada e biologicamente fundamentada.
Solicitar mais informações para o e-mail jejgomes@gmail.com