um dia com as abelhas

A Filipa Almeida, com a generosidade que está na sua natureza, autorizou-me a publicar este diário de um dia do seu trabalho. O texto é seu e as fotos também. Um beijo Filipa!

6:00 Na primavera, acordo com a claridade dos primeiros raios de sol que timidamente surgem pela janela sempre aberta. É o amanhecer que dita a hora de levantar.

6:30 Preparo o pequeno almoço com tudo o que uma apicultora tem direito (sempre com mel Apijardins e pólen q.b.) 7:00 Depois do reforço que só os produtos das colmeias podem dar, passo pelo computador para responder aos emails e encomendas da Apijardins, e levar a lista de trabalhos preparada no dia anterior. 7:30 No armazém, verifico ansiosamente o material que foi preparado no dia anterior e deixo as encomendas prontas a recolher. 8:00 Viagem para o campo (apiários).

Pelo caminho organizam-se mentalmente os pormenores das tarefas que não poderei esquecer. O som da música e a paisagem como cenário alimentam o sonho de uma primavera generosa. 8:30 Chego ao apiário, respira-se com a mesma profundidade com que se vem ao mundo, e inicia-se o trabalho cujo fim nunca tem hora marcada.

O tempo é definido pelas abelhas, em função da atenção que cada colmeia reclama. Ao final da manhã, os aromas das flores intensificam-se, as abelhas buscam alimento fora, e, mais calmas, permitem-me aproveitar tranquilamente o tempo.

14:30-15:00 Almoço tardio, frequentemente no campo, dependendo do sítio, na zona com vista mais ampla, ou junto à água do rio circundante. No campo, as flores alimentam as abelhas e a paisagem que lhes serve sustenta o edifício inteiro de uma paisagista e apicultora.

É sempre tarde, mas com o sentido de dever cumprido e de que nenhuma colmeia ficou sem o cuidado que merece. 15:30 Regressa-se ao trabalho, no compasso com que o sol da tarde se deita e com ele termina sempre. 19:30 Por do sol, o momento alto do dia que faz todo o trabalho valer a pena. É o olhar a luz quente e viva do por do sol que me conforta e dá sentido e significado ao dia.

21:00 Jantar leve, porque, tal como as abelhas, a nossa alimentação é sagrada. 21:30 Retomo o trabalho do dia anterior, no ponto em que ficou. Dedico-me aos projetos, que durante os dias, nas pequenas pausas de um olhar sobre a envolvente, invadiram o pensamento. Sim, porque as melhores ideias surgem sempre quando menos se espera e no contexto mais inesperado, naquele fugaz instante em que, maravilhada com a natureza, me distraí nas soluções. E entusiasmada com os detalhes, detenho-me, ali, na companhia inseparável da música, até o cansaço me invadir, o que acontece pelas 00:30. Adormeço a pensar sobre as ideias, os esboços e, frequentemente, sonho com eles. O que sei sobre a importância das flores para abelhas nunca é esquecido na escolha cénica das plantas nos jardins. Aquilo que sou como apicultora e arquiteta paisagista mistura-se, e nessa junção resultam sempre espaços mais ricos e floridos para pessoas e abelhas. Este horário transforma-se no Outono/Inverno, altura em que os dias começam mais tarde. Sim, à semelhança das abelhas, também sou filha do sol. Preciso dele como ar que respiro. As horas são então ocupadas pelas obras desenhadas na primavera. Cada projeto e obra são únicos e merecem de mim toda a atenção, desde a curva traçada no papel, à plantação e entrega do espaço ao tempo, que a natureza vai terminar por mim. Porque cada espaço da Apijardins é concebido para viver por si, aos ritmos da natureza, com flores únicas em cada estação, cores, aromas e texturas diferentes em cada momento. Eu sou a mão, o cérebro e o coração com que a natureza desenha e ganha prémios a valer. Viver no meio da natureza, trabalhar com ela e para ela, dá-me tudo. Tudo para poder ultrapassar até o improvável, porque o que a experiência de viver nela nos oferece é infinitamente maior ao que se possa imaginar. 

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