quadros iscados: vantagens e desvantagens

Na tentativa de atingir um ou vários objectivos em simultâneo alguns apicultores utilizam quadros iscados (quadros com uma tira de cera laminada de 2 cm ou mais), deixando às abelhas a tarefa de completar com favo natural a restante superfície do quadro.

Fig. 1 Quadro iscado

Regra geral esta opção visa um ou vários objectivos:

  • redução dos gastos com cera laminada;
  • reduzir a quantidade de resíduos químicos na cera;
  • deixar às abelhas a escolha da dimensão do alvéolo;
  • combater o varroa;
Fig.2: Abelhas cerieiras construindo favo

Sendo relativamente consensual entre os apicultores que os quadros iscados permitem atingir estes objectivos, fico com a ideia que alguns de nós leram apenas o primeiro capítulo deste livro e não tiveram tempo para ler ou ignoraram o segundo capítulo da obra. Vejamos com mais amplitude.

Vários apicultores nacionais e estrangeiros, entre os quais me incluo, que tentaram no passado, alcançar um ou vários dos objectivos atrás elencados, depararam-se com um resultado que os surpreendeu. Muitos dos favos construídos pelas abelhas apresentavam um grande número de alvéolos de zângão. Em alguns casos, a nova cria de zangãos situava-se entre os 25% a 50% da população total: por cada duas abelhas foi criado um zângão, nos casos mais extremos. Como não pode deixar de ser, vastas quantidades de recursos da colmeia vão para a alimentação deste mar de larvas de zângão, recursos que continuam a ser gastos durante a sua adultez. Em vez de ter obreira lá fora, colectando mel e criando mais obreiras, o apicultor tem milhares de zângãos (podendo ultrapassar os 10 mil por colónia), deambulando pelas colmeias, transferindo não só o seu charme mas também doenças e parasitas entre colmeias e esperando para serem alimentados.

Está relativamente bem estabelecido que as colónias de abelhas selvagens criam cerca de 25%-30% de zângãos, a maioria no período de pré-enxameação. Esta elevada quantidade de zângãos foi definida por milhões de anos de evolução da espécie. Este comportamento é instintivo e universal. Sempre que o apicultor coloca na sua colmeia quadros iscados no período pré-enxameação, numa colmeia forte, numa colmeia com uma rainha madura e num período de expansão/crescimento da colónia não se deve surpreender que cerca de um terço da criação total da colónia seja de zângãos.

O que fazem os apicultores para contrariar, em parte, este comportamento? Colocam cera estampada com alvéolo de obreira a cobrir praticamente toda a superfície do quadro. Assim conseguem reduzir para 10%-15% a quantidade de alvéolos de zângão produzidos pelas abelhas numa temporada. Existem muitas razões pelas quais os apicultores desenvolveram a cera pré-estampada, e esta é uma delas.

Uma coisa a lembrar é que a maioria da cria de zângão é feita no início da primavera, pouco antes e durante a época da enxameação reprodutiva. Depois desta época a criação de zângãos baixa acentuadamente. Ou porque desejamos poupar algum dinheiro na cera, ou por outro motivo, esta será a janela de oportunidade para utilizar os quadros iscados: no período pós-enxameação reprodutiva, nunca antes e/ou durante este período. Conhecendo mais e melhor as abelhas permite-nos trabalhar lado a lado com elas, numa simbiose cada vez mais completa.

As abelhas em regra dão o que os apicultores desejam, mas devemos conhecer os ciclos, os timings, os mecanismos subjacentes, para os utilizar em nosso favor e tudo isto sem lhes causar dano, pelo contrário ajudando-as a defender-se dos seus inimigos. E na actualidade ter menos criação de zângãos nas colmeias é mais saudável que ter mais criação de zangãos, como todos sabemos.

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