perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2015-2016: dados, análise e discussão

Encontramos aqui  uma vez mais um excelente relatório produzido pela Chambre d’Agriculture d’Alsace com a análise e discussão dos dados recolhidos através das 248 respostas ao inquérito apresentado, e que descrevem 8 686 colmeias repartidas por 604 apiários. Uma amostra que merece o nosso respeito, julgo eu, e um relatório que recomendo fortemente a sua leitura por quem tem alguma facilidade no francês.

Para os companheiros que da bela língua francesa nada pescam deixo aqui um apanhado, na nossa bem-amada língua, de alguns aspectos que me parecem muito relevantes no actual contexto de assuntos debatidos no blog “abelhas à beira”:

  1. a média de perdas invernais é mais baixa quando os tratamentos anti-varroa são colocados em Julho (12, 7%). Quando os tratamentos são colocados em Agosto, Setembro ou Outubro, as perdas invernais são de 19,5%, 20% e 26,3%, respectivamente;
  2. a média de perdas invernais é mais baixa quando o tratamento anti-varroa utilizado é o Apivar (13,5%). Seguem-se o ácido fórmico e o MAQS (17,9%), os tratamentos caseiros com amitraz (21,7%), o Apistan (22,6%). Os menos eficazes são os produtos com base no timol, Apiguard, ApilifeVar e Thymovar associados a perdas invernais de 31,9%;
  3. a média de perdas invernais é mais baixa na categoria de apicultores com mais de 100 colmeias (18% de perdas) e mais alta na categoria de apicultores com menos de 10 colmeias (26,7% de perdas).

Estes dados apresentados em cima resultam dos dados recolhidos por inquérito ao longo dos últimos 7 anos pela Chambre d’Agriculture d’Alsace. Não acredito no Pai Natal, mas quem sabe se a FNAP orientará mais os fundos que dispõe para uma linha de investigação deste tipo, do que para certos tipos de investigação que nem ao Menino Jesus interessam. Se estes inquéritos fossem realizados em Portugal e os seus resultados devolvidos/publicados junto dos apicultores portugueses, conheceríamos muito melhor a nossa realidade, orientaríamos as nossas acções de acordo com as análises e discussões deles resultantes e alguns de nós, os mais inexperientes porventura, estariam menos vulneráveis a certos conteúdos mal-amanhados ou amanhados à pressa e que vão sendo publicados por aí na rede.

Não quero terminar sem deixar de enfatizar um dado apresentado no relatório acerca do efeito da eliminação de zângãos/corte de zângãos nas perdas invernais de 2016-2017:

  • as perdas invernais de colmeias onde o apicultor aplicou a técnica de eliminação de zângãos/corte de zângãos foi de 19,7%;
  • as perdas invernais de colmeias onde o apicultor não aplicou a técnica de eliminação de zângãos/corte de zângãos foi de 13,6%.

É com relativa surpresa que constato que a eliminação de zângãos não melhora a taxa de sobrevivência invernal, confiando nos dados deste relatório. Vamos ver se os dados de futuros relatórios confirmarão que o corte de zângãos tem um efeito nulo, ou até negativo, na sobrevivência invernal das colónias de abelhas. Serão as alegadas virtudes do corte de zângão para o controle/redução da taxa de infestação pela varroa mais uma “inverdade”, como muitas outras em apicultura, que resulta de opiniões mal-fundamentadas mas que repetidas até à náusea se tornaram “verdades” de que ninguém duvida?

Fig. 1: Quadro preparado para criação intensiva de zângãos no âmbito da utilização da técnica eliminação de zângãos/corte de zângãos.

Nota: um efeito negativo da produção excessiva de zângãos sobre a produtividade das colmeias é mencionado neste estudo aqui traduzido.

4 thoughts on “perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2015-2016: dados, análise e discussão”

  1. O corte de zangão é “per si” apenas um redutor de varroas na colmeia. Tem obrigatóriamente de ser acompanhado por uma medida de controlo de varroa forética para que o controlo seja efetivo. Assim feito por 2x e podemos dizer que tem eficássia equivalente a um tratamento bom.
    Caso seja uma medida isolada e extemporânea, práticamente nada de bom retiraremos disso…
    Ou seja, apenas chegar e cortar o zangão por uma vez, sem mais nenhuma medida…é por si só ineficaz, e se acompanhada por um não tratamento da colmeia, óbviamente que será perdido esse enxame.
    Todas as técnicas de apicultura que se baseiam em acção mecânica, varroacidas fracos (orgânicos), timol e biodinâmica, têm de ser entendidas de uma forma totalmente distinta à aplicação de químicos de pacote. Hoje em dia com o fecho por parte do PAN a 1 homologado anual, a mau ano de produtividade de mel da maioria das regiões, e ao mau estado das finanças de muitos apicultores…urge ganhar estes conhecimentos.

    1. Bom dia, Afonso!
      Cito esta afirmação que fazes no comentário em cima a propósito do corte de zângãos:
      “Assim feito por 2x e podemos dizer que tem eficássia equivalente a um tratamento bom.”

      Esta afirmação é de uma ligeireza que não me surpreende vinda de ti. Surpreende-me, isso sim, que não defendas que para além do corte 2x dos zângãos, que equivale de acordo com as tuas palavras a um tratamento bom, a utilização do sumo de limão. Fizeste frequente e intensamente e num passado recente a defesa desta estratégia contra a varroa. Mas seria bom vires dizer publicamente porque deixaste de falar no sumo de limão como um potente acaricida. Isto porque vários apicultores que experimentaram o sumo de limão me confidenciaram que não é eficaz. Eu sempre desconfiei que não era um acaricida bom, nem mesmo mais-ou-menos bom. É, na melhor das hipótese, um acaricida muito fraquinho. Ver mais aqui: http://abelhasabeira.com/?s=sumo+de+lim%C3%A3o

      Voltando à tua afirmação de que 2 cortes de zângão equivalem a um tratamento recomendo-te a leitura atenta do que é referido no relatório na pg. 6 acerca dos resultados apresentados. Os autores escrevem “Le tableau 5 indique les pertes respectives enregistrées dans les groupes « avec » ou « sans » retrait du couvain. La catégorie « avec retrait » ne comprend que les personnes ayant réalisé un minimum de 3 découpes de couvain mâle. ” Traduzindo livremente o que interessa para o caso é-nos dito clara e precisamente que os dados que foram considerados registram as perdas invernais dos apicultores que realizaram no mínimo 3 cortes de zângão e que trataram com acaricidas. Pergunto quais seriam os resultados com apenas 2 cortes de zângãos e sumo de limão?

      Como disse no meu post, vamos esperar por mais dados para tirar conclusões mais definitivas. Até lá continuar a defender que 2 cortes de zângão equivale a um tratamento e bom é no mínimo muito imprudente.

  2. Olá Afonso e Eduardo

    É bom sentir a força e sinceridade das vossas convicções. É por isso que vos acompanho. Saber quem tem razão nisto ou naquilo, para já, é secundário. O tempo dirá. Sinto que caminhais por dois caminhos paralelos.
    Eu, também, navego entre o entusiasmo bipolar e a crença fundamentalista na ciência.
    Tanto como Vós acredito que a apicultura sairá, um dia, do pântano em que se imobilizou, não sei quando e ao contrário de Vós baixei os braços.
    Abraços meus.

  3. Boa tarde!

    Não querendo alimentar discussão, e conhecendo o Afonso como conheço sei que não me vai levar a mal pelas palavras que vou escrever em seguida.

    Sou apicultor à 14 anos e na senda do controle da varroa também em tempos idos me deixei levar por supostos tratamentos milagrosos e passados estes anos todos na boa verdade chego à triste conclusão de que uma apicultura isenta de químicos é uma utopia. Mesmo usando o fórmico e oxálico a verdade é que são obtidos através de síntese química e só para dar o exemplo à conclusão que quero chegar, lembremo-nos dos efeitos nefastos do ácido cítrico de síntese no corpo humano e que é amplamente usado como conservante em alimentos pré-preparados. Já o mesmo composto quando obtido na natureza (como no sumo de limão) tem efeitos benéficos.

    Com isto quero dizer que acredito numa solução integrada com métodos biomecânicos e acaricidas orgãnicos e de síntese. Mas os métodos biomecânicos não os entendo apenas como corte de cria de zangão, para mim é mais importante a paragem da postura da rainha, porque só isso efectivamente corta o ciclo de reprodução da varroa. Eu consigo isso durante a primavera porque nas colmeias que tentam enxamear propositadamente desdobro ou elimino a rainha, e nessa colónia durante 30 dias a varroa não se reproduz, traduzindo um ganho extra de tempo até à aplicação do acaricida após a cresta. Já no Verão e este ano foi ainda mais acentuado na minha zona, ocorre a diapausa da rainha, fruto da violência da estação…

    Recentemente fui submetido a uma inspecção PICOA, e confesso que apesar da atitude educativa e perfeitamente adaptada por quem conhece a realidade do sector, fiquei um pouco constrangido com este tipo de acções quando o julgo que o caminho a tomar deve ser diferente, por isso concordo consigo Eduardo quando diz que a FNAP e associações similares deveriam apostar mais nos estudos estatísticos junto dos apicultores que efectivamente mexem nas abelhas e não em muitos pseudo projectos pró apicultura que não dão em nada como os de estudo do adn mitocondrial das abelhas rainha só para saber se afinal elas são da linhagem M ou C ou A???? O que efectivamente interessa isso aos apicultores de pequena escala como eu???

    Cumprimentos

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