morta ou viva: o Vírus das asas deformadas e o Varroa destructor reduz a esperança de vida das abelhas de inverno

Nesta nova categoria, designada estudos, conto ir colocando posts com traduções de estudos científicos que nos possam ajudar a compreender e até a perspectivar melhor as nossas abelhas e o seu mundo, hoje e no futuro.

Sumário/Abstract

“As elevadas perdas de colónias de abelhas no Inverno são uma grande preocupação, mas os mecanismos subjacentes permanecem controversos. Entre os suspeitos estão o ácaro Varroa destructor, o microsporídio Nosema ceranae, e os vírus associados. A nossa hipótese é que os agentes patogénicos reduzem a esperança de vida das abelhas de inverno, constituindo assim um mecanismo imediato para perdas de colónias. A monitorização das colónias foi realizada ao longo de 6 meses na Suíça a partir do Verão de 2007 e Inverno de 2007/2008. As obreiras que foram morrendo foram recolhidas diariamente e analisadas quantitativamente para o vírus das asas deformadas (VAD), o vírus da paralisia aguda da abelha (VPA), Nosema ceranae, e os níveis de expressão do gene da vitelogenina, como um biomarcador para a longevidade da abelha. As obreiras de colónias que não conseguiram sobreviver no inverno tinham uma vida útil reduzida logo no final do outono, tinham maior probabilidade de estar infectadas com o VAD, e tinham cargas mais altas de VAD. A infecção ao nível da colónia com o ácaro Varroa destructor e infecções ao nível individual com VAD também foram associados com reduzida esperança de vida das abelhas. Em nítido contraste, o nível de infecção Nosema ceranae não se correlacionou com a longevidade. Além disso, a expressão do gene da vitelogenina foi significativamente correlacionado de forma positiva com VPA e com as cargas de N. ceranae.

As descobertas sugerem fortemente que a V. destructor e o VAD (mas não a N. ceranae nem o VPA) reduzem o tempo de vida das abelhas de inverno, constituindo assim um mecanismo directo possível para perdas de colónias de abelhas.”

fonte: http://aem.asm.org/content/78/4/981.long

20141008-0032-150x150

Fig. 1 — Abelha com as asas deformadas por acção do VAD

tenho que fazer cera

Nas abelhas Apis mellifera, a cera é uma substância secretada por meio de oito glândulas cerígenas, que estão localizadas na parte inferior do abdômen, sendo libertada na forma líquida e que ao entrar em contacto com o ar solidifica e fica em forma de lâminas brancas que são perfeitamente visíveis.

images

Fig. 1 — Abelha a produzir pequenas escamas de cera nas oito glândulas cerígenas

Estas pequenas escamas de cera nova são produzidos por abelhas operárias com idade entre 12 a 18 dias de vida adulta. Após este período, normalmente as glândulas atrofiam-se e param de funcionar nas abelhas mais velhas. A cera pura, tal como se encontra nas escamas secretadas pelas operárias, é branca, e a coloração final dependerá da presença de pólen e própolis. A cera contém mais de 300 componentes, o que ilustra bem a complexidade deste composto.

Sabendo que a época de produção de cera pelas abelhas varia com os locais e até com os anos, importa ao apicultor ir precisando no seu calendário apícola a altura do ano em que as abelhas a produzem num ritmo intenso e rápido. Assim, o apicultor munido desta informação pode organizar devidamente a colocação das lâminas de cera nos quadros e, sobretudo, gerir o momento mais oportuno para ir colocando os quadros de cera laminada nos ninhos das suas colmeias. Será muito perturbador para a colónia ver colocados no seu ninho quadros de cera laminada quando as abelhas ainda não estão preparadas para os  puxar. Estes quadros, ao invés de terem um papel na expansão da câmara de criação como era intenção do apicultor, acabam por constituir barreiras às abelhas, quais muralhas de uma fortificação.

É sabido que que as abelhas campeiras/forrageiras não armazenam o néctar nos favos; elas transferem a sua carga de néctar para as abelhas armazenadoras mais novas que estão na entrada da colmeia. Quando estas abelhas armazenadoras estão cheias, partem à procura de um local, no interior da colmeia, onde possam armazenar o néctar. Se depois de um tempo razoável (o “tempo razoável” não parece estar bem determinado na literatura, mas provavelmente será alguns minutos) a abelha armazenadora não encontra um alvéolo onde depositar o néctar — um que não esteja já cheio de néctar, que não esteja a ser utilizado por outra abelha, ou que não tenha cria — acaba por ingerir o néctar. Neste processo, o néctar, que era parte da colheita, acaba no sistema digestivo da abelha. Este consumo elevado de açucares transforma estas abelhas em produtoras de cera, em abelhas cerieiras. Esta transformação é um ponto crítico na vida da colónia de abelhas ao qual o apicultor deve estar muito atento.

images-3

Fig. 2 — Cacho de abelhas a construírem favo novo

A minha experiência diz-me que estas abelhas cerieiras estão em grande número e “esfomeadas” por fazerem cera quando começo a ver pequenas extensões de cera nova, muito clara, a aparecerem nas faces laterais dos travessões superiores dos quadros.

images

Fig. 3 — Pequenos favos adventícios de cera nova

Esta transformação começa usualmente quando 60-70% do espaço disponível para o armazenamento está ocupado. As abelhas, que se converteram às tarefas de produzir cera e construir favos, visitam frequentemente a entrada da colmeia para se reabastecerem de combustível junto das abelhas forrageiras.

images-1

Fig. 4 — Cera branca na face interior da prancheta

Quando o fluxo de néctar termina, este comportamento cessa também. A necessidade de construir favo novo cessa com o abrandamento e fim do fluxo de néctar. Este mecanismo autorregulado permite e garante que as abelhas não construam mais favo do que aquele que necessitam.

Uma questão que divide os apicultores gira em torno de como apresentar a cera laminada às abelhas para que elas procedam o mais rapidamente possível à construção dos favos para armazenar o mel. Será ou não importante colocar as quadros com cera laminada logo por cima do ninho? Como já foi referido, o que mais importa nesta equação é a necessidade que as abelhas sentem de construir favo novo e um fluxo de néctar generoso que forneça o combustível à realização desta tarefa. Acrescento que, em geral, a puxada de cera é mais fácil no local mais quente da colmeia, e este local é imediatamente por cima do ninho. No entanto, se os dias estiverem quentes e se houver um fluxo de néctar generoso, as abelhas puxarão alegremente a cera se a alça ou meia-alça de cera laminada estiver mais distante do ninho, no topo da colmeia. Colocar um ou dois quadros com mel nesta caixa do topo poderá encorajar as abelhas a subirem e a puxarem a cera laminada mais cedo.

images-2

Fig. 5 — Quadro puxado com cera nova

dando espaço à postura de uma rainha prolífera

A Lei de Farrar é muito clara relativamente à relação que existe entre o número de abelhas de uma colónia e a produção de mel. Mais, diz-nos que esta relação é não-proporcional, isto é, uma colónia de 60 000 abelhas produz mais que duas colónias com 30 000 abelhas.

Em Portugal, os modelos de colmeias mais utlizados são a reversível, a lusitana e a langstroth. Estes ninhos, na configuração de um só andar, não têm uma dimensão suficientemente ampla para albergar a postura de uma rainha prolífera na altura do pico de postura que, em geral, ocorre na primeira metade da primavera. Alguns apicultores, conhecendo os constrangimentos destes ninhos, colocam uma segunda caixa, o chamado sobre-ninho ou segundo ninho, de igual dimensão para duplicarem o espaço da câmara de criação. Esta solução, com alguns inconvenientes não o negamos (ver post relacionado), justifica-se pelo facto de potenciar o desenvolvimento de colónias mais populosas, logo mais produtivas e, em simultâneo, promover o descongestionamento do ninho, reduzindo o potencial de enxameação (ver post relacionado).

Mas… (há sempre um “mas”, não é?) para que o efeito do sobreninho seja optimizado e se concretize em colmeias mais populosas e menos congestionadas há um “saber-fazer”, que tem de ser dominado pelo apicultor que deseja fazer da apicultura algo mais do que um simples acto de colocar caixa sobre caixa.

Neste sentido vamos identificar duas técnicas, a saber, pyramiding e checker boarding. Vou manter as designações em inglês pela simples razão da minha dificuldade em traduzi-las de forma satisfatória para o português.

Pyramiding é uma técnica que pode ser utilizada para dar um acesso rápido quer à rainha quer às obreiras ao sobre-ninho, permitindo um aumento da postura e população e, simultaneamente, reduzindo o congestionamento no ninho. Esta técnica é desencadeada com a colocação  do sobre-ninho sobre a colmeia que até aí tinha apenas um ninho. Se possível, é desejável utilizar quadros com cera puxada, mas se tal não for possível podem ser utilizados quadros com cera moldada. O diagrama em baixo ilustra como os quadros são reconfigurados quando utilizamos esta técnica com quadros de cera puxada.

Screen Shot 2016-01-30 at 16.47.11

Screen Shot 2016-01-30 at 16.56.06

Com os diagramas à nossa frente, passo agora à descrição passo a passo da técnica pyramiding:

1— Crie um espaço na nova caixa a adicionar (o sobre-ninho) retirando 3 quadros de cera puxada do centro desta caixa;

2— Tire 2 quadros com criação do ninho e um quadro com mel e pólen do ninho original e coloque-os no espaço central criado na nova caixa;

3— Centre os quadros com criação na caixa original e preencha os espaços vazios nas laterais da câmara de criação com quadros vazios (preferencialmente com cera puxada) retirados da nova caixa/sobre-ninho.

Depois de colocada esta segunda caixa ou sobreninho, mais opções ficam disponíveis por forma a reduzir o congestionamento e ajudar a prevenir a enxameação. Devido à tendência natural das abelhas fazerem o seu movimento para cima, a partir de um certo momento a probabilidade de a câmara de criação se localizar neste segunda caixa é grande. Neste caso, a caixa superior e a caixa inferior podem ser invertidas. Esta operação estimula as abelhas a acederem e a utilizarem de forma mais equilibrada as duas caixas aos invés de uma só.

Uma situação menos comum surge quando a rainha está a fazer criação em simultâneo nas duas caixas, ninho e sobreninho. Apesar de não utilizar o modelo reversível, tudo me leva a crer que esta situação é relativamente comum neste modelo de colmeia (aqueles que utilizam este modelo e que me estiverem a ler podem confirmar ou infirmar esta ideia fazendo um comentário). Nesta circunstância a inversão das caixas pode não ser adequado porque pode resultar numa divisão indesejada da câmara de criação ou ainda porque esta inversão não diminui de forma notável o congestionamento de abelhas nos ninhos. Outra acção deverá ser tomada que não a inversão das caixas. Para gerir esta circunstância, rainhas a fazer postura nas duas caixas, ninho e sobre-ninho, podemos utilizar a técnica do checker boarding, com o objectivo de aliviar o congestionamento do ninho e assim reduzir o impulso da enxameação.

Lembremo-nos que como resultado da enxameação por falta de espaço, perdemos não só a rainha e 40 a 50% das abelhas, mas também a esperança de aquela colónia vir a fazer uma boa produção de mel. Não nos podemos esquecer que metade das abelhas produzem menos que metade do mel.

Sobre o checker boarding escreverei mais adiante.

abelhas no desemprego… à beira da enxameação

As colónias de abelhas iniciam a criação de realeiras de enxameação durante um período de rápido crescimento da população de novas abelhas obreiras (ver post relacionado). A altura do ano em que este fenómeno ocorre varia com as zonas e é do interesse do apicultor ir anotando de ano para ano quando se inicia e quando abranda ou pára. Para além deste calendário pessoal, deverá olhar também para as florações que habitualmente estão associadas ao arranque da enxameação.

Por norma, verificamos que nas semanas anteriores à enxameção a entrada de pólen nas colmeias é intensa, que um fluxo de néctar, ainda que relativamente lento está a decorrer, que as temperaturas sobem, com as máximas a tocar frequentemente os 20ºC — 22ºC e as mínimas não descem abaixo dos 12ºC—15ºC. Estamos num contexto de relativa abundância de recursos e as abelhas andam felizes.

Nestas condições, a rainha, intensamente alimentada pelas suas aias, aumenta gradualmente a sua postura e acaba por atingir o pico, que mantém por alguns dias, após os quais diminui gradualmente o ritmo de postura. As 2 a 3 semanas após este pico são semanas que enchem de alegria todos os apicultores, que se apercebem do bom ritmo a que as suas colónias crescem. Mas, fora do seu olhar, está a germinar um fenómeno com uma importância crítica na vida daquela colónia: a predisposição para se reproduzir através da enxameação. Analisemos com algum detalhe este momento.

1a (11)

Fig. 1 — Quadro típico de criação operculada numa época em que a rainha atingiu o seu pico de postura

Lembremo-nos que a rainha atingiu o seu pico de postura, e nas 2 a 3 semanas seguintes vão nascer muitas abelhas novas. O pico de nascimento destas abelhas coincide com um momento em que a rainha já abrandou o seu ritmo de postura. Em quadros onde 2 ou 3 semanas antes encontrávamos postura de uma ponta à outra, encontramos agora áreas ocupadas com pólen, mel e menos criação. Neste momento, o número de abelhas amas disponíveis é muito grande, assim como é grande a sua vontade/instinto de alimentar as larvas. Para além das abelhas amas, as abelhas cerieiras anseiam por construir novos favos e darem bom uso às suas glândulas secretoras de cera. Não tendo favos para construir aplicam-se a fazer pontes de cera entre os quadros ou entre os topos dos quadros e a prancheta, enfim, enchem de cera qualquer espaço apetecível. Por outras palavras estas abelhas (amas e cerieiras) encontram-se desempregadas. O seu potencial produtivo excede em larga medida as exigências da colónia. A colónia está em desequilíbrio. Para agudizar mais as coisas, este período costuma coincidir com a época em que as abelhas campeiras/forrageiras, vindas do exterior, trazem néctar e pólen fresco em quantidade. “Uummhh… há boas condições lá fora”, deverão pensar estas entediadas abelhas amas e cerieiras.

images

Fig. 2 — Quadro com grandes áreas ocupadas por mel e pólen e com uma pequena área central disponível para a postura da rainha

Instintivamente as abelhas parecem compreender que este desequilíbrio pode ser resolvido com a cisão do enxame. A pulsão para a enxameação e colonização de um novo espaço está criado e é muito difícil de travar. Quase tanto como parar um comboio em andamento…

… aos costumes disse “nada”!

Este outono disse “nada” aos costumes…

Desde 2009, ano em que comecei a trabalhar com as abelhas, não me recordo de um outono como o de 2015. Na Beira Alta, os meses de Outubro, Novembro e Dezembro (com vários dias ensolarados com temperaturas entre os 18º- 22ºC e muitos outros a rondarem os 15º-17ºC) tiveram as suas consequências. Permitiram, por um lado, que as rainhas não parassem a postura e, por outro, que as abelhas não formassem o habitual cacho invernal. Estes dois acontecimentos simultâneos tiveram consequências que importam serem consideradas e avaliadas pelos apicultores locais, já que se traduziram no aumento significativo do consumo de reservas.

Nunca como este ano senti as colmeias tão leves em meados de Novembro. Nesta zona de país, ou melhor nas zonas desta zona do país onde tenho os apiários, o pasto das abelhas é escasso ou até inexistente.  Ainda que em anos anteriores tenha evitado o mais possível a alimentação artificial, este outono-inverno não tive qualquer dúvida da sua necessidade para manter o risco dentro de limites que me são confortáveis. Alimentei praticamente todas as minhas colmeias ali situadas com uma média de 1Kg de fondant (alimento pastoso sólido) de 15 em 15 dias nos últimos 2 meses. Na primeira ronda de colocação do fondant ainda procedi à avaliação do peso das colmeias e alimentei só as mais leves. Nas outras rondas subsequentes decidi alimentar a eito. Torna a operação muito mais rápida. Por outro lado, os pesados quadros cheios com pólen podem resultar em avaliações erradas acerca do mel presente na colmeia. Finalmente, sendo algumas destas reservas formadas por mel da melada da azinheira, a alimentação artificial irá diminuir o seu consumo. Segundo alguns, mais conhecedores, é aconselhável esta opção, dado o elevado teor de cinzas e fibras presentes nos méis de melada, susceptíveis de provocar diarreia, que poderão originar nosemoses se as abelhas tiverem que defecar no interior da colmeia.

Até ao dia de ontem, nas cerca de 400 colmeias alimentadas pela 4ª vez, o resultado é muito satisfatório: todas as colmeias estão vivas… com as colónias em 2 apiários a iniciarem a expansão e nos restantes a deixarem-me a impressão que mantêm sensivelmente a mesma população desde há 2 meses. A maioria das colmeias apresenta entre 6 e 8 travessões superiores dos quadros cobertos de abelhas.

Já as cerca de 80 colmeias que tenho no litoral centro é como se estivessem noutro planeta. Expandiram-se a olhos vistos em Novembro e Dezembro. O néctar do eucalipto, o pólen do tojo e do eucalipto entraram a bom ritmo nas colmeias. O ritmo de postura das rainhas foi muito estimulado, obrigando-me à expansão dos ninhos, sempre feita com quadros de cera puxada. As colmeias mais fortes chegaram aos 6 a 7 quadros de cria densa. Por outro lado, as abelhas armazenaram boa quantidade de néctar nos sobreninhos, que fui colocando na justa medida em que elas iam pedindo. O mês de Janeiro, chuvoso, ventoso e mais frio, ditou as suas leis, e as colónias mais fortes pararam a sua progressão, havendo um ou outro caso de regressão. Janeiro fez regressar a esta zona a habitual figura da “colmeia-acordeão”, que ora se estende para logo de seguida se encolher.

Contudo algumas colónias continuaram num modo de expansão e crescimento, em especial os núcleos tardios. Cerca de 1/3 dos 40 núcleos tardios foram, até à data, passados para colmeias. Para tal, a ajuda desde meados de Novembro do fondant não deve ser menosprezada. Os outros 2/3 estão a evoluir bem, com a excepção de 2 casos.

Este outono atípico levou-me a recorrer, como nunca tinha feito até aqui, ao fondant. Se esta opção me permitir salvar 15 colmeias de uma eventual morte por falta de reservas, as contas ficam quites com o que já investi em 1500 Kg de fondant. Mais, como as reservas de mel não foram tão desgastadas, na primavera as abelhas começarão a encher as meia-alças mais cedo. Em suma, estou a passar de uma abordagem mais ideológica, em que evitava a alimentação artificial, para uma abordagem mais pragmática, mais ajustada aos meus objectivos empresariais. Como dizia um apicultor norte-americano, com uma operação de 5000 colmeias, o sucesso apícola na invernagem depende de três coisas simples: colónias suficientemente populosas, bem alimentadas e saudáveis. Não há que complicar o que pode ser simples.

erros frequentes do apicultor pouco experiente (e não só!)

Serão estes os erros mais frequentes do apicultor pouco experiente (e não só!)?  Façam a vossa lista e publiquem-na nos comentários.

  • Desvalorizar o impacto da varroa;
  • Pouco ou nada fazer para prevenir ou controlar a enxameação;
  • Não ser capaz de reconhecer o estado de orfandade de uma colónia;
  • Deixar poucas reserva numa colmeia para a invernagem;
  • Não tirar notas acerca das suas colmeias;
  • Não ter um plano e objectivos claros para as intervenções a realizar no apiário (pode decorrer de não ter notas das colmeias);
  • Colocar as colmeias em locais problemáticos;
  • Não estar devidamente protegido quando vai ao apiário;
  • Iniciar o hobby apícola só com uma colmeia;
  • Estar satisfeito com os poucos conhecimentos que tem sobre a apicultura;
  • Não se aconselhar quando as coisas não correm bem com as colmeias;
  • Guiar as suas intervenções pelo que vê no youtube, por apicultores de locais distantes e com outra raça de abelhas;
  • Preocupar-se excessivamente com as abelhas, quase no pólo oposto do ponto 1 e 2 por ex.;
  • Não levar o material e equipamento necessário para o apiário;
  • Realizar as tarefas no apiário de forma apressada, a contra-relógio;
  • Desejar ser um apicultor profissional, mas não trabalhar aos fins-de-semana, feriados, no dia de anos dos primos, …
  • Não ter o material necessário com antecipação no armazém (por ex. colmeias e/ou cera);

Para fazer esta lista comecei por olhar para mim e olhar para os erros que cometi!

factores indutores da enxameação reprodutiva

É sabido que a enxameação reprodutiva é precedida por preparações que se iniciam 2 a 4 semanas antes de ocorrer. A construção de novos cálices reais é o primeiro sinal visível da preparação para a enxameação — nesta altura as abelhas constroem 10 a 20 na maioria dos casos, podendo chegar até 40-50.

images

Fig. 1 — Dois cálices reais

Com a deposição de ovos nestes cálices reais, a fase de criação das novas rainhas arranca, e o processo da enxameação está iniciado. Em média são construídas entre 15 a 25 realeiras. As colónias enxameiam habitualmente no mesmo dia, ou no dia seguinte à operculação da primeira realeira. Para conhecer os factores que induzem a enxameação há portanto que conhecer quais são os factores que induzem a criação de realeiras.

images-1

Fig. 2 — O fundo dos quadros é o local mais escolhido pelas abelhas para criarem as inúmeras realeiras de enxameação

Na base da enxameação reprodutiva encontramos factores intrínsecos (de natureza demográfica) e factores extrínsecos (abundância de recursos/alimento) que impulsionam as abelhas a iniciar a criação de novas rainhas.

Os estímulos básicos de natureza demográfica, e importa realçar que não operem isoladamente nem de forma independente, são:

  • dimensão da colónia;
  • congestionamento do ninho;
  • distribuição desequilibrada da idade das obreiras;
  • transferência reduzida das feromonas da rainha.

A abundância de recursos influencia directamente  os três primeiros factores, sendo considerado, por essa razão, o estímulo primeiro da criação de realeiras, logo da enxameação. O apicultor dificilmente conseguirá manipular este factor, e suspeito até que o deseje. Há portanto que  incidir a nossa acção sobre os factores de natureza demográfica. Sobre estes temos possibilidade de fazer alguma diferença. Realço que a intervenção do apicultor terá tanto maior eficácia quanto mais os efeitos da sua acção forem de largo espectro, ou seja, tenham um impacto no redimensionamento da colónia e em  simultâneos no descongestionamento do ninho e também no re-equilíbrio na distribuição da idade das obreiras. Fácil de dizer, mais difícil de fazer. Contudo, sempre possível.

Vamos abordar estes factores de forma mais detalhada e chegar ao desenho de estratégias de intervenção para melhor prevenir a enxameação. Só bem compreendidos estes factores estaremos capazes de aumentar a eficiência e a eficácia dos nossos procedimentos. Consciente, contudo, que a enxameação zero não é um objectivo razoável, ou sequer desejável numa perspectiva de longo prazo.

Como já disse alguém, a teoria sem a prática é inútil, mas a prática sem a teoria é cega.

a colmeia está zanganeira?

Sabemos que 3 a 4 semanas depois de uma colónia ter ficado órfã, caso não consiga criar uma nova rainha, começam a surgir abelhas poedeiras e a colónia fica zanganeira.

As causas do aparecimento de colmeias zanganeiras são várias, podendo decorrer de uma tentativa das próprias abelhas de substituição de uma rainha velha e/ou esgotada e, por alguma razão, a nova rainha não é gerada ou morre durante os seus vôos de fecundação. Este acontecimento pode decorrer também de uma intervenção do próprio apicultor. Sobretudo quando na vistoria de novos núcleos, provoca na rainha recém fecundada um elevado estado de nervosismo. Este nervosismo súbito pode provocar uma acção de pelotagem/asfixiamento da rainha pelas abelhas mais velhas. Apicultores veteranos recomendam que se evite, ou se reduza ao mínimo, a inspecção de núcleos onde se presume que possa haver uma rainha que tenha iniciado há poucos dias a sua postura. Como fazer  então uma análise de um núcleo ou colmeia que nos permita, com uma observação muito pouca intrusiva, recolher alguma informação confiável da presença ou não de uma rainha fecundada?

O apicultor experimentado tem alguma facilidade de identificar se uma colónia tem ou não uma rainha fecundada ou se está zanganeira (isto levantando apenas a prancheta e observando atentamente o comportamento das abelhas nos travessões superiores dos quadros). Se as abelhas estão claramente mais nervosas, com passeios erráticos, mal definidos quanto ao sentido ou orientação, como que sem objectivo e mais defensivas que o habitual, podemos desconfiar que ainda não têm uma rainha fecundada. Se a juntar a estes sinais, as abelhas estiverem dispersas em pequenos grupos por todos os quadros do núcleo ou da colmeia, podemos desconfiar que estão no estado zanganeiro, com obreiras poedeiras. Se as abelhas apresentarem tranquilidade, até alguma indiferença à nossa presença, se estiverem sobretudo aglomeradas sobre dois ou três quadros (caso dos núcleos) ou sobre os quadros centrais (caso das colmeias), se nos cheirar a muita criação aberta (o cheiro da geleia real e papa larvar) o melhor é deixar a colónia tranquila por mais 2 a 3 semanas, até que a nova rainha adquira a “liderança serena” daquela colónia.

Alguns apicultores há que afirmam e reafirmam que observando o movimento de abelhas no alvado (entrada) da colmeia é suficiente para diagnosticar se a colónia está zanganeira ou não. Ainda não cheguei a esse nível de perícia. Para alguns, a entrada de pólen é um sinal de uma colónia com rainha em postura. O que tenho observado é que a entrada de abelhas com pólen não chega para garantir que a colmeia não esteja zanganeira. Já observei inúmeras vezes as abelhas a entrarem com pólen em colmeias zanganeiras. Para mim, faz sentido que assim seja. No fim de contas elas têm larvas para alimentar, as larvas de zângão fruto da postura das abelhas!

Se a observação dos sinais atrás referidos nos leva a suspeitar que a colónia está zanganeira há que o confirmar. A confirmação passa pela observação dos quadros, observação esta que nos permite identificar um conjunto de sinais inequívocos do estado disfuncional da colónia. As colónias zanganeiras apresentam, quase universalmente, um conjunto de sinais bem conhecidos que passo a elencar pensando nos apicultores que estão a dar os primeiros passos neste mundo das abelhas.  Alguns dos sinais indicam um estado inicial ou recente de “zanganisse”, outros um estado mais avançado. São estes os sinais:

  • postura de vários ovos no mesmo alvéolo (seja de obreira, seja de zângão);

search-1

  • postura significativa de zângãos em alvéolos de obreira em áreas bem definidas (surge habitualmente no estádio inicial e/ou em colónias populosas);
  • postura mais reduzida de zângãos em alvéolos de obreiras em pequenas áreas mal definidas de alguns quadros (surge habitualmente num momento mais tardio e/ou em colónias menos populosas);

search

  • vários ovos surgem colados na parede dos alvéolos (as abelhas poedeiras por terem o abdómen mais curto que a rainha nem sempre conseguem depositar os ovos no fundo do alvéolo);
  • acumulam pólen em excesso;
  • mais tarde aparecem falsas realeiras, muito largas e compridas (4 a 5 cm), com uma forma cilíndrica, com uma larva de zângão e com muita geleia real.

O que o apicultor pode e deve fazer com uma colmeia zanganeira depende de vários aspectos, entre os quais destaco: força do enxame e altura do ano.

Se a altura do ano for propícia, com um fluxo de néctar próximo, se o enxame for valente, por norma, não sacudo as abelhas. Por norma, procuro reverter a situação o que exige alguma persistência. Aos enxames zanganeiros nas condições atrás descritas coloco um quadro com muita criação larvar e alguma criação fechada, com poucos ou nenhuns ovos, durante  duas ou três semanas a um ritmo de um por semana. Na terceira ou quarta semana, coloco um quadro sobretudo com criação fechada e ovos, de preferência numa cera nova mais flexível, ou caso tenha disponível, uma ou duas realeiras abertas ou fechadas. Com este maneio tenho revertido esta situação tão indesejável numa percentagem muito aceitável.

histórico de uma colmeia

Uma das ferramentas indispensáveis ao maneio das minhas colmeias é o registo das observações feitas no apiário. Fica aqui uma peça desse registo.

A colmeia é a nº 125, é do modelo Langstroth, a rainha é de 2013, ou uma sua filha que a substituiu sem que eu tivesse dado conta (não enxameia desde 2013 pelo menos), e as principais características desta linha estão também indicadas.

Este modelo de anotação é muito simples, criado no Word, que me permite toda a flexibilidade de anotações.

Como disse esta é apenas uma das peças no que diz respeito ao meu processo de recolha e registo de informações.

Noutro dia referirei as restantes peças para que o meu sistema se torne inteligível e possa merecer os vossos comentários e sugestões de melhoria.

 

125. Lang Rainha de Julho de 2013 (filha da 133)

Linha muito prolífera e produtiva.

2014

10-04: Tirei sobreninho. Coloquei ½ alça. Coloquei cera laminada no ninho. Transumei para ….

14-04: 5 a 6 Q de abelhas na 1ª ½ alça. Colocar 2ª ½ alça.

17-04: Coloquei cera laminada no ninho.

22-04: Coloquei 2ª ½ alça com ceras laminadas.

28-04: Poucas abelhas na 2ª ½ alça.

06-05: Não viu sinais de enxameação (T). 5 Q de abelhas na 2ª ½ alça.

13-05: 5 Q de abelhas na 2ª ½ alça.

23-05: Colocou 3ª ½ alça no topo (T).

27-06: Fica com 1 ½ alça com mel de castanheiro. Pronta a transumar.

02-07: Transumei de … para a ….

03-07: Coloquei 2ª ½ alça.

15-07: 2ª ½ alça muito cheia. Colocar ½ alça.

22-08: Cheia de abelhas no ninho. Coloquei tiras de Apivar

30-09: Transumei de … para ….

22-10: Forte. 7 ou mais Q de abelhas.

2015

27-01: Colmeia forte. Coloquei 1 Q com mel.

07-03: 6 Q de abelhas e 4 Q de criação. Coloquei tiras de Apivar.

30-03: 9 a 10 Q de abelhas. 8 Q de criação. Coloquei cera laminada.

09-04: Coloquei 1ª ½ alça.

23-04: Coloquei 2ª ½ alça com ceras laminadas.

29-05: Transumei de … para ….

26-06: Coloquei 2ª ½ alça de ceras puxadas.

03-07: Coloquei 3ª ½ alça de ceras laminadas na posição 1.

11-07: 1ª ½ alça semi-puxada e com algum mel.

14-09: 2 Q com criação. 10 Q de abelhas. Coloquei tiras de Apivar.

29-12: Transumei de …para …. 9 Q de abelhas.

2016

07-01: 10 Q de abelhas. Coloquei sobreninho.

ciclo reprodutivo da varroa

Que a varroa é a maior ameaça ao bem-estar e sobrevivência das nossas colónias de abelhas, julgo que ninguém, com alguma experiência apícola, terá dúvidas. Para melhor combatermos este parasita importa que cada um de nós se vá munindo de informação e conhecimentos a seu respeito. O apicultor actual para além de ser um conhecedor de abelhas deve também conhecer com uma boa profundidade este perigoso inimigo. O conhecimento do ciclo reprodutivo da varroa dá-nos uma boa ideia do respeito que lhe devemos ter.

Sabe-se hoje que a varroa mãe entra no alvéolo onde se encontra a larva da abelha ao 5º dia do estado larvar, isto é, ao oitavo dia de vida da larva (3 dias enquanto ovo e mais cinco enquanto larva). Instala-se no fundo do alvéolo e submerge na papa larvar, o que dificulta a sua detecção e remoção pelas abelhas que fazem a higiene da larva.

Huang-Fig-1

Fig. 1 — Representação esquemática do ciclo de reprodução do ácaro da varroa

Cerca de 5 horas após a selagem do alvéolo a larva da abelha consome o resto da papa larvar que existia no fundo do mesmo. O ácaro da varroa começa por esta altura a sugar-lhe a hemolinfa (o sangue das larvas das abelhas). Aproximadamente 70 horas depois da selagem do alvéolo a varroa põe o seu primeiro ovo. Este primeiro ovo dá origem a um ácaro macho. Os ovos seguintes dão origem a ácaros fêmeas e são postos com um intervalo de 30 horas. Em média um “programa reprodutivo” normal produz até cinco varroa filhas na criação de obreira e até 6 varroas filhas na criação de zângão. Desde a postura dos ovos até à sua adultez decorrem cerca de 6 a 7 dias. Os machos da varroa são claramente mais pequenos que as fêmas (dimorfismo sexual).

A varroa mãe perfura a frágil cutícula da larva da abelha para que a sua prole se alimente. A reprodução das varroa é endogâmica, isto é, o macho fecunda as suas irmãs.

O ciclo completo de reprodução da varroa demora doze dias a completar-se. Finalizado este período uma ou duas varroas maduras, juntamente com a mãe, saem do alvéolo no momento de nascimento da jovem abelha. Em média as varroas multiplicam-se por um factor de 1,7 por cada 20 a 30 dias. Estes são os números que nenhum apicultor deve esquecer.

Num cenário de uma colmeia com um elevado número de varroas, cerca de 6000 ácaros, taxa que poderá passar despercebida ao apicultor menos atento, e fazendo as contas direitinhas, significa que em menos de um mês este número poderá aumentar para cerca de 10 000 varroas.

Com estes números presentes todos compreendemos melhor porque aplicarmos os tratamentos, 15 ou 20 dias antes ou 15 ou 20 dias depois, pode fazer toda a diferença. A diferença entre termos uma colmeia tratada a tempo, que irá rapidamente recuperar, e uma colmeia moribunda, que dificilmente conseguirá recuperar da varroa e dos vírus que elas veiculam. Amanhã já poderá ser tarde!