prevalência e persistência do vírus das asas deformadas (VAD) em colónias de abelhas melíferas infestadas, não tratadas ou tradadas contra o ácaro Varroa destructor

“O ácaro Varroa destructor é uma praga grave da abelha Apis mellifera. A ocorrência natural do vírus conhecido como Vírus das asas deformadas (VAD) tem sido associada ao colapso de colónias de abelhas infestadas pelo ácaro. Nós, pesquisámos a prevalência e persistência de VAD em quatro colónias altamente infestados não tratadas (Pesquisa 1), e cinco colónias altamente infestados que foram tratados com um acaricida (Pesquisa 2). A presença do VAD em amostras de abelhas adultas, criação operculada e ácaros foi detectada usando uma Enzima Linked Immunosorbent Assay (ELISA). Vinte indivíduos de cada amostra foram analisados mensalmente em cada colónia ao longo do estudo. Durante o verão, a proporção de adultos, criação operculada e ácaros em que o VAD foi detectado aumentou, até que a colónia ou morreu ou foi tratada. Quando as colónias foram tratadas, removendo assim os ácaros da colónia, o VAD deixou de se detectar na criação operculada a uma taxa semelhante à perda/eliminação dos ácaros. A velocidade com que o VAD se tornou indetectável em abelhas obreiras adultas dependia, no entanto, da estação do ano, verificando-se diferenças na esperança de vida entre as obreiras adultas emergentes no verão ou emergentes no inverno. Se o tratamento foi retardado até Outubro, o VAD ainda foi detectada em abelhas adultas durante o inverno, mesmo na ausência de ácaros. Para reduzir a carga viral da colónia, portanto, o tratamento de ácaros deve ser iniciado o mais tardar no final de agosto, a fim de remover os ácaros antes da criação das abelhas de inverno começar.”

fonte: https://www.researchgate.net/publication/229086938_Prevalence_and_persistence_of_deformed_wing_virus_DWV_in_untreated_or_acaricide-treated_Varroa_destructor_infested_honey_bee_Apis_mellifera_colonies

sumo de limão: um verdadeiro acaricida?

Ainda não há muitos dias vi, pela primeira vez, um vídeo no youtube onde um apicultor fazia a promoção da utilização do sumo de limão (ácido cítrico) no combate à varroa. Afirma que este tratamento na primavera e/ou no verão controla a varroa. Fiquei muito surpreendido que a simples aplicação do sumo de limão possa ser suficiente para controlar a varroa ao longo de um ano. A minha dúvida prende-se com o facto de na primavera/verão, na generalidade dos apiários do nosso país, haver muita criação operculada no ninho. Sabemos que, nestas condições, 90% das varroas estão abrigadas e protegidas dentro dos alvéolos operculados. Como pode a aplicação de sumo de limão permitir que a colónia siga saudável neste período e, em especial, entrar com níveis baixos de varroa no outono? Há algo que me está a escapar ou então a informação dada nesse vídeo é muito insuficiente. Se algo me escapa tenho a certeza que algum dos companheiros me irá elucidar. Se a informação do referido vídeo é incompleta é lamentável, porque com mais de 5500 visualizações (à data do meu visionamento),  e assumindo que apenas 1% dos que o viram decidiram seguir estritamente o que lá é recomendado, significa que mais de 50 apicultores poderão ter posto em risco as suas colónias de abelhas. Eu pessoalmente conheço um companheiro, que por ter sido crente, perdeu até agora 8 das 13 colmeias que possuía com os tratamentos com sumo de limão.

Tanto quanto sei os tratamentos com outros ácidos orgânicos obrigam a 3 a 4 aplicações intervaladas por 4-7 dias. E são ácidos com um efeito acaricida muito superior ao do ácido cítrico a acreditar em vários estudos devidamente controlados. Em baixo ficam alguns dados recolhidos por esses estudos.

Vários ácidos orgânicos que têm mostrado atividade acaricida têm sido utilizados na luta contra a varroa destructor. Os ácidos mais eficazes, desde que em concentrações não prejudiciais para as abelhas, são o ácido oxálico e o ácido fórmico.

O ácido cítrico tem actividade acaricida contra a varroa, mas em muito menor grau do que o ácido oxálico. Milani (2001) identificou no laboratório que uma dose letal de ácido citrico para varroa necessita de ser três vezes superior à de ácido oxálico e, especialmente, o ácido cítrico apresenta uma grande variabilidade na eficácia. Highes et al. (2006), comparando diversas soluções de açúcar com vários ácidos orgânicos, incluindo o cítrico, concluíram que o único ácido orgânico com uma eficácia apreciável, pelo método de gotejamento, foi o ácido oxálico. A solução de ácido cítrico, apesar de ter um pH menor do que a solução de ácido oxálico não induziu uma queda de varroa significativamente superior à das colónias não tratadas, o que sugere que não é só a acidez mas também outros mecanismos metabólicos os que podem estar na base de maior susceptibilidade da varroa ao ácido oxálico.

Em alguns países europeus é autorizado a utilização do produto austríaco Hive Clean enquanto acaricida. Este produto contém ácido cítrico e vários outros ingredientes, como o ácido oxálico. A sua eficácia média é semelhante ao de uma solução normal de açúcar com ácido oxálico (Howis e Nowakowski de 2009). Podemos, portanto, pensar que o ácido cítrico não acrescenta nada ao Hive Clean.

Há uns anos cheguei a comprar uma garrafa de Hive Clean, que acabei por não utilizar depois de alguns companheiros se terem mostrado muito insatisfeitos com os resultados que obtiveram com a sua utilização.

Com base nestes dados, e neste momento em que escrevo, para mim é pouco crível que o ácido cítrico possa ser considerada uma ferramenta adicional na luta contra a varroa. Por maioria de razão digo o mesmo em relação ao sumo de limão, dado que nestes não é possível uma dosagem precisa de ácido cítrico.

Ressaltamos, a concluir, que não existe em Portugal, qualquer produto autorizado à base de ácido cítrico e, portanto, a legislação dos acaricidas existente no nosso país não permite a sua administração nas colmeias para tratar a infestação pela varroa. Quando muito podemos dar-lho como uma bebida refrescante… juntamente com um acaricida de créditos comprovados!

Fontes consultadas:

  • Higes, M., R. Martin Hernandez, and A. Meana. 2006. “Effectiveness of Organic Acids in Varroa (Acarina: Varroidae) Mite Control.” Revista Ibérica de Parasitología 66 (1-4): 3–7.
  • Howis, Maciej, and Piotr Nowakowski. 2009. “Varroa Destructor Removal Efficiency Using Beevital Hive Clean Preparation.” Journal of Apicultural Science 53 (2): 15–20.
  • Milani, Norberto. 2001. “Activity of Oxalic and Citric Acids on the Mite Varroa Destructor in Laboratory Assays.” Apidologie 32 (2): 127–38.

humidade no ninho das abelhas: um prejuízo? uma benesse?

A humidade na câmara de criação é um factor crítico para a boa qualidade das condições físicas-ambientais tão necessárias a um desenvolvimento saudável das colónias de abelhas. Numerosos estudos demonstraram que os níveis extremos de humidade, sejam elevados, sejam baixos, afectam a saúde das abelhas e da sua criação. Por exemplo, a níveis inferiores a 50% de humidade relativa os ovos não eclodem (Doul, 1976), o que é particularmente impactante nos pequenos núcleos de abelhas. Outro exemplo, a humidade entre 68% a 87% aumenta a percentagem de mumificação das larvas em 8%, também conhecida por criação de giz. Um dado interessante, a taxa de reprodução da varroa destructor diminui com o aumento da humidade.

A humidade no ninho numa colónia forte e saudável situa-se entre os 50% e 60%. Raramente se encontra abaixo dos 40% ou acima dos 80%. Numa colónia forte e em condições normais, este valor é estável e não está dependente das condições ambientais. Pelo contrário, numa colónia fraca as condições internas são muito influenciadas pelas condições ambientais externas.

Um fator importante que influencia o nível de humidade no ninho é a quantidade de criação não operculada/selada. Sabemos que os ovos e as larvas são altamente sensíveis à dissecação. Pensa-se que as áreas de criação têm um microclima com uma humidade relativa significativamente maior que o conjunto do ninho. Isto é conseguido pela presença de geleia real, que tem um conteúdo de água alto. Por outro lado os casulos são higroscópicos e promovem a absorção de água (Human, 2006). Além disso, as abelhas nutrizes/amas que cobrem os quadros de criação limitam a quantidade de água que se evapora.

Sabe-se que as colónias de abelhas regulam a humidade interna do ninho pelo batimento das asas, pelo transporte e depósito de água para o ninho, e pelos dissipadores de humidade, como o néctar e os casulos (Ellis, 2008).

Ouvimos dizer frequentemente que durante o inverno é a humidade, não o frio, que mata as abelhas. O que pode o apicultor fazer nesta estação do ano para ajudar as abelhas a regular a humidade no ninho?

As orientações são variadas e há duas escolas principais de pensamento. Uma defende a ventilação assistida da colmeia, deixando orifícios de ventilação na zona superior da colmeia, quer através da inserção de palitos de fósforo ou cunhas nos cantos inferiores das pranchetas, ou deixando o óculo da prancheta semi-aberto. Este conselho é geralmente dado por apicultores que usam pisos sólidos.

Por outro lado, se as colmeias estão equipadas com estrados de rede, o pensamento é que os métodos de ventilação nas zonas superiores da colmeia são desnecessárias dado que o estrado de rede atua como um sistema de ventilação inferior.

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Fig. 1 — Exemplar de um estrado em malha de rede metálica

Portanto, o tipo de colmeia e, obviamente, o clima ambiente vai determinar se é necessário um sistema de ventilação ou isolamento que permita uma renovação mais rápida do ar saturado com humidade que se produz habitualmente no interior da colmeia.

Fontes consultadas:

  • Doul KM (1976) The effects of different humidities on the hatching of the eggs of honeybees. Apidologie 7 (1) 61-66
  • Ellis MB (2008) Homeostasis: Humidity and Water Relation in Honeybee Colony, Master Thesis (University of Pretoria)
  • Human H, Nicolson SW, Dietemann V (2006) Do honeybees, Apis mellifera scutellata, regulate humidity in their nest? Naturwissenschaften 93(8):397-401.
  • Tautz J (2008) The Buzz about Bees. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg.
  • Winston ML (1987) The Biology of the Honey Bee. Harvard University Press, Cambridge Massachusetts.

 

Independentemente do tipo de estrado utilizado, acrescento estas orientações que têm ajudado as minhas abelhas a regular a humidade no ninho:

  • colocação das colmeias em assentos 15-30 cm acima do solo;
  • construir os assentos com uma ligeira inclinação descendente no sentido do alvado/entrada da colmeia;
  • substituir, particularmente no final do verão, as colmeias com rachas nas paredes, com a pintura estalada ou o óleo de linhaça já sumido, por outras devidamente restauradas;

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Fig. 2 — Exemplo de um assento que protege as colmeias da humidade do solo

… e outras medidas que se justifiquem localmente, e que os companheiros desejem acrescentar.

perigos de alimentar com açúcar invertido

O especialista espanhol António Pajuelo colocou recentemente na sua página de facebook considerações acerca da utilização do açúcar invertido na alimentação das abelhas. Fica aqui a tradução.

“Ultimamente na nossa apicultura está na moda alimentar com açúcar invertido. Existem diferentes fórmulas caseiras para o fazer e os fornecedores industriais cantam seus louvores.

O açúcar invertido é um produto para uso em padaria-pastelaria, para se conseguir algumas texturas interessantes. É uma sacarose, açúcar branco, submetido a um processo de acidificação, temperatura, e, industrialmente, é submetida à ação da enzima beta-frutofuranosidase , que divide a sacarose nos seus dois componentes, glicose e frutose.

Os vendedores deste produto descobriram há algum tempo este novo segmento de mercado, e entrou com um argumento de vendas: “está desdobrado, tornando-o mais fácil de assimilar”. De fato, a abelha e nós temos que dividir a sacarose em glucose e frutose, e em seguida, a glucose em frutose, para poder fragmenta-la e usá-la em outros compostos ou queimá-la para produzir energia. Para isso temos umas enzimas na saliva, elas e nós. Mas o organismo não vai parar de fabricar estas enzimas e colocá-los na saliva consuma-se o açúcar que se consumir. E as enzimas são não se “gastam”, são uma espécie de vai e vem que transportam as moléculas ao seu local de e ficam livres para voltar a atuar; embora haja uma certa perda de moléculas ao longo do tempo. Ou seja, ao ser dada sacarose “desdobrada” é mais um argumento de vendas do que uma vantagem.

Além disso, o processo de aquecimento da sacarose para a “desdobrar” produz HMF, em quantidades variáveis, dependendo de como foi feito o açúcar invertido. E o HMF é tóxico para as abelhas, para nós não (pudins, doces, caramelo … seriam letais se assim fosse). Apesar de não haver consenso na literatura sobre o nível de toxicidade, há dados bibliográficos sobre a toxicidade para as abelhas enjaulado laboratório a partir de cerca de 50mg/kg de HMF. Para mim os valores mais realistas são de 150 mg/kg.

O açúcar de beterraba invertido também é usado para adulterar mel, por isso o mercado possui técnicas analíticas muito avançados que são usualmente utilizadas ​​para detectar a sua presença no mel. Os laboratórios de análises do mel oferecem esta detecção desde 2009, com base na presença da enzima beta-frutofuranosidase (exógena ao mel, mas usada industrialmente para “desdobrar”) e pelos níveis de ácido utilizados na acidificação.

Portanto, se há um armazenagem do açúcar invertido nos favos, pode haver níveis elevados de HMF no mel, se você o inverteu caseiramente e restos de ácidos. E, especialmente, quando se usou açúcar invertido industrialmente em quantidade, ficam presentes no mel enzimas que o mel não possui, que o inabilitam para o mercado. Esta situação já aconteceu, de hás uns anos a esta parte, mas aumentou este ano pela campanha de vendas agressiva destes açúcares invertidos. Tenho clientes que tiveram este problema e os compradores devolveram-lhe o mel. E eu sei que outros colegas passaram pelo mesmo.”

fonte: António Gomez Pajuelo, pg. do facebook

acaricidas homologados em Portugal

A DGAV é a autoridade portuguesa que tem em mãos a responsabilidade de homologar os acaricidas a utilizar na luta contra a doença das abelhas conhecida como varroose.

Nesta hiperligação podem consultar uma lista quase completa dos acaricidas homologados à data de hoje: http://www.apiset.pt/docs/MUV_autorizados.pdf

Nesta hiperligação surge o acaricida mais recentemente homologado pela DGAV, e que não se encontra ainda na lista anterior:  http://www.melvag.com/blog/api-bioxal-novo-tratamento-homologado-contra-a-varroa/

Como facilmente se constata a lista compreende 5 marcas de tratamentos não-convencionais ou orgânicos, a saber: MAQS; Apilife VAR; APIGUARD; THYMOVAR e Api-Bioxal.

Os tratamentos convencionais ou sintéticos presentes na lista são de 4 marcas, a saber: APITRAZ; APIVAR; Apistan e Bayvarol.

Uma primeira consideração que desejo fazer acerca desta lista diz respeito à diversidade de princípios activos disponíveis, o que dá boas garantias e oportunidade ao apicultor para fazer a adequada rotação de princípios ativos, por forma a evitar ou minimizar os efeitos do surgimento de varroas resistentes.

Uma segunda observação, que com toda a justiça entendo dever fazer, é que a mortalidade de colmeias por via da varroa não se deve à falta de oferta na escolha de acaricidas homologados. Vamos a ser francos, a mortalidade das colmeias resulta, na grande maioria dos casos, do desconhecimento e/ou incúria do apicultor. Na minha opinião, o argumento dos elevados custos dos tratamentos homologados não colhe, uma vez que a grande maioria dos apicultores associados podem adquirir os mesmos a preços muito mais baixos que o preço de 1 Kg de mel.

de que morreu a minha colmeia…

O inverno é a estação mais crítica que a colónia de abelhas tem de ultrapassar. E, na verdade, algumas não a conseguem ultrapassar. Todo o apicultor que se vê confrontado com uma ou várias colónias mortas deve procurar fazer o diagnóstico post mortem. Este diagnóstico, se bem feito, é uma peça essencial para melhorar o seu maneio no futuro. Só sabendo as causas das perdas invernais ele estará em boas condições de as evitar no futuro. Deixo em baixo algumas pistas para fazerem este diagnóstico.

  • Se a colónia morreu por fome, encontra uma colmeia leve em peso e abelhas enfiadas de cabeça para baixo nos alvéolos (ver fig. em baixo).

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  • Se a colónia morreu pelos danos causados pelo ácaro da varroa, encontra poucas abelhas, pequenas áreas de criação operculada e abelhas com asas deformadas (ver fig. em baixo).

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  • Se a colónia morreu porque a rainha chegou ao seu fim, encontra realeiras ou criação de zângãos(ver fig. em baixo).

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  • Se a colónia morreu por humidade excessiva, encontra muito mofo nos quadros (ver fig. em baixo) e muita humidade condensada nas paredes interiores da colmeia e no fundo do estrado.

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  • Se a colónia morreu por desinteria, encontra muitas manchas de resíduos fecais no topo dos quadros (ver fig. em baixo) e/ou na entrada da colmeia.

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  • Se a colónia morreu por doença na criação, encontra sinais de loque americana (ver fig. em baixo), ou loque europeia.

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  • Se a colónia morreu porque foi pilhada por outras abelhas encontra os alvéolos e opérculos ligeiramente mastigados ou roídos (ver fig. em baixo) e pequenos resíduos de cera no estrado e entrada da colmeia.

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  • Se a colónia morreu pela acção dos roedores (ratos e outros), encontra os favos muito roídos (ver fig. em baixo), pedaços de favo no estrado e na entrada da colmeia, caganitas de rato no meio dos resíduos de cera, cheiro a urina do roedor no interior da colmeia.

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A terminar sublinho que várias vezes se encontram sinais a apontar para diversas causas. Neste caso importa tentar destrinçar qual foi a causa primeira, a causa que fragilizou a colónia inicialmente. Foi esta a causa que permitiu o aparecimento e desenvolvimento dos outros problemas a jusante. Interessa-nos, no futuro, evitar a causa primeira. Estando esta resolvida, os outros danos têm menos oportunidade de se desenvolverem. Não sendo uma regra que deva ser aplicada a 100% dos casos, a varroa é geralmente a causa primeira de mortandade no inverno. Sobre os ombros de uma varroose deficientemente controlada surgem outros danos que, de forma oportunista, se aproveitam da fragilidade da colónia e lhe dão o golpe de misericórdia.

Esta lista de pistas não é exaustiva e pode ser completada com os vossos contributos. De apicultor e de detective todos temos um pouco!

nenhum efeito negativo da exposição prolongada ao amitraz

Em Julho de 2015, no American Bee Journal, Randy Oliver (Scientific Beekeeping.com) lançava estas questões aos leitores: “Porque se ouve falar de taxas elevadas de perda de rainhas e baixa capacidade de sobrevivência das colónias nos dias de hoje? Poderá ter algo a ver com os efeitos sub-letais do amitraz, um acaricida comumente usado?”

Quem está familiarizado com o trabalho de Randy Oliver, sabe que ele, para além de apicultor profissional, tem por hábito e gosto fazer um conjunto de investigações próprias, devidamente controladas, acerca de problemas com os quais os apicultores se vão confrontando no dia-a-dia. Estas investigações, realizadas de forma muito regular, são uma fonte de ensinamentos e reflexões muito valiosa, o que lhe tem granjeado uma enorme estima e uma reputação inabalável junto da comunidade de apicultores dos EUA.

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Fig. 1 — Randy Oliver analisando um quadro

Voltando aos eventuais efeitos da utilização do Apivar (que tem como princípio activo o amitraz) nas colónias de abelhas, em especial os efeitos sub-letais dos metabolitos (designados por alguns de nós como “moléculas alien”), Randy Oliver não foi no “diz que disse” e decidiu testar e investigar seriamente, de forma controlada, os mesmos. Transcrevo/traduzo de seguida o que ele escreve a título de introdução e discussão deste seu estudo (fonte consultada: http://scientificbeekeeping.com/no-negative-effect-from-extended-exposure-to-amitraz/).

“Introdução

Na primavera passada eu realizei um teste de campo, a fim de determinar se o tratamento de núcleos com tiras de Apivar (o princípio activo é o amitraz) afetaria o seu desenvolvimento. Os resultados (não houve nenhum efeito negativo observável) foram publicadas neste Jornal em outubro de 2014. Mas por essa altura eu já tinha lido mais acerca do amitraz, e estava curioso de saber se os seus resíduos (principalmente os seus metabolitos) teriam um efeito adverso sobre a colónia ou a saúde rainha e a sua sobrevivência. Como eu já tinha 36 colónias que tinham sido anteriormente expostas ao tratamento com Apivar, decidi continuar o teste para ver se surgiam efeitos a longo prazo, com a utilização prolongada das tiras de Apivar. […]

Discussão

Apesar de continuamente expostos às tiras de libertação lenta de amitraz (as tiras de Apivar foram colocadas continuadamente três vezes e ao longo de 8 meses), não encontrámos nenhuma diferença no desenvolvimento destas colónias, na sua sobrevivência à invernagem, ou na capacidade de sobrevivência das rainhas devido ao tratamento, quando comparadas com o nosso grupo de controle. Verificámos também que o Apivar é eficaz no controlo dos níveis de varroa. Embora eu não tenha podido confirmar os níveis de resíduos reais de amitraz ou metabolitos nos favos, por análise química, a minha outra pesquisa anterior sugere que os níveis terão sido substanciais, com base na elevada e prolongada taxa de exposição às tiras e considerando o número de quadros cobertos pelas abelhas durante a realização do teste. Os resultados destes dois ensaios combinados indicam que o tratamento com Apivar à taxa recomendada pelo fabricante parece ser uma ferramenta segura e eficaz para a gestão da varroa.”

 

A minha experiência pessoal com o Apivar tem sido muito positiva. Contudo é um tratamento que não faz milagres! Algum fará? Já tive algumas colmeias que morreram por causa da varroa depois de tratadas com Apivar. Sim, é verdade que sim! Sempre que coloquei as tiras tarde demais e/ou quando as não ajustei devidamente à câmara de criação, a meio do tratamento, em especial no tratamento de fim de verão, algumas colmeias não aguentaram com os meus erros. A responsabilidade foi minha, não foi das tiras, e seguramente não foi por ter varroas resistentes ao princípio ativo. Como não faço tudo bem, tenho por hábito olhar primeiro para mim e procuro descortinar onde falhei, para amanhã rectificar e melhorar o que há a melhorar. Contudo, parece-me por aquilo que vou ouvindo, que há outros companheiros que fazem tudo bem, e quando a varroa lhes mata as suas colmeias, responsabilizam as tiras que aplicaram ou, se não são as tiras, são as varroas que já são resistentes a este mundo e ao outro. A minha realidade é semelhante à descrita pelo Randy Oliver e isso dá-me muita tranquilidade porque não estou a lidar com nenhuma realidade ou factos “alien”, de outro mundo. Tudo é deste mundo!

a colocação de quadros de cera laminada no ninho

Os apicultores sabem que os quadros de cera laminados colocados no ninho da colmeia são rapidamente puxados quando a colmeia está em expansão e a rainha necessita de mais espaço para fazer postura. Quando as abelhas cerieiras encontram estes quadros nos ninhos iniciam prontamente a puxada da lâmina de cera. Aqueles que colocam quadros de cera laminada nas extremidades do ninho (posição 1 ou 10), na esperança de eles serem rapidamente puxados, vêm as suas expectativas frequentemente frustradas. As abelhas só os puxarão em último recurso, e muitas vezes apenas o puxam na face interior do quadro.

Sabendo isto coloca-se a questão da posição precisa onde deveremos colocar os quadros de cera laminada? Na extremidade da zona de postura? No seio da zona de postura, intercalando um ou mais quadros de cera laminada entre quadros de criação? A resposta é que depende.

O início da estação da puxada de ceras no ninho diverge de local para local, e até de ano para ano. Tomo como indício que as abelhas estão em condições de puxar cera dos quadros laminados quando noto no travessão superior dos quadros pequenos rebordos de cera clara. Nestas condições e quando a câmara de criação ainda não está densamente povoada com as abelhas a fazerem camadas sobrepostas e, ao mesmo tempo, as temperaturas ainda são relativamente baixas, o local mais aconselhado para colocar o quadro de cera laminada é no espaço imediatamente a seguir ao último quadro de cria. Mesmo existindo quadros puxados mais no exterior, o quadro de cera laminada nesta posição obrigará as abelhas a puxá-lo para manter a continuidade da criação.

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Mais tarde na estação — quando a câmara de criação está a bem cheia com abelhas e as temperaturas estão mais altas —, os quadros de cera laminada podem ser intercalados no interior da câmara de criação. Nesta posição o quadro de cera será puxado e a rainha iniciará a ovodeposição daí a 4 a 5 dias.

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Argumenta-se frequentemente que descontinuar a câmara de criação, intercalando quadros de cera laminada, provoca a criação de realeiras no lado onde a rainha fica ausente temporariamente. Estudos controlados, assim como a minha experiência, sugerem que isto não ocorre habitualmente a não ser que a colónia já estivesse a preparar a substituição da rainha.

Como em muitas outras coisas as operações e os maneios num sistema complexo como o ninho de uma colónia de abelhas, varia de apicultor para apicultor. Esta diversidade assenta em vários factores, um dos quais será o nível de risco com o qual o apicultor se sente confortável. No caso em questão o apicultor que deseje fazer um maneio muito prudente, poderá sempre colocar os quadros de cera laminada no exterior da zona de cria para evitar o desconforto que lhe provoca intercalar quadros de cera laminada no interior dos quadros com cria.

termorregulação numa colmeia: alguns aspectos

Sabemos que as abelhas, em condições normais, são capazes de manter constante a temperatura interior da colmeia assim como um grau de humidade próximo da saturação.

No verão, com dias em que as temperaturas rondam frequentemente os 40ºC, as obreiras promovem a ventilação da colmeia colocando-se, estrategicamente, na rampa de vôo a bater energicamente as asas. Esta acção contribui para a evaporação da água contida no néctar e no mel desoperculado e, simultaneamente, para o refrescamento do ar no interior da colmeia. Quando tal acção não é suficiente um número apreciável de abelhas sai para o exterior da colmeia formando a conhecida “barba”.

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Fig. 1 — Abelhas à entrada de uma colmeia a fazerem a “barba” num dia quente

No inverno, o esforço das abelhas é dedicado a manter a sua temperatura corporal superior à do ambiente externo. As abelhas cuja temperatura corporal desce abaixo dos 9º-11º C ficam paralisadas e entram no chamado coma por esfriamento, ficando incapacitadas de se alimentar, acabando por morrer. Em Portugal encontramos regiões, sobretudo no interior centro e norte, com dias seguidos em que as temperaturas atmosféricas rondam os 0ºC. As abelhas, nestas circunstâncias, mantêm as temperaturas corporais formando o cacho invernal, agrupamento denso de abelhas em várias camadas sobrepostas. O enxame ou super-organismo consegue, com este comportamento colectivo, manter a temperatura corporal dos seus indivíduos entre os 13ºC e 20ºC. O mecanismo pelo qual as abelhas conseguem esta façanha é conhecido, e passa por uma sequência de etapas, que se inicia pela ingestão do mel presente na colmeia, a combustão do mesmo no seu corpo, o movimento intenso dos músculos das asas, a geração de calor corporal tão necessário ao aquecimento das abelhas e do cacho de abelhas, que se forma no interior da colmeia sempre que as temperaturas no exterior baixam a 10ºC ou menos.

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Fig. 2 — Vista de topo do cacho invernal numa colónia de abelhas 

Nos invernos mais rigorosos, em muitas zonas do interior do nosso país, as rainhas param a postura. Nesta condição o enxame não necessita de manter uma temperatura no cacho acima dos 13-20ºC. O consumo de mel é baixo, porque o isolamento térmico conseguido pela estrutura do cacho invernal, com uma reduzida superfície externa, diminui as perdas de calor.

Isto num outono-inverno como manda a tradição.

menos abelhas consomem mais…

Quanto consomem as nossas abelhas no período de escassez? Será que têm reservas em quantidade suficiente? Imagino que estas questões e outras do género passem pela cabeça de todos nós com alguma frequência nestes dias frios em que, semana após semana, não abrimos as nossas colmeias para verificar o nível de reservas disponíveis.

Um artigo de John Harbo, o pai das rainhas VSH (Varroa Sensitive Hygiene), refere o consumo de mel diário por abelha, obtido com base nos dados que recolheu numa das suas investigações (fonte: Worker-Bee Crowding Affects Brood Production, Honey Production and Longevity of Honey Bees, 1993).

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Fig. 1 — John Harbo preparando uma rainha para ser inseminada artificialmente

John Harbo verificou que o consumo diário varia um pouco, dependendo da densidade da população na colmeia. Para colmeias mais densamente povoadas, o consumo diário é aproximadamente de 7 mg por abelha. Para colmeias menos densamente povoadas, o consumo diário por abelha ultrapassa um pouco os 12 mg.

Para estarmos em condições de fazer os cálculos do consumo por colmeia, temos que estimar o número aproximado de abelhas por colmeia. Aceitando como correcta a estimativa de que um quadro bem coberto de abelhas comporta 1000 abelhas em cada uma das suas faces (ver http://www.dave-cushman.net/bee/beesest.html), obtemos os elementos necessários à nossa contabilidade.

Proponho 3 cenários diferentes para esta altura do ano (e nos meus apiários na beira interior): um para uma colmeia forte, outro para uma colmeia média e um terceiro para uma colmeia fraca.

Colmeia forte) – colmeia com 12000 abelhas que cobre 6 quadros de abelhas: 12000 x 7 mg = 84 gr/dia, isto é, uma colmeia com cerca de 12000 abelhas consome 588 gr/semana e 2520 gr/mês;

Colmeia média) colmeia com 9000 abelhas que cobre ente 4 e 5 quadros de abelhas: 9000 x 10 mg = 90 gr/dia, isto é, uma colmeia com cerca de 9000 abelhas consome 630 gr/semana e 2700 gr/mês;

Colmeia fraca) colmeia com 7000 abelhas que cobre 3 a 4 quadros de abelhas: 7000 x 13 mg = 91 gr/dia, isto é, uma colmeia com cerca de 7000 abelhas consome 637 gr/semana e 2730 gr/mês.

Espero que estes cálculos vos possam ser úteis e alertem para que, às vezes, menos é mais.

Tendo em conta que cada caso é um caso, pois que na apicultura raramente 2+2=4, e que a apicultura é sempre local, cada um de nós deve ter presente que se as abelhas perdoam muitos dos nossos erros, sem alimento é que elas não passam!