comparação da qualidade em rainhas locais e rainhas importadas

Nesta palestra a Patrícia Wolf-Veiga, investigadora e microbióloga brasileira, a trabalhar no Canadá no National Bee Diagnostic Center, apresenta os dados de uma investigação conduzida durante 2014 e 2015 em torno da comparação da qualidade de rainhas importadas dos EUA com a qualidade de rainhas produzidas localmente . Um tema que me tem interessado e continua a interessar.

Aspectos que destaco:

  • fizeram a contagem e analisaram a viabilidade de espermatozoides e testaram a presença de organismos patogénicos (agentes que podem provocar uma doença) causadores de nosemose assim como virús diversos;
  • compararam também o desempenho das obreiras filhas de rainhas importadas e filhas de rainhas locais;
  • uma rainha bem fecundada deve conter no mínimo 3 milhões de espermatozoides na sua espermateca;
  • no que respeita à qualidade das rainhas constata-se uma maior variação nas rainhas importadas, isto é, a probabilidade de se adquirir rainhas de má qualidade é maior no lote de rainhas importadas que no lote de rainhas locais;
  • em algumas rainhas importadas apenas 20% dos espermatozoides estavam vivos (possível explicação aqui);
  • o desempenho de colónias lideradas por rainhas com mais baixa viabilidade espermática, menor número de espermatozoides ou com maior carga viral é pior;
  • em algumas das abelhas amas que acompanhavam a rainha foram encontrados mais de 100 milhões de esporos de nosema ceranae por abelha (uma colónia de abelhas com 10 milhões de esporos por abelha tende a colapsar durante o inverno, para termos uma noção dos valores que estão em causa);
  • rainhas importadas apresentam uma carga viral superior.

Como diz a Patrícia Wolf-Veiga as rainhas importadas podem trazer alguns “presentes” envenenados. Estas rainhas podem funcionar como cavalos de troia para a entrada em território nacional de uma diversidade de virus desconhecidos ou mal conhecidos (na palestra é feita referência a um que eu desconheço).

mortalidade de colónias de abelhas nos EUA: que relação com o maneio

Esta palestra dada por Dennis van Engelsdorp, entomólogo e Director do Projecto “Bee Informed Partnership”, dá-nos a conhecer um conjunto de dados e correlações entre opções de maneio e sobrevivência vs. mortalidade de colónias de abelhas. Estes dados foram recolhidos por inquérito aos apicultores dos EUA e ao longo dos últimos anos. Dennis van Engelsdorp apresenta um conjunto de fenómenos que se têm repetido ao longo destes anos em circunstâncias semelhantes. No seu entender esta repetição ajuda a definir tendências e, em última instância, a estabelecer algumas relações fortes e fiáveis entre a sobrevivência ou a morte de uma colónia de abelhas e o maneio levado a cabo pelo apicultor. Não esquecendo que “para cada problema complexo existe uma resposta que é clara, simples… e errada.”

Pontos que destaco:

  • maior perda de colónias durante a primavera e verão que no outono/inverno no último ano inquirido;
  • por ano os apicultores profissionais perdem menos colmeias (cerca de 20%) que os apicultores não-profissionais nos EUA (cerca de 45%);
  • cerca de 60% dos apicultores nos EUA não realiza tratamentos contra a varroa (a maior parte são apicultores não-profissionais);
  • 3 ácaros por 100 abelhas adultas justificam o início do tratamento (ver também aqui);
  • tratar com 5 ácaros por 100 abelhas pode ser tarde demais para algumas colónias (ver também aqui);
  • os ácaros são vectores de transmissão horizontal de virús entre abelhas, aspecto que se julga estar a aumentar a sua virulência;
  • tipicamente atingem-se picos de infestação nos meses de setembro e outubro;
  • apesar dos tratamentos terem sido efectuados nas colmeias, a infestação pode subir enormemente no mês de setembro/outubro devido à transferência de varroas de colónias de apiários vizinhos que estão a colapsar com varroose;
  •  o amitraz,  fórmico e o oxálico são os produtos mais eficazes no controlo dos ácaros;
  • quem alimenta com açucar ou pasta de açucar perde menos colónias do que quem não alimenta;
  • quem alimenta com quadros com mel provenientes das colmeias colapsadas perde mais colónias do que quem não o faz;
  • alimentar com proteínas no outono ou na primavera é uma boa prática;
  • mudar mais de 50% dos quadros do ninho por ano tem um impacto negativo nas colónias;
  • mudar 1 ou 2 quadros do ninho por ano é melhor do que não mudar nenhum;
  • colónias iniciadas partir de pacotes de abelhas apresentam a pior taxa de sobrevivência;
  •  colónias iniciadas por divisão/desdobramento de colónias existentes apresentam a melhor taxa de sobrevivência;
  • quem substituiu as rainhas no ano anterior apresenta menor taxa de mortalidade do que quem não o fez.

Vários dos aspectos destacados nesta apresentação já foram abordados neste blogue. Ainda que a realidade portuguesa seja em parte diferente da norte-americana, muitas das conclusões e pontos destacados têm servido e continuarão a servir-me de orientação no meu maneio. E o resultado tem sido muito positivo até agora (ver aqui e aqui)

a criação de rainhas e as propostas formativas: algumas questões

Nos livros de referência acerca de criação de rainhas, descobrimos rapidamente que há mais de uma maneira de criarmos as nossas próprias rainhas. Entre as mais conhecidas estão o Método Miller e o Método Doolittle ou translarve de larvas (grafting). Foco-me neste último, o método de criação de rainhas por translarve, porque me parece que é o mais ensinado pelos formadores nos cursos de curta duração sobre criação de rainhas.

Para que o método do translarve seja levado a cabo deparamo-nos com a necessidade de recorrer a uma parafernália de objectos e múltiplas etapas: desde cúpulas, agulhas de enxertia/translarve, barras de enxertia, enxertia simples, dupla enxertia… Temos ainda colónias iniciadoras com rainha, colónias iniciadoras sem rainha, colónias acabadoras, incubadoras de rainhas, gaiolas de rainhas,  recolha de amas, engaiolamento de rainhas e amas, preparar o candy para as gaiolas, núcleos de fecundação das mais diversas dimensões, e mais coisas ainda pelo meio.

Para o apicultor com apenas algumas colmeias, a informação a assimilar em pouco tempo pode ser avassaladora, assim como o investimento a fazer em material dedicado. Para o apicultor com centenas de colónias, torna-se incomportável do ponto de vista do equipamento e do trabalho envolvido. Isso não quer dizer que este método não funciona ou é ineficiente, porque funciona bem o suficiente para nele se basear uma indústria de criação de rainhas.

A primeira questão que me surge: será o método de criação de rainhas por translarve o mais indicado para se ensinar, e sobretudo praticar, em cursos de curta duração, onde a população-alvo maioritariamente se constitui de pequenos apicultores e/ou jovens que se estão a iniciar na apicultura? Responderia que sim se todos eles estivessem a dar os primeiros passos para no futuro serem criadores de rainhas. Mas será realisticamente esse o caso?

O método Doolittle é o método mais utilizado pelos criadores profissionais de rainhas. Para ter certeza de que as rainhas produzidas a partir deste método são as melhores possível estes criadores experimentados fazem enxertos com larvas o mais jovens possível (12 a 24 h de idade). Estas larvas são do tamanho desta virgula “,” e podem ser facilmente danificadas no processo de enxertia.  É uma operação delicada que exige excelente visão e mãos treinadas.

Segunda questão: em cursos de curta duração há tempo e oportunidade para que todos os formandos façam enxertos, treinem a mão, errem e voltem a repetir o processo até que o gesto técnico esteja minimamente apreendido e dominado? Se sim voltarão ao seu apiário e realizarão os primeiros translarves com algum sucesso e continuarão motivados. Caso contrário muitos deixarão de utilizar a técnica por desmotivação. Neste caso todo o tempo e dinheiro despendido por eles e/ou estado pouco ou nenhum retorno terá.

Para se alcançar a excelência na produção de rainhas pelo método de translarve as cúpulas devem estar preparadas com geléia real ou mesmo ser efectuado o duplo enxerto de larvas. Procura-se que a larva esteja constantemente em contato com a alimento vital que torna a larva numa rainha de qualidade. A alimentação adequada das jovens abelhas amas com grandes quantidades de néctar e pólen assegurará que as larvas da rainha em desenvolvimento serão alimentadas copiosamente e que as rainhas virgens estarão em excelentes condições na altura da eclosão. Se a cúpula da rainha não estiver devidamente preparada com geléia real, todo o esforço colocado na criação de rainhas de qualidade será desperdiçado. O Dr. C. L. Farrar declarou no seu artigo Production Management of Honey Bee Colonies que “qualquer interrupção na nutrição larvar é prejudicial quando se sabe que a larva de uma rainha deve aumentar cerca de 1.500 vezes o seu peso entre incubação e conclusão da alimentação 5 dias depois. Não basta que uma rainha ponha ovos férteis; ela deve estar completamente desenvolvida se for uma boa rainha, uma rainha capaz de construir e manter uma colónia na sua força total“.

Terceira questão: quantos formandos depois de um curso de curta duração poderão enxertar sem interromper por mais tempo que o desejável a nutrição larvar? Se poucos ou nenhum, sugiro que sejam informados pelos formadores no final do curso para as lacunas críticas que a sua aprendizagem ainda apresenta.

O método de criação de rainhas por translarve é na opinião de Gilles Fert, conceituado criador de rainhas, um método adequado aos apicultores que se focam na criação de rainhas na ordem das várias centenas ou milhares. Ele avança inclusivamente com um número bastante preciso: para os apicultores que desejem criar mais de 200 rainhas/ano justifica-se a utilização deste método. Para os que não pretendem atingir esse número aconselha a utilização de outros métodos.

A última questão: estes cursos de curta duração, maioritariamente frequentados por apicultores que não irão necessitar de criar rainhas em grande número têm em devida conta o perfil de saída dos formandos, as suas reais necessidades actuais e futuras?

Fig. 1: Capa do livro de Gilles Fert L’élevage des reines, com tradução portuguesa. 

Apêndice: No contexto actual de desenvolvimento da apicultura nacional já temos vários criadores profissionais de rainhas que procuram responder às necessidades do mercado. Se, ainda assim, as necessidades de rainhas ultrapassam a sua capacidade de resposta então justifica-se a montagem de cursos de média-longa duração para futuros criadores de rainhas. Destes cursos sairão criadores de rainhas devidamente qualificados e motivados para satisfazer as lacunas no lado da oferta. Nestes casos, e só nestes casos, justifica-se a aprendizagem e o treino de criação de rainhas pelo método aqui abordado.

vespa velutina: sintetizada a feromona sexual para utilizar em armadilhas selectivas

Pode ter sido dado um passo importante para o controlo biológico da Vespa Velutina por via da síntese de um composto semelhante à feromona sexual libertada nos vôos de acasalamento pelos indivíduos desta espécie.

Hoje (8 de Dezembro de 2017), um biólogo da Universidade da Califórnia (UC) em San Diego e seus colegas na Ásia apresentaram uma solução para lutar contra a vespa asiática baseada no instinto do inseto se orientar através de um químico natural (feromona*) libertado durante os vôos de acasalamento. James Nieh da UC San Diego e investigadores da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade Agrícola de Yunnan decifraram a feromona sexual da Vespa velutina. Além disso, eles desenvolveram um método de controle dos machos da vespa asiática atraindo-os para armadilhas iscadas com versões sintetizadas dessa feromona (vídeo em baixo).

Eles testaram com sucesso os principais compostos da feromona sexual da espécie e os resultados mostram que os machos são muito atraídos por eles: “as armadilhas são incrivelmente eficazes, para além das nossas expectativas“, disse Nieh, professor na Divisão das Ciências Biológicas da UC San Diego.

As feromonas são sinais químicos que transmitem informações entre membros da mesma espécie. As feromonas sexuais desempenham um papel fundamental no acasalamento, sobrevivência e manutenção das espécies. No caso dos machos da vespa asiática, que têm visão limitada, as feromonas sexuais são susceptíveis de desempenhar um papel fundamental na atração de longo alcance.  A nova pesquisa do Dr. Nieh demonstra uma maneira simples e confiável de monitorar e potencialmente reduzir as populações destes insetos invasores.

Vídeo: Armadilha com cola anti-vespa velutina com uma banda de papel branco ao centro impregnada com a feromona sexual sintetizada.  

fonte: http://mielleriedesgraves.over-blog.com/2017/12/piege-anti-frelon-a-colle-avec-de-la-pheromone-sexuelle-synthetique.html

*feromona: substância segregada por um animal e reconhecida por animais da mesma  espécie na comunicação e no reconhecimento. = FEROMÓNIOFERORMONA (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [consultado em 19-12-2017]).

associação dos apicultores profissionais de Portugal: a propósito

Ontem, dia 16 de Dezembro, reuniu-se em Castelo Branco um grupo de apicultores profissionais com o intuito de darem os primeiros passos no sentido de fundarem a Associação dos Apicultores Profissionais de Portugal (AAPP).

Justifica-se uma associação que represente e expresse as vontades, os anseios, os interesses de um grupo profissional? Na minha opinião, obviamente que sim. O vazio que até agora existiu é que se torna de difícil compreensão.

Mas o que é ou o que define um apicultor profissional em Portugal? Resposta de difícil consenso dada a relativa diversidade de perfis existente na população de apicultores profissionais no nosso país. Socorrendo-me da definição aqui apresentada no âmbito do Plano Apícola Nacional 2017-2019, os apicultores que detêm um efetivo superior a 150 colmeias consideram-se apicultores profissionais.

Ainda no mesmo Plano, com dados de 2015, ficamos a saber a propósito do sector profissional da apicultura nacional:

  • representa 10% do número de apicultores existentes no território nacional (ilhas e continente) e 59% do efetivo total de colmeias;
  • apresentou uma produtividade média de 22 Kg por colmeia, com um acréscimo de produtividade de 50% em transumância (33 kg por colmeia);
  • apicultores com uma dimensão média de 346 colmeias, apresentam um custo total de 68,51€ e 100,81€ por colmeia, sem e com transumância respectivamente;
  • o Valor Bruto da Produção médio para apicultores com uma dimensão média de 346 colmeias é de 118,74 €/colmeia;
  • o Valor Bruto da Produção total dos apicultores profissionais foi de 43 milhões e 649 mil euros.

A propósito destes números proponho algumas linhas de reflexão e consciencialização acerca de algumas das externalidades* positivas do sector apícola profissional nacional:

  • contributo para a não extinção das abelhas em território nacional;
  • contributo para a polinização da flora nacional;
  • contributo para produção em massa e a preços razoáveis de uma série de produtos de origem vegetal que tão valorizados são na nossa dieta (ver mais aqui);
  • contributo para a economia local, regional e nacional;
  • contributo para a mitigação do despovoamento em determinadas regiões do país.

Fig. 1: João Tomé (apicultor profissional) a preparar a transumância de colmeias.

*externalidade= traduz uma situação em que a tomada de decisões de produção ou consumo por parte de determinados agentes económicos          se reflete na ocorrência de custos ou benefícios para outros agentes que          não estiveram envolvidos nessas atividades.

falta de eficácia dos acaricidas ou falta de jeito do apicultor?

 

Fig.1: Esquema representando a interacção das abelhas com as tiras de Apivar que funcionam por contacto.

Neste esquema fica evidente que para as tiras de Apivar funcionarem é necessário que as abelhas contactem com as mesmas para se impregnarem com o amitraz  que depois o espalharão também por contacto a outras abelhas . Este é o princípio de funcionamento de todos os tratamentos contra a varroa que funcionam por contacto.

David Quesada, conceituado apicultor e blogger espanhol, apresenta aqui um conjunto de advertências,  feitas já também por aqui, acerca da necessidade de colocar as tiras acaricidas entre quadros com criação, em especial nos tratamentos de de verão/início de outono. Como as tiras acaricidas funcionam por contacto o local indicado para as colocar é onde há mais abelhas: no centro das zonas de criação.

Por ejemplo, si dice que se utilicen dos tiras, no colocar una porque pensemos que tenemos pocos cuadros de abeja y que con una basta, ya que así estaremos aplicando una dosis menor a la indicada. La colocación adecuada de las tiras anti varroa es también imprescindible, siempre dentro del nido de cría, en contacto con los cuadros con cría. Esto exige, en el momento del tratamiento, buscar y ver cuantos cuadros de cría hay y donde están para insertar entre ellos el tratamiento. Colocar las tiras en cualquier sitio, a ojo, sin realizar esta búsqueda hará que las abejas no entren en contacto con ellas resultando ineficaz, ya que el acaricida que portan las tiras actúa por contacto.

Todo esto puede parecerte obvio, pero aunque te cueste creerlo,  quienes trabajamos codo con codo con los apicultores lo vemos con más frecuencia de la que nos gustaría. La incorrecta aplicación de los tratamientos es uno de los hallazgos y conclusiones que hemos sacado de los últimos estudios llevados a cabo en el marco del Programa de Vigilancia Piloto de las Enfermedades de las Abejas que desde el año 2012 venimos realizando en España bajo la coordinación del Ministerio de Agricultura.

Como escreve Quesada constata-se que aplicação incorrecta de tratamentos é muito mais frequente que o esperado. Será que em Portugal é muito diferente? Não creio. Quando por cá se fala de ineficácia dos tratamentos acaricidas por contacto, eu leio falta de jeito dos apicultores, senão em todos os casos numa boa parte deles. Ver este post relacionado, entre outros.

Um velho ditado português “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” aplicado a este contexto seria “diz-me onde colocaste as tiras e dir-te-ei que eficácia alcançarás”.

Nota: para aumentar a eficácia dos tratamentos com acaricidas que funcionam por contacto há necessidade de recolocar as tiras sempre que a zona de criação se desloque.

estarão as abelhas a desaparecer?

Sim sem dúvida diz-se aqui.

Contudo as abelhas nas explorações apícolas estão a prosperar diz-se aquiaqui e aqui.

Muitos de nós não desconhecemos  que as abelhas estão ameaçadas por poderosos inimigos (varroa, virús, pesticidas, predadores exóticos, …), muitos deles recentes, e que sem a intervenção humana, em particular dos apicultores, o seu declínio seria rápido e a sua extinção quase certa.

Ainda que a célebre citação do Einstein “sem abelhas a humanidade viverá apenas mais quatro anos” nunca lhe tenha saído da boca tanto quanto se sabe, ela no seu exagero alerta para um facto incontornável: as abelhas e outros polinizadores têm um papel determinante na produção em massa e a preços razoáveis de uma série de produtos de origem vegetal que tão valorizados são na nossa dieta.

Pergunto se será exagerado concluir: na actualidade a diversidade e qualidade da nossa dieta está dependente dos polinizadores em geral, das abelhas em particular e dos apicultores em última instância, porque sem eles as abelhas muito provavelmente seriam apenas uma recordação da nossa infância e juventude.

luta contra a vespa asiática: o que é um larvicida?

Nos posts anteriores fiz menção a um conceito que importa decompor e explicar dado a sua elevada importância no contexto da escolha do biocida para construir cavalos de tróia na luta contra a vespa asiática/velutina. O conceito em questão é o de larvicida.

O que é um larvicida?

Entre os diversos insecticidas/biocidas que podemos utilizar na preparação dos cavalos de tróia alguns têm um efeito larvicida outros um efeito adulticida. Um insecticida-larvicida é aquele que apresenta uma actividade sobre as larvas dos insectos evitando que estas se desenvolvam e cheguem à fase de pupa. Desta forma o larvicida interrompe o ciclo de vida do insecto uma vez que as larvas não chegam a transformar-se em insectos.

Fig. 1: Ciclo de vida de uma mosca: ovo, larva, pupa, insecto adulto.

Todos os insectos com metamorfose completa (moscas, abelhas, vespas e outros) seguem este mesmo esquema desenvolvimental. Todos passam por uma fase larvar antes de atingirem a fase pupal. Assim um larvicida interrompe a passagem de larva a pupa. Como?

Os insectos desde a sua fase de ovo até à fase adulta realizam uma série de modificações. No final de cada modificação revestem-se de uma capa protectora, o exoesqueleto. Na passagem da fase larvar à fase pupal a quitina é um elemento fundamental à formação do exoesqueleto. Os larvicidas impedem a síntese desta quitina. Sem a deposição da quitina o exoesqueleto não se forma, a larva não termina o seu desenvolvimento, rompe-se assim o ciclo de vida do insecto.

De um ponto de vista teórico (e a teoria deve iluminar a prática) a utilização de cavalos de tróia com larvicidas para diminuir a predação das velutinas parece-me que tem pés para andar, em especial pelo efeito perdurável que tudo indica possa ter. Ao contrário, os biocidas adulticidas, aqueles que matam os insectos adultos, mas com pouco ou nenhum efeito nas larvas, têm um efeito mais rápido mas menos perdurável.  Com a utilização exclusiva de adulticidas passadas uma a duas semanas desconfio que iremos ter novas velutinas a massacrarem as nossas abelhas. Como aconteceu no estudo realizado no País Basco.

Entre muitos outros larvicidas destaco o s-methoprene e o pyriproxyfen, uma vez que estão numa marca comercial bem conhecida, o Frontline Plus e o Frontline Gold, conjugados com fipronil, um adulticida.