ácido oxálico vaporizado/sublimado: um tratamento (in)eficaz!!??

Sigo e intervenho no fórum norte-americano de apicultura Beesource. Posso dizer, com base no que ali leio, que os tratamentos com os vaporisadores/sublimadores de ácido oxálico estão na moda entre os apicultores norte-americanos de pequena e média dimensão.  Em Portugal, julgo que a utilização destes vaporizadores de ácido oxálico no controle da varroa está a dar ainda os primeiros passos. Tenho ideia que é muito reduzido o número de apicultores que os utiliza por cá. Importa, contudo, ir analisando as experiências dos que, lá fora, já utilizam este método para tirar-mos algumas conclusões. Até porque muitas das vezes, parece-me que as novidades neste campo, quando entram no nosso país, vêm envolvidas numa aura que leva a crer que este novo produto ou novo método de aplicação irá ser a solução de todos os nossos problemas. É uma característica muito nossa: do mais pesado pessimismo/depresssão ao mais despudorado optimismo/euforia vão 5 segundos!

Neste fórum apícola norte-americano as opiniões expressas em geral são positivas acerca da eficácia deste dispositivo/método, sobretudo nos estados a norte do país onde se assiste a uma paragem da postura da rainha durante o inverno. Contudo, há também relatos de infestações de varroa mal controlados após a utilização desta opção de tratamento.

Em baixo deixo um testemunho de um apicultor norte-americano acerca dos resultados que observou após a utilização do ácido oxálico sublimado.

O título diz tudo … Temos uma grande colmeia próspera. As abelhas estão a construir favo tão rápido que eu não sei o que fazer. A rainha está colocando ovos como uma louca. Lotes e lotes de criação saudável, favo, pólen, mel etc. De modo que é uma boa notícia!  Mas, nós também temos lutado com o temido ácaro varroa. O JRG veio e me ajudou [um amigo e mentor incrível]. Ele me mostrou uma percentagem muito pequena do vírus das asas deformadas num número muito pequeno de abelhas. Eu estou-lhe grato que todo o apiário não esteja infectado.

Eu tinha começado com a vaporização de ácido oxálico (AO) há três semanas numa base de intervalos de 5 dias. Vi 10-30 ácaros caindo por dia. Diminuí o intervalo para 4 dias.

Eu instalei duas tiras de Apivar por caixa [todos os dez quadros estavam cheios de abelhas]. De modo que coloquei em 3 caixas com 30 quadros um total de 6 tiras Apivar nesta colmeia forte. Eu verifiquei 24 horas após a instalação das tiras Apivar mais de 300 ácaros mortos por dia. Uau!!…  isso me deixa querendo saber sobre a eficácia da vaporização de AO …  

Aqui estão as minhas perguntas: Porque via apenas 10-30 ácaros mortos diariamente usando a vaporização de AO contra os mais de 300 ácaros mortos por dia usando o Apivar? Por que o vapor de AO não nos dá mais ácaros mortos? Existe alguma coisa que podemos fazer de diferente para garantir que não perdemos esta colmeia para os ácaros Varroa?  Obrigado,

Soar

Fonte: http://www.beesource.com/forums/showthread.php?322531-Wow!-I-am-noticing-a-big-difference-between-Apivar-amp-OA-vaporization-results-Why

Apêndice 1: a utilização de vaporizadores/sublimadores de ácido oxálico obriga a cuidadosas e apertadas medidas de protecção individual, nomeadamente a utilização de uma máscara adequada, para evitar os efeitos nocivos da inalação dos gases de ácido oxálico na saúde do aplicador/apicultor.

Muita prudência na escolha de uma máscara verdadeiramente protectora e mudar os filtros da mesma de forma regular, são os conselhos que deixo para que não prejudiquem a vossa saúde tentando manter as vossas abelhas saudáveis.

Apêndice 2: a utilização de vaporizadores de ácido oxálico contruídos artesanalmente pelos apicultores pode revelar-se uma grande desilusão por dois tipos de razões:

a) estes equipamentos, se mal calibrados, podem estar a queimar o ácido oxálico e não a sublimá-lo, retirando qualquer efeito positivo deste tratamento sobre as varroas;

b) a poupança alcançada com a sua construção caseira pode ser residual.

Apêndice 3: entre os apicultores que utilizam os vaporizadores de ácido oxálico não há consenso acerca do intervalo óptimo entre as diversas vaporizações: as opiniões variam de 3 dias de intervalo a 5-7 dias de intervalo. Mais um dos muitos temas apícolas em que 10 apicultores são capazes de gerar 12 opiniões diferentes e antagónicas.

definições, acaricidas e opções fundamentadas

  • o) Resíduos de medicamentos veterinários: substância farmacologicamente activa, tal como definida na alínea a) do artigo 1.o do Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações, que prevê um procedimento comunitário para o estabelecimento de limites máximos de resíduos de medicamentos veterinários nos alimentos de origem animal;
  • p)  Limite máximo de resíduos (LMR): o teor máximo em resíduos, tal como definido na alínea b) do artigo 1.o do Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações;
  • q)  Intervalo de segurança: período de tempo entre a última administração do medicamento veterinário ao animal, em condições normais de utilização, e a obtenção de alimentos provenientes desse animal, a fim de garantir que os mesmos não contêm resíduos em teor superior aos LMR estabelecidos em conformidade com o Regulamento (CEE) n.o 2377/90, do Conselho, de 26 de Junho, e posteriores alterações.

Fonte: Infarmed (http://ofporto.org/upload/documentos/595029-egime-juridico-dos-med-veterinarios.pdf)

Juntando as peças do puzle temos:

  • para o Apivar o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de amitraz (substância activa no Apivar) no mel é de 200 microgramas por Kg de mel;
  • para o Bayvarol o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de flumetrina (substância activa no Bayvarol) no mel não está definido pela UE;
  • para o Apistan o intervalo de segurança é de zero dias e o LMR de fluvalinato (substância activa no Apistan) no mel não está definido pela UE.

Sem fantasmas e sem alarmismos continuarei a tratar as minhas colmeias com os melhores tratamentos, os de mais garantida eficácia, os mais simples de utilizar, os homologados e os inócuos para a saúde dos meus clientes… ciente que é meu dever, minha obrigação, ouvir quem de facto merece ser ouvido, sobretudo neste aspecto em particular, para fazer opções fundamentadas e não embaladas por modas.

varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas

Afirmei na abertura desta categorias o seguinte: “não considero que haja mel bom e mel menos bom, mais sendo esta classificação feita com base nos tratamentos utilizados. Todo o mel puro é bom até prova em contrário.” Senti necessidade de fazer esta afirmação porque infelizmente no nosso país, e não só, há apicultores que, de uma forma que eu considero irresponsável, mal informada e alarmista, tendem a associar a qualidade do mel ao tipo de tratamentos utilizados pelos apicultores no combate à varroa. Falam em resíduos no mel deixados por esses varroacidas, e chegam a levantar graves suspeitas da perigososidade que estes méis apresentam aos consumidores. No sumário em baixo podemos ver que as análises feitas na Alemanha a méis de colónias tratadas com acaricidas sintéticos, só detectaram vestígios de fluvalinato em 1% das amostras, e que a flumetrina e o amitraz não foram detectados. Refiro-me apenas a estes princípios activos porque são os únicos que estão presentes nas marcas dos tratamentos  homologadas como varroacidas no nosso país.

Sumário: “Em geral, a utilização de varroacidas nas colónias de abelhas deixa resíduos nos vários produtos das abelhas. Entre a variedade de varroacidas disponíveis, três ingredientes são comumente detectáveis no mel e cera de abelha: bromopropilato (Folbex VA), cumafos (Perizin, Asuntol) e fluvalinato (Apistan, Klartan, Mavrik). Estes produtos químicos são solúveis na gordura e não voláteis, e, portanto, acumulam-se a níveis de ppm como resíduos na cera de abelha e com vários anos de tratamento. Através do processo de difusão, estes ingredientes migram a partir do favo de cera para o mel lá armazenado. No mel alemão, o varroacida mais frequentemente encontrado é o cumafos (28%). O bromopropilato é detectável mas com baixa frequência (11%). Devido à sua alta força de ligação com a cera de abelha, a detecção fluvalinato é relativamente rara no mel (1%). Todos os resíduos foram encontrados a baixos níveis de ppb.  Outros ingredientes com um comportamento químico semelhante têm um papel sem importância enquanto resíduos no mel, cera e própolis, devido à quantidade muito baixa de ingredientes utilizados (acrinatrina, flumetrina) ou sua instabilidade (amitraz).”

Fonte: https://hal.inria.fr/file/index/docid/891581/filename/hal-00891581.pdf

Nota: ppm (partes por milhão) é a medida de concentração que se utiliza quando as soluções são muito diluídas.

Exemplo: Quando se afirma que a água poluída de um rio contém 5 ppm em massa de mercúrio significa que 1 g da água deste rio contém 5 µg (0,000005 gr) de mercúrio.

mercado do mel: mel ou adoçantes??!!

Inicio este nova categoria intitulada “mercado do mel” dado que a comercialização a retalho ou por grosso do mel que as nossa abelhas produzem é um tema que a todos nós importa.

Deixo também já clara a minha declaração de interesses: por norma serei um defensor convicto do mel produzido em Portugal, um mel de grande qualidade que tem na sua origem florações predominantemente silvestres, e um observador muito desconfiado do mel que a nossa lei permite que seja designado “não UE”. O que se quer esconder por detrás do biombo desta designação que encontramos tão frequentemente nos rótulos do mel importado? Estou consciente que a maior parte dos meus leitores (apicultores também) pensam como eu, e que para poder ter algum impacto teria de chegar a outro público, o público dos que consomem mel e não são apicultores. Contudo caso por aqui passe um consumidor de mel, menos prevenido e informado acerca do mercado do mel, espero que no final faça como os consumidores chineses que estão a mudar as suas opções de compra e a comprar sempre que podem directamente ao apicultor. As razões de tal opção estão bem sustentadas como podemos ver de seguida.

ESTRANHÍSSIMO!!! Estudos em torno da produção e consumo de mel chinês têm indicado que a China consome muito mais mel do que produz, e muito mais mel do que a soma da sua produção e importações.

COMO SE FAZ A QUADRATURA DO CIRCULO??? Conforme relatado ao longo dos últimos anos, a comunicação social chinesa indicou que em numerosas cidades onde foram realizados testes à pureza do mel vendido no mercado de retalho, em mais de metade das amostras de mel analisadas foram encontradas adulterações com até 70-100 % de outros adoçantes.

ELES RECLAMAM!!! E NÓS??? Isto levou a reclamações dos consumidores chineses e a uma tendência para comprar o mel diretamente aos apicultores.

Fonte: http://us1.campaign-archive1.com/?u=5fd2b1aa990e63193af2a573d&id=78b929f20f&e=5229dfa01a

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Fig. 1 — Se nem todos os que se vestem como Batman são o Batman porque é que uma embalagem rotulada como sendo mel de origem “não UE” teria de ser mel puro?

projeto alemão de monitoramento de abelhas: um estudo de longo prazo para compreender as perdas periodicamente altas de inverno em colónias de abelhas do mel

Resumo – A abelha ocidental do mel, Apis mellifera, é o animal polinizador mais importante na agricultura em todo o mundo proporcionando mais de 90% dos serviços de polinização comerciais. Devido ao desenvolvimento agrícola a procura das abelhas do mel para os serviços de polinização está a aumentar progressivamente, sublinhando a capacidade de polinização da população mundial de abelhas geridas pelo homem. Assim, o declínio a longo prazo das colónias de abelhas geridas pelo homem tanto na Europa como na América do Norte é fonte de grande preocupação e tem estimulado uma intensa pesquisa sobre os fatores que presumivelmente estão a causar o colapso das colónias de abelhas. Apresentamos um estudo de quatro anos que envolveu a monitorização de mais de 1200 colónias de abelhas, instaladas em cerca de 120 apiários, de onde foram recolhidas as abelhas durante todo o período em que decorreu o estudo. As amostras de abelhas foram coletadas duas vezes por ano e foram analisados vários fatores patogénicos, incluindo o ectoparasita ácaro Varroa destructor, fungos (Nosema spec., Ascosphaera apis), a bactéria Paenibacillus larvae, e vários vírus. Dados sobre os factores ambientais, práticas apícolas e pesticidas também foram coletados. Todos os dados foram analisados ​​estatisticamente por forma a estabelecer  relações com a mortalidade das colónias de abelhas no período invernal. Podemos demonstrar que vários factores estão significativamente relacionados com as perdas de inverno observadas durante a monitorização de 4 anos das colónias de abelhas, a saber:

  • (i) nível alto de infestação pelo varroa destructor,
  • (ii) a infecção com o vírus das asas deformadas e vírus da paralisia aguda no outono,
  • (iii) a idade rainha, e
  • (iv) a fraqueza das colónias no outono.

Nenhum efeito pode ser observado para Nosema spec. ou pesticidas. As implicações destes resultados serão discutidos.

Fonte: https://hal.archives-ouvertes.fr/hal-00892101/document

uma abordagem mais “natural” para fazer núcleos de fecundação

Quando uma colónia produz a sua rainha após a enxameação ou o apicultor faz a divisão de uma colónia, há uma probabilidade elevada (superior a 90%) de produzir uma nova rainha com uma vida reprodutiva normal, à sua frente. Este elevado nível de sucesso contrasta com o resultado obtido com rainhas fecundadas nos pequenos nucléolos ou mini-núcleos, onde a melhor taxa de sucesso que podemos esperar é de 2 em cada 3 (66%), e muitas vezes pode ser substancialmente mais baixa.

Qual a razão da diferença? Em parte é uma questão de escala, porque num nucléolo temos apenas 200-300 abelhas para dar apoio a uma rainha virgem. Mesmo os mais pequenos enxames secundários, mais conhecidos como garfos, são muito maiores do que isto. Portanto os mini-núcleos colocam as rainhas virgens e as abelhas numa situação excessivamente artificial, para a qual não estão naturalmente adaptadas.

Se o objectivo é partir uma colónia e fazer dela duas, para aumentar o efectivo a tarefa fica concluída assim que a divisão é feita. A colónia mãe (aquela que mantém a velha rainha) e a colónia filha (a que está criando as suas realeiras de emergência) pode permanecer no mesmo apiário, quer em assentos separados ou com a colónia filha em cima da colónia mãe usando um prancheta especial de divisão. Tudo o que o apicultor precisa de fazer é sentar-se e esperar e, após 4-5 semanas, verificar se uma nova rainha está fazendo postura na colónia filha. A colónia mãe que doou abelhas e criação e é improvável que enxameie. Por outro lado, o excedente de realeiras de emergência produzidas pela divisão podem ser utilizados para criar mais alguns núcleos com abelhas, quadros e criação retirados de outras colmeias no apiário. Cerca de 90% destas rainhas são sobreviventes de longo prazo (sobrevivem pelo menos até o final da temporada seguinte).

Os aspectos-chave envolvidos na concretização deste processo de criação e fecundação de rainhas podem ser resumidas como se segue :

 

  1. Os núcleos devem ser preenchidos com as abelhas da mesma colónia que fez as realeiras;
  1. Cada núcleo deve ser fornecido pelo menos com 2 células reais e de preferência mais (não há nenhum limite);
  1. Os quadros com realeiras devem ser retirados logo que possível após a operculação (cerca do 9º dia);
  1. As entradas das caixas de núcleos devem ser fechadas e o núcleo deve ser transferido para um apiário de acasalamento, situado a mais de 3-4 Km de distância.

Achamos que desta maneira a criação de núcleos de fecundação funciona melhor porque é mais “natural” , ou seja assemelha-se muito ao que acontece na natureza. A explicação é a seguinte :

  • As orientações 1 e 2 estão logicamente relacionados e são destinadas a garantir que as rainhas em desenvolvimento são cuidadas por abelhas operárias com quem estão geneticamente relacionados (ponto 1). As abelhas estão conscientes da relação genética que têm com os suas companheiras de ninho (se são irmãs completas ou apenas meia-irmãs — dependendo do zangão que as gerou). Estas relações fazem parte integrante da organização colónia, embora eles não sejam completamente compreendidas no presente momento. Isto contrasta com o método tradicional de fazer núcleos, onde uma única célula real é geralmente dado a um grupo de abelhas não relacionadas. A provisão de um núcleo com várias realeiras tem a vantagem de permitir que as abelhas podem fazer “o que acontece naturalmente”, isto é, façam as suas escolhas (ponto 2). Nós (meros seres humanos) não entendemos que critérios elas estão usando, mas eles (as abelhas) claramente fazem-no e a melhor estratégia é não interferir.
  • As orientações 3 e 4 também estão logicamente relacionados e visam aumentar o sucesso do acasalamento das rainha virgens. Fazendo-se os núcleos assim que as células rainha foram operculados (ponto 3) aumentamos o número de dias antes de uma nova rainha nascer e estar pronta para realizar os vôos de acasalamento. O bloqueio de entrada evita a perda de abelhas aquando da transferência para outro apiário (ponto 4) e garante que elas ficam no núcleo e não vão voar de volta para casa. Estudos recentes mostram que rainhas virgens não saem sozinhas nos seus vôos de acasalamento, mas são acompanhados por um número de abelhas operárias maduras que as guiam para as áreas de congregação dos zãngãos e asseguraram seu retorno seguro. Para fazer bem esta tarefa um núcleo deve ter abundância de abelhas forrageiras que tenham tido tempo suficiente para conhecer o seu novo território. Se núcleos são feitos no dia 9 e são transferidos imediatamente para o apiário de acasalamento deve haver um mínimo de 7 dias antes de uma nova rainha estar pronta para acasalar (e provavelmente mais) e as abelhas forrageiras estarem capacitadas para desempenhar esta função tão importante. A falta de abelhas pode ser uma das razões para os mini-núcleos terem um menor nível de sucesso no acasalamento das suas rainhas do que as colónias maiores. Uma desvantagem adicional pode ser que as rainhas mal apoiadas são obrigados a acasalar mais perto de casa, resultando num menor acesso à diversidade genética dos zângãos.

Consciente que alguns aspectos podem e devem ser discutidos e bem reflectidos por todos nós, importa que a nossa prática seja conduzida cada vez mais respeitando o “modo natural de fazer”das abelhas. Pergunto se com um excessivo artificialismo nos procedimentos por nós escolhidos não estaremos a ganhar a curto prazo para desperdiçar a longo prazo, ou como diz o nosso povo não estaremos a poupar no farelo e a desperdiçar na farinha?

o impacto de diferentes fontes de alimento na saúde das abelhas

Apresento em baixo as conclusões de um estudo muito interessante, realizado para avaliar os efeitos sub-letais e invisíveis aos olhos dos apicultores de algumas fontes de alimentos artificiais/suplementares na saúde e longevidade das nossas abelhas de inverno. Este estudo revela que, apesar das nossas melhores intenções em manter as nossas abelhas saudáveis com uma dieta artificial, podemos estar inadvertidamente a causar-lhes um prejuízo. Este post vem no seguimento deste.

Conclusão

Com base na nossa pesquisa, pode concluir-se que alimentar com diferentes fontes de alimentos tem efeitos diferente no tracto digestivo das abelhas, especialmente na camada epitelial do intestino médio. A fonte natural de alimento para as abelhas, o mel, não teve efeitos nocivos na camada epitelial do intestino médio, e os conteúdos intestinais estavam completamente ligada a esta camada, a qual conduz a uma boa qualidade da digestão e a uma máxima reabsorção dos nutrientes. Resultados semelhantes foram obtidos coma alimentação das abelhas com xarope de açúcar e xarope invertido enzimaticamente sem a adição de levedura e mosto de cerveja. Isto significa que a adição de levedura e mosto de cerveja  produz um dano na camada epitelial do intestino médio, e as diferenças estão dependentes da fonte de alimento. O danos mais grave na camada epitelial do intestino médio foi encontrada nas abelhas alimentados com xarope de açúcar invertido com ácido tartárico (em todas as combinações examinados).  No que diz respeito ao impacto de diferentes fontes alimentares na duração da vida das abelhas, concluímos que a alimentação com mel, xarope de açúcar invertido com enzimas teve um efeito positivo sobre o tempo de vida das abelhas, enquanto que a adição de leveduras e malte de cerveja encurta a vida das abelhas, deste modo recomendamos a utilização de alimentação suplementar sem a sua utilização destes dois aditivos, e que o uso destes suplementos deve ser mais praticado durante outras estações do ano, especialmente se não houver fontes naturais de pólen.

Fonte: http://www.resistantbees.com/fotos/estudio/feeding.pdf

Nota: a inversão do açúcar nos xaropes comerciais pode ser realizada industrialmente através da sua combinação com o ácido tartárico.

como atrasar a enxameação

A enxameação é um processo natural, inevitável, com o qual, mais tarde ou mais cedo, todo o apicultor se vê confrontado. Estar preparado é a chave para prevenir e/ou controlar o processo da enxameação. Ainda que por vezes não consigamos evitar a enxameação, contudo é possível atrasá-la. Atrasar a enxameação pode ditar a diferença entre não colher mel nenhum na estação ou, caso sejamos bem sucedido, colher algum mel, o suficiente para pagar o que investimos durante o ano naquela na colónia.

As diversas técnicas disponíveis para prevenir e/ou atrasar a enxameação, em grande parte giram em torno de fornecer espaço adequado à colónia, abrandar a velocidade de crescimento da sua população ou simular artificialmente a enxameação, com a aplicação de diversas técnicas, as mais conhecidas desenhadas por Demarée e por Snelgrove.

A chave para o sucesso da prevenção ou atraso da enxameação roda muito em torno do momento e da intensidade com que a intervenção do apicultor é exercida.

No caso dos meus apiários na beira, as colónias mais fortes atingem os 6-8 quadros de criação na primeira quinzena de março, graças à entrada abundante de pólen que se inicia em fevereiro a juntar a um fluxo lento de algum néctar que surge por esta altura. Estas colónias fortes convivem no mesmo apiário com algumas outras que saíram menos povoadas do inverno. Estou-me a referir a colónias que nesta primeira quinzena de março apresentam 4-6 quadros de abelhas e 2-4 quadros com criação. O facto de os meus apiários apresentarem estes desequilíbrios permite-me, através da equalização, retirar força às colmeias que me parecem prematuramente fortes e dar alguma dessa força às minhas colmeias mais fracas.

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Fig. 1 — Quadro com muita criação operculada a utilizar no processo de equalização

Assim as colmeias mais débeis que eu entendo que ganham com a equalização recebem um quadro com muita criação operculada, quadro este fornecido pelas mais fortes. As primeiras são reforçadas com 4000-5000 abelhas novas e as últimas ficam descongestionadas dessa população de abelhas que poderiam vir a ser o gatilho para uma enxameação precoce, ainda durante a primeira quinzena de abril. Em simultâneo ofereço espaço no ninho às rainhas destas colónias mais fortes. Em regra nas colónias mais fracas encontro pelo menos um quadro ainda vazio com muito boas áreas de postura. Este recurso inestimável, colocado no ninho das colmeias mais fortes, permite-me criar um novo espaços de postura tão necessário nestas colónias. A juntar a esta acção, no mesmo dia ou poucos dias depois, adiciono espaço no topo da colmeia, com uma alça ou meia-alça. Este espaço adicional será usado para armazenar o néctar quando necessário, evitando o bloqueio dos preciosos alvéolos nos quadros do ninho.

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Fig. 2 — Quadro vazio puxado com excelente área de postura

manipular a distribuição etária das abelhas para controlar a enxameação e preparar uma colónia produtiva

Neste post referimos que a distribuição desequilibrada da idade das obreiras é um dos factores despoletadores da enxameação. Julga-se que o número excessivo de abelhas nutrizes e abelhas cerieiras quando comparado com o número de forrageiras disponíveis pode ser o gatilho para o fenómeno da enxameação. Num outro post descrevemos um tabuleiro/prancheta especial que se pode utilizar para fazer o desdobramento vertical de uma colónia de abelhas (ver aqui) assim como os procedimentos para a sua utilização.

Neste post vamos analisar como a utilização deste tipo de tabuleiro (ou o seu sucedâneo mais sofisticado conhecido como tabuleiro de Snelgrove) permitem ao apicultor manipular a distribuição etária das abelhas de uma dada colónia, prevenindo a enxameação e, ao mesmo tempo, manter uma colónia produtiva.

A utilização deste tabuleiro simples tem assumido várias formas e objectivos, praticamente desde o surgimento da colmeia móvel, apresentada como nos diz a história da apicultura em meados da década 50 do século 19 (Langstroth patenteou a sua colmeia em 1852).

Com a utilização deste tabuleiro é possível desdobrar um enxame e simultaneamente prevenir a enxameação como já vimos. Para tal o timing desta operação deve ser escolhido com a maior atenção para que seja utilizado quando a colónia está muito desenvolvida, prestes a atingir o ponto do surgimento do impulso de enxameação, contudo antes de ter iniciado a construção de realeiras. Este procedimento serve perfeitamente a todo o apicultor que deseja aumentar o número de colmeias.

Para aquele apicultor que não deseja aumentar o número de colónias e procura primeiramente uma boa colheita de mel este tabuleiro também lhe pode ser muito útil. Este equipamento ajuda a manter uma colónia populosa estabilizada e preparada para um determinado fluxo importante de néctar. Tal é conseguido através de um conjunto de etapas que permitem num primeiro momento a separação parcial dos indivíduos de uma colónia e, mais tarde quando a febre da enxameação tiver abrandado, a sua posterior recombinação de modo a conseguir uma colónia poderosa, equilibrada e com um grande número de obreiras, garantia necessária para uma boa produção.

A teoria que nos permite compreender as razões deste tabuleiro funcionar defende que a enxameação resulta do excesso de abelhas nutrizes numa colónia em relação ao número de larvas que precisam de ser alimentados e favos a construir. Sabemos que este tabuleiro permite isolar parcialmente um número apreciável de abelhas nutrizes na zona superior da colmeia juntamente com a rainha. No andar debaixo do tabuleiro ficará um outro grupo de abelhas nutrizes juntamente com a maior parte das abelhas forrageiras. Como as abelhas da caixa inferior estão orfãs não enxamearão. Na caixa superior, todos os inputs que as abelhas recebem lhes indicam que enxamearam. Senão vejamos com mais detalhe: a sua população é largamente constituída por abelhas nutrizes com poucas forrageiras; o seu número é menor; estão numa casa com cheiro a novo, e têm a sua rainha. Com esta manipulação o apicultor simulou com grande aproximação os inputs que as abelhas recebem quando enxameiam. Se lhes parece que enxamearam vão acreditar que de facto enxamearam e, sendo assim, não enxamearão, pelo menos tão cedo.

Mais tarde, quando o apicultor entender oportuno, quando já se aproxima do fim a época da enxameação reprodutiva pode voltar a unir a colónia, bastando para isso remover o tabuleiro.

Nota: não esquecer que na zona inferior orfanizada, muito provavelmente, irão ser construídas realeiras que deverão ser aproveitadas ou destruídas de acordo com as necessidades de cada um.

desaparecimento das abelhas: uma resposta possível

Marla Spivak, no vídeo linkado em baixo, apresenta-nos a seguinte resposta para enfrentar a questão do desaparecimento das abelhas:

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“O aspecto básico presente no problemático desaparecimento das abelhas está no facto de refletir uma paisagem onde as flores estão a desaparecer, assim como um sistema alimentar disfuncional. Precisamos de uma grande diversidade de flores ao longo de todas as estações de crescimento das colónias de abelhas, da primavera ao outono. Precisamos de bermas de estradas semeadas com flores para as nossas abelhas, e também para as borboletas, pássaros e outros animais selvagens. Precisamos de pensar novamente em voltar a fazer culturas de protecção e pousio que nutram os nosso solos assim como as nossas abelhas. Precisamos de diversificar as culturas nas nossas fazendas/quintas. É preciso plantar/semear plantas nos limites destes terrenos e que interrompam o deserto verde das monoculturas, assim como corrigir o sistema alimentar disfuncional que criámos.” Marla Spivak, 2013

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Fonte: https://www.ted.com/talks/marla_spivak_why_bees_are_disappearing?language=en#t-123744