introduzir rainhas novas em colmeias estabelecidas

Como era minha intenção construí cerca de uma centena de tabuleiros divisores no início da passada primavera.

O tabuleiro divisor é neste momento para mim o mais crucial dos equipamentos apícolas que possuo: pela sua simplicidade, pela sua versatilidade, pelo seu baixo preço. Como estou muito satisfeito com este equipamento continuo a juntar as peças do puzzle para entrever de que forma poderei maximizar e diversificar o âmbito da sua aplicação no maneio que pratico. E somando e juntando as peças daqui e dali julgo que tenho um método bem desenhado e definido na minha cabeça com vista à introdução de rainhas novas, especialmente virgens, em colmeias já estabelecidas e com o auxílio do tabuleiro divisor.

Do saber que foi sendo construído pelas anteriores gerações de apicultores sabemos que em regra é mais fácil uma rainha estranha/nova ser aceite por uma colónia estabelecida durante um fluxo de néctar. Se não houver néctar a entrar na colmeia, a aceitação será facilitada com o fornecimento de xarope de açúcar.

Para aumentar a probabilidade de uma rainha nova ser aceite há ainda um conjunto de outras considerações a ter muito em conta:

  • dar às abelhas o tempo e a oportunidade de se acostumar com sua nova rainha. Durante este período de um a dois dias a rainha deve estar protegida por uma gaiola lhe permite manter contato “físico” com as obreiras (exsudando as feromonas reais no coração da colónia);
  • as abelhas mais jovens aceitam rainhas mais facilmente do que as abelhas velhas;
  • colónias menores aceitam as rainhas mais prontamente do que colónias maiores.

O método que apresentarei seguidamente apresenta estas vantagens:

  • evitará quaisquer interrupções na postura de ovos das rainhas atuais/velhas;
  • dispensará a utilização/aquisição de material dedicado, o que permite simplificar o trabalho do apicultor e torna-lo mais rentável.

(Abrindo parêntesis: Relativamente à dispensa de material dedicado a minha posição de princípio é que o apicultor moderno deve evitar sempre que possível comprar material e equipamentos que sirvam apenas para um maneio/operação específica. Deve privilegiar os métodos que lhe permitam fazer o que pretende com os materiais e equipamentos generalistas que já possui. No caso específico da criação de rainhas há muito equipamentos dedicados por onde nos podemos “despistar”e fazer derrapar orçamentos. Como consequência destas derrapagens orçamentais desejamos e necessitamos que cada colmeia produza 50 Kg de mel/ano para o apicultor, que dê ainda uns bons quilos de pólen e umas gramitas de apitoxina, tudo para que se paguem as despesas do ano. A minha opção é sempre que possível evitar o material dedicado e procurar os métodos de maneio de colónias que levem aos mesmos fins e que exijam materiais e equipamentos que já possuo do maneio habitual e normal das colmeias. Esta recomendação poderá ter interesse para os apicultores que se focam na produção de mel, como é o meu caso. Recomendo a terminar este parêntesis que tenham um quando muito dois focos se querem ter uma apicultura rentável no nosso país. Não se dispersem, nem no território nem nos produtos! Foquem-se na produção de um produto e concentrem a vossa operação num território!)

Equipamento necessário a preparar antes de ir para o apiário:

  • uma alça de dimensões iguais à do ninho da colmeia e com quadros puxados ou laminados;
  • tabuleiro divisor;
  • jaula temporária de rainhas/pinça para apanhar rainhas.

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Fig. 1: Exemplo de uma pinça para apanhar rainhas

No apiário:

  • Coloque a alça que trouxe em cima do tabuleiro divisor e ao lado da colmeia estabelecida onde pretende introduzir a nova rainha;
  • Localize a rainha “velha” e coloque-a numa jaula temporária;
  • Remova 2 – 4 quadros com criação larvar e sobretudo operculada do ninho desta colmeia estabelecida com todas as abelhas aderentes. Estes quadros deverão ser colocados na alça igual ao ninho que trouxe consigo. Os quadros vazios que são removidos são introduzidos no ninho da colmeia estabelecida. Devemos manter a integridade da zona de criação, colocando estes quadros “novos”nas zonas laterais da mesma;
  • Coloque um ou dois quadros adicionais de mel retirados da colmeia estabelecida ou de outra colmeia depois de sacudidas as abelhas aderentes;
  • Se necessário sacuda ainda mais algumas abelhas dos quadros da colmeia estabelecida para os quadros colocados na alça que se encontra em cima do tabuleiro divisor. Pode fazê-lo com toda tranquilidade porque a rainha ainda se encontra na sua jaula temporária;
  • Liberte a rainha velha em cima dos quadros com criação que ficaram no ninho da colmeia estabelecida;
  • Coloque a alça com tabuleiro divisor em cima da colmeia estabelecida. A entrada do tabuleiro divisor deverá ter a direção contrária à entrada da colmeia estabelecida. Isso permitirá que as abelhas mais velhas saiam e voltem para a colmeia estabelecida em abaixo;
  • Passadas umas horas ou até um dia introduza a nova rainha na sua jaula na alça que foi preparada para a receber;
  • Esta nova alça/novo ninho, foi perdendo as abelhas mais velhas que foram sendo drenadas para o ninho estabelecido em baixo, tem uma parcela importante de abelhas novas, e tem um número menor de abelhas. Com este método estão reunidas as condições que garantem maior sucesso na introdução de novas rainhas;
  • Passadas duas ou três semanas, confirmada a boa postura da nova rainha, elimina a velha rainha ou retira-a para um núcleo, tira o tabuleiro divisor e sem mais operações reúne a colónia, agora com nova rainha.

8 thoughts on “introduzir rainhas novas em colmeias estabelecidas”

  1. Olá Eduardo.
    Um bom método para inserir rainhas virgem, e não só.
    Também funciona muito bem, para criação de rainhas e enxames.
    Abraço.

  2. Boa noite!
    Mais uma boa postagem e boa explicação de manuseamento do tabuleiro.
    Da mesma forma que permite a substituição da rainha existente na “presença” da velha, permitindo a continuidade de crescimento do enxame, aumentando bem a população pois num determinado intervalo de tempo temos 2 rainhas em postura, potenciando boas colheitas, é também uma boa opção para efetuar desdobramentos, permitindo criar rainhas novas na presença da velha, considerando que desta forma teremos menos alveolos reais mas mais bem alimentados.

    Boa apicultura!

  3. Boas, sou um assíduo leitor do seu fantastico blog e queria desde já agradecer o contributo que dá à apicultura e, sobretudo, aos jovens apicultores (como eu). Esta técnica permite introduzir mestreiros com 7/9 dias? Estou a criar rainhas com um metodo de semiorfanização e pretendia retirar os mestreiros e introduzir em colmeias para substituir rainhas com o seu metodo. Obrigado

    1. Boa noite, Dominique.
      Agradeço as suas palavras amáveis.
      Se entendi bem pretende introduzir os mestreiros na caixa orfanizada. Não deverá ter problemas, para além dos habituais imprevistos que podem suceder durante a fecundação das rainhas.

  4. Olá Eduardo. Primeiramente obrigado por compartilhar conosco todas essas informações do seu blog ajuda muito iniciantes como eu aqui no Brasil. Gostaria de saber se é possível diminuir este tempo de três semanas já que pretendo inserir uma rainha já com boa postura confirmada? Pretendo testar este método com abelhas africanizadas.

    1. Boa tarde Anderson!
      É muito agradável dialogar com companheiros do país irmão.

      Quanto à sua questão: se ao invés de introduzir uma rainha virgem introduzir uma rainha já fecundada e correndo tudo normalmente, ela deverá iniciar a postura 2 a 5 dias após ter sido libertada da gaiola/jaula e aceite pelas abelhas.

  5. Ola, muitos parabéns, e grandiosos sucessos, pelo facto desta sua partilha ter-me sido tão útil enquanto iniciante na apicultura. Bem aja.
    Quanto tomei contacto com alguns dos seus ensinamentos, chamou-me particular atenção às mais diferentes técnicas e métodos do uso do tabuleiro divisor, tendo até agora grandes sucessos, tanto a nível de substituição de rainhas como a nível de desdobramentos.
    Um senão aconteceu-me quando no final da cresta tentava substituir algumas rainhas decadentes. Utilizei o método do sobreninho com a entrada virada para traz, e com a rainha em cima. Deparei-me no dia seguinte, com a total pilhagem por parte das abelhas do ninho, que levaram o mel de volta, e destruíram tudo na alça.
    O meu espanto, prende-se com o facto de ter tido sucessos na ordem dos 100%, tanto em desdobramentos, como em substituição de rainhas, nos meses de Março Abril e Maio, e agora deparar-me com o sucedido.
    Agradeço da sua parte uma observação a esta minha questão, e se possível algum sugestão.
    Obrigado

    1. Viva António!
      Obrigado por participar activamente neste blog e pela simpatia das suas palavras e pelo seu testemunho.

      Relativamente ao caso que nos descreve lamento o que lhe sucedeu. Contudo estes casos são ou podem ser oportunidades para aprender. Ninguém sabe tudo e são as observações e acontecimentos inesperados que nos impelem a pensar e a procurar respostas mais abrangentes e profundas.

      Do relato que nos apresenta parece-me que uma variável mudou tendo-se mantido todas as outras semelhantes. A variável que mudou parece-me ser a qualidade do pasto para as abelhas. Em março, abril e maio, ou muito me engano, ou havia bom pasto para as abelhas. Néctar e pólen com uma certa abundância no campo reduz quase a zero os fenómenos de pilhagem, com a nossa abelha ibérica, e de acordo com o que vou observando. Em consequência desta abundância neste período de 3 meses, estamos no coração do período de enxameação, as colónias aceitam e até desejam ser divididas.

      É neste período que faço 90% a 95% dos meus desdobramentos. É neste período que substituo algumas rainhas com um padrão de postura duvidoso ou com sinais de ascosferiose. Neste período a natureza, o contexto, parecem-me serem favoráveis a estas operações.

      Mais adiante, julho, agosto, setembro, o pasto é escasso ou até inexistente; as abelhas passaram do modo de enxameação para o modo preparação para a invernagem; todo o néctar/mel deve parecer pouco às abelhas. A tendência para a pilhagem aumenta. O desejo de se dividirem/enxamearem é baixo ou nulo. Neste período a natureza, o contexto, parece-me serem desfavoráveis a estas operações.

      Como em muitas operações apícolas o timing das mesmas pode determinar o seu sucesso. Nunca me aconteceu o que o António relata, portanto poderei estar redondamente enganado.
      Mais os períodos/timings mencionados em cima reflectem com rigor a minha realidade e no meu contexto na Beira Alta. A apicultura é local, não é verdade?

      António dê-nos algum feedback acerca da proposta de explicação que lhe apresento.

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