eliminação de rainhas/linhagens que enxamearam: uma boa prática?

Achei que estas linhas de pensamento do apicultor norte-americano Mike da empresa apícola Bjornapiaries merecem uma tradução e publicação no meu blogue.

Ao longo dos anos, ouvi comentários de que um apicultor deve matar e substituir rapidamente uma rainha que tenha saído com um enxame. O raciocínio sempre foi que, ao manter tal rainha, estamos a criar e perpetuar um “traço de enxameação”. Esta avaliação é equivocada e errada acerca do que realmente acontece dentro da colmeia.

A enxameção é a substituição da rainha enquanto se perpetua a espécie através da sua propagação. Embora a substituição da rainha nem sempre envolva a enxameação, a enxameação envolve sempre a substituição. A rainha é substituída por uma rainha mais jovem.

Ouviremos os apicultores comentando que a enxameação é uma característica que pode ser eliminada nas abelhas, ou pelo menos diminuída, e ao mesmo tempo sugere-se que devemos comprar rainhas que foram seleccionadas para apresentarem enxameação baixa. E, no entanto, não é possível encontrar um criador que comercialize, promova ou anuncie suas rainhas que dê garantias reais na redução das taxas de enxameação. O fato é que quase todos os insetos estão programados ao longo das eras para reproduzir, multiplicar e propagar as suas espécies quase todos os anos. As abelhas não são exceção.

Mesmo tentar criar essa característica nas abelhas poderia ter impactos negativos. Estudos mostraram que as rainhas do primeiro ano produzem mais que rainhas mais velhas. Eles produzem mais cria, mais mel e falham numa taxa mais baixa. Na natureza, as colónias de abelhas selvagens enxameiam quase todos os anos. A natureza coloca suas melhores chances de sobrevivência nas mãos de uma jovem rainha virgem, enquanto expulsa a bem-sucedida rainha mais velha via enxameação, onde, se tal não acontecesse, elas morreriam a um ritmo extremamente alto. Muito poucas enxames que saem para as árvores acumulam o suficiente para sobreviver no primeiro inverno. Se não fossem os apicultores que os apanham e cuidam, os alimentam e os ajudam, estes novos enxames morreriam a uma taxa de cerca de 90%.

Quando um enxame primário é apanhado, sim, recebemos uma rainha mais velha. No entanto, devemos lembrar-nos de algumas coisas. Ela veio de uma colónia que passou com sucesso o inverno. Esta colónia também foi saudável o suficiente para se fortalecer ao ponto de enxamear. Ela não foi substituída devido à saúde ou condição de fraqueza. Ela foi substituída pela enxameação, que permite que a espécie se perpetue, continue por mais um ano e passe adiante sua melhor genética. Pensar que alguns gostariam de sair rapidamente e comprar uma rainha comercial produzida em massa e matar essa rainha do enxame, é apenas louco!

Agora você realmente sabe o que você ganha quando apanha um enxame? Na verdade não. É por isso que você, como apicultor, deve monitorar a nova colónia, certificar-se de que a rainha é o que você quer e substituí-la se se justificar. Mas não a substitua devido a um equívoco e ideia errada que ela vai transmitir algum “traço de enxameação”. A enxameação (e qualquer referência a traços de enxameação) deve ser visto como uma colónia com boa saúde e invernagem bem sucedida.

Pensar que nós, como apicultores, deveríamos estar concentrando os nossos esforços na criação de abelhas que não enxameiam é uma ideia equivocada. È não ter uma compreensão completa dos benefícios do que a enxameação oferece. Pensar que podemos nos intrometer nas forças naturais de propagação e perpetuação das abelhas é apenas outro exemplo de ignorância e arrogância.

Anos atrás, antes dos ácaros varroa, a natureza nos dava um produto maravilhoso (rainhas) que nos permitia manter uma rainha por vários anos sem problemas graves. Com as bactérias, vírus e ácaros de hoje, e outros problemas que estão causando enormes perdas, esses dias de ter rainhas de três ou quatro anos de idade já passaram. É benéfico ter rainhas jovens dentro de cada colmeia. Mas isso não significa matar, possivelmente, a sua melhor genética que vem à sua maneira no último enxame que se apanhou. Eu coloco rainha vindas nos enxames contra as rainhas de produção de criadores no mercado. E não se deixe enganar pelo marketing do criador, sugerindo que eles seleccionam para impulsos de enxameação mais baixos. Eu duvido que seja validado, e eu questionaria qualquer criador disposto a seguir esse caminho.

O enxame controlado através de divisões/desdobramentos oportunos, utilizando realeiras de enxameação, perpetuando sua própria genética e compreendendo os benefícios da enxameação, é benéfico. Não estou sugerindo deixar suas colmeias enxamearem. Eu estou sugerindo que vantagens podem ser obtidas, ao invés de matar rainhas de enxameação e de destruir realeiras de enxameação,  e pensar que você está perpetuando traços negativos. Mantenha a rainha de enxameação, use as realeiras de enxameação e saiba que você está se beneficiando de uma colmeia e genética que foram dignas de enxamear em primeiro lugar.

fonte: http://www.bjornapiaries.com/badbeekeeping.html

5 breves notas acerca deste post:

  • interpretar o que o autor escreve como a apologia de “laissez-faire”/deixa andar acerca da prevenção e controlo da enxameação é, na minha opinião, ter passado ao lado das mensagens centrais do texto;
  • não costumo apanhar enxames nas árvores, contudo na minha experiência de quase 10 anos tenho aproveitado diversas vezes mestreiros de enxameação para dar início a novas famílias. Em geral o resultado da produção de mel nesse ano ou ano seguinte agradam-me o suficiente para continuar a utilizar este procedimento, mas sobretudo agrada-me a vitalidade com que estas colmeias passam o inverno e arrancam no final do mesmo;
  • com base nos registos que vou fazendo verifico frequentemente que existe uma propensão maior para enxamear nas colónias com rainhas no segundo ano de postura, em colónias que se desenvolvem prematuramente no final do inverno, em apiários mais abafados, em colmeias com o chamado ninho infinito, em colmeias congestionadas por abelhas, e por fim e sobretudo pelas condições climatéricas nos momentos pré-fluxo de néctar. Parece-me que a enxameação é despoletado mais do que se refere por aspectos de contexto ou situacionais e não tanto como se julga por factores de natureza hereditária;
  • em 2017 tive uma taxa de tentativa de enxameação/enxameação a rondar os 5% e em 2018 esta mesma taxa esteve entre os 20-25%. Com as mesmas abelhas e com um maneio melhorado. As condicionantes climatéricas explicam em grande medida as diferenças;
  • este ano um conceituado e experimentado apicultor, que me comprou vários enxames, e que tem colónias buckfast junto a casa confessou-me que até essas tinham enxameado.

4 thoughts on “eliminação de rainhas/linhagens que enxamearam: uma boa prática?”

    1. Bom dia, Carlos!
      O termo “ninho infinito” resulta de uma tradução literal de uma expressão que os apicultores norte-americanos utilizam frequentemente: “infinit nest”. Nos EUA o modelo de colmeia mais utilizado é o Langstroth. Quando os apicultores utilizam uma configuração de colmeia com ninho e sobreninho igual ao ninho (algumas vezes utilizam inclusivamente 3 alças langstroth como ninho) e permitem que a rainha faça postura nas duas (ou 3) alças, referem que estão a trabalhar com um ninho infinito. A expressão é forte, mas pretende sublinhar que do ponto de vista da rainha o número de alvéolos disponíveis para a sua postura, e com quadros desbloqueados, nunca será curto por muito prolífica que ela seja. Do ponto de vista da rainha este será um ninho infinito, onde haverá sempre espaço para mais um ovo. Se não fui claro diga pf.
      Cumprimentos.

  1. Eu sinceramente acho que isto de haver os ditos criadores de rainhas em portugal é tudo um negocio! Fazem publicidade que são selecionadas…etc…etc é tudo cantiga! Eu este ano criei as minhas rainhas e ñ são inferiores as k comprei pelo contrario…
    Se repararem os grandes criadores de rainhas pões 40 cupulas numa criadeira acho k é d mais eu so ponho 20, acho k quantas mais forem menor sera a qualidade…

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