efeitos colaterais adversos de alguns acaricidas

Para dar substância a uma afirmação em que escrevi “os tratamentos orgânicos não serão os bons assim como os tratamentos sintéticos não serão os maus. Todos os tratamentos, sintéticos ou orgânicos, são bons desde que cumpram o objectivo da sua utilização…” importa conhecer os vários ângulos desta problemática em torno dos acaricidas utilizados na apicultura.

O apicultor deve ser capaz de fazer informada e conscientemente as suas opções, deve evitar opções maniqueístas, e maximizar a oportunidade de utilizar um leque alargado de possibilidades para tratar as suas colmeias. Neste momento o que sabemos seguramente é que todas as opções têm efeitos colaterais, uns são dum tipo, outros são de outro. Não há opções ideais, quando muito apenas há boas opções.

“Os tratamentos contra a varroa utilizam-se generalizadamente em toda a UE e nos EUA para controlar esta praga nas abelhas. Como parte da avaliação de tais tratamentos são determinados os seus efeitos em colónias de abelhas. O timol é o óleo essencial mais tóxico usado no controle varroa, com uma DL50 do óleo aplicado diretamente sobre larvas de 150 μg/abelha e em adultos 210 μg/ abelha, ao passo que a toxicidade de mentol para larvas foi 383 μg/abelha e em adultos 524 μg/abelha (Gashout et al. 2009). Relativamente ao apiguard (acaricida com uma base de timol) foram observados efeitos como uma elevada mortalidade em larvas jovens (0-3 dias de idade) em colónias tratadas, com sobrevivência de 74-87%, comparada com 90- 95% verificada nos controles (Mattila et al. 2000). No entanto, estes níveis de mortalidade da criação não resultaram em relatos generalizados de menor sobrevivência das colónias após o uso o que sugere que existem capacidade nas colónias para compensar essas perdas na criação. Duff e Frugala (1992) avaliaram os efeitos do mentol e fluvalinato em colónias sem de ácaros para determinar impactos sobre a criação, aceitação rainha, sobrevivência da rainha e produtividade da colónia. A toxicidade da tau-fluvalinato em larvas é de 192 μg/ abelha e toxicidade para as abelhas obreiras adultas é 194 μg/ abelha (Gashout et al 2009). A área ocupada pela criação nas colónias tratadas com mentol era significativamente mais baixa, e foi observada um efeito de repelência na zona de tratamento. Embora a aceitação e sobrevivência de rainhas não tenham sido significativamente diferentes a perda de rainhas só ocorreu nas colónias tratadas (22% em colónias tratadas com o fluvalinato e 33% em colónias tratadas com mentol). A perda de rainhas tinha sido documentada pelos autores num estudo anterior com mentol. Westcott e Winston (1999) investigaram os efeitos dos acaricidas fluvalinato e ácido fórmico no crescimento da população, a longevidade das obreiras e a atividade de forrageamento. Acerca do ácido fórmico, amplamente usado no controlo da varroa,  é bem conhecido os seus efeitos associados a elevados níveis de mortalidade da criação. Eles demonstraram que o ácido fórmico diminuiu a área da criação operculada em 25%, comparado com o controle, e causou alguma perda da criação, enquanto esses efeitos não foram observado com o fluvalinato.”

Fonte: http://fera.co.uk/news/resources/documents/chem-reportPS2367.pdf

Notas:

  1. o fluvalinato ou o tau-fluvalinato é o princípio activo presente no Apistan.
  2. DL50 é a dose necessária de uma dada substância ou tipo de radiação para matar 50% de uma população em teste.
  3. μg (micro-grama) é um milhão de vezes menor que 1 grama.

 

9 thoughts on “efeitos colaterais adversos de alguns acaricidas”

  1. Bom dia senhor Eduardo
    Gostava de saber se me pode esclarecer umas dúvidas em relação à renovação que faz dos quadros de ninho.
    Quando começa a fazer essa renovação logo em Fevereiro e prolonga-se por quanto tempo? Ou a renovação é feita o mais rápido possível? Tira 3Q por ninho, que serão aqueles mais antigos com ceras mais escuras certo? E que ainda não tenham criação da rainha, logo terão que estar mais nas laterais da colmeia certo? Nos quadros que pretende renovar mas que ainda tenham mel e pólen também os tira? E que faz com eles?
    Desculpe a quantidade de questões…
    Cumprimentos
    João Oliveira.

    1. Bom dia João
      Levantas uma série de questões muito pertinentes. Vou aproveitá-las para fazer alguns posts e dar-lhes seguimento. Pretendo com esta opção dar uma resposta mais contextualizada e num espaço mais “nobre”. Procurarei responder concretamente a cada uma delas, de uma forma que tu e outros possam compreender os seus fundamentos. Alguns desses fundamentos já os abordei no blog.
      Um abraço!

      1. Obrigado por já ter respondido a algumas questões.
        Realmente cada região terá a sua altura ideal para começar e acabar a troca de ceras. Sendo que aqui em Trás-os-montes será um pouco mais tarde que na região centro por exemplo.
        Em relação ás outras questões fico a aguardar.
        Obrigado mais uma vez.
        Cumprimentos,
        João Oliveira.

  2. Boa tarde Eduardo.
    Tem utilizado nos ultimos anos o Apivar nas suas colmeias.
    Qual o efeito do principio ativo amitraz na dinâmica da raínha? Cessa o postura por algum tempo? Tem algum condicionalismo na produção de realeiras?
    Cumprimentos.

    1. Boa tarde Martinho
      O Apivar é o acaricida que uso mais regularmente.
      Não tenho verificado efeitos assinaláveis na postura das rainhas. O que observo é que nas primeiras semanas elas deixam de fazer postura por debaixo das tiras e somente nessa área. Nos alvéolos imediatamente contíguos à área ocupada pelas tiras de Apivar, as rainhas continuam a fazer normalmente a postura. Passadas as primeiras 3 a 4 semanas sobre o início da aplicação algumas rainhas voltam a utilizar os alvéolos por debaixo das tiras. Não tenho ideia que as rainhas parem a postura. A paragem nestas pequenas áreas suspeito que não é pela acção do amitraz das tiras, mas sim pelo seu efeito mecânico, isto é, o espaço entre as tiras e os alvéolos não permite à rainha fazer lá postura e/ou às abelhas fazerem adequadamente o seu trabalho de higiene, nutrição e aquecimento das larvas. Com o passar das semanas as tiras vão adquirindo uma certa curvatura e nessa altura começo novamente a ver postura na área do favo que elas ocupam.

      Acerca da produção de realeiras parece-me que também não tem qualquer efeito negativo visível. Tenho visto mestreiros de substituição ou de enxameação a serem construídos com as tiras presentes. Contudo, na produção de novos núcleos que tenham de produzir rainha nova, tenho o cuidado de não colocar as tiras, pelo menos até a nova rainha iniciar a postura.
      Um abraço!

  3. I do trust all of the ideas you’ve introduced to your post.
    They are very convincing and will certainly work.
    Nonetheless, the posts are too quick for newbies.
    Could you please extend them a bit from next time?

    Thanks for the post.

    1. Thanks for your comment and kind words dfasg.

      As English is not my mother language can you clarify the meaning of your statements that I quote below:
      “Nonetheless, the posts are too quick for newbies.
      Could you please extend them a bit from next time?”
      All the best!

  4. Ala adimin. Seu usar o fluvalinato nas comeias no tempo em que elas nao estão colocando mel nas caixas quero dizer colocar o fluvalinato entre safra tem algum problema ?
    O fluvalinato contamina o mel?
    Se usar este acaricida no invinver b0no ninho e retiralo na época de florada posso verder o mel como orgânico?

  5. Olá Jarbas!
    Por uma questão de clareza vou distinguir o fluvalinato do Apistan (esta é uma marca comercial de um acaricida homologado em Portugal e que tem como ingrediente activo o fluvalinato). O Apistan tem um intervalo de segurança de zero dias para o mel e o seu LMR (limite máximo de resíduos) não está determinado pelo Comité Europeu dos Medicamentos para uso Veterinário. Em conclusão e com rigor pode aplicar o Apistan sempre que entender, ainda que se recomende a sua aplicação entre safras como refere.

    Pergunta se o fluvalinato contamina o mel? O que os especialistas do Comité Europeu dos Medicamentos para uso Veterinário nos dizem, assim como estudos independentes, é que o fluvalinato presente no Apistan não contamina o mel a um nível preocupante para a saúde humana, daí não definirem sequer o seu LMR. Sublinho que estou a referir o fluvalinato presente no Apistan, porque todos conhecemos outras formas de fazer chegar o fluvalinato às colmeias, por ex. com formulações caseiras em tiras de chopo. Sobre estas soluções caseiras desconheço se contaminam o mel.

    Em Portugal só pode vender o mel como orgânico ou biológico se cumprir com um conjunto de requisitos, entre outros não utilizar acaricidas de natureza sintética no tratamento da varroose, logo utilizando o Apistan ou outro acaricida sintético, mesmo que sendo no inverno, inviabiliza a sua certificação como mel biológico ou orgânico.

    Se não fui claro volte por favor a colocar as suas dúvidas.

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