vespa velutina: a escolha do habitat

“Segundo Kemper (1960), a temperatura, a humidade, a intensidade luminosa, o abrigo da chuva e a proteção do vento são importantes para a seleção dos locais de nidificação, pois esses fatores determinam a preservação do ninho, essencial para a sobrevivência da colónia. Muitas vezes, os ninhos estão localizados em árvores próximas a rios, porque a água é um elemento fundamental para a construção do ninho.

Além da temperatura e do binómio humidade-água, outro elemento muito importante para a Vespa velutina se instalar tão facilmente e  rapidamente se expandir é a presença de colmeias (Bessa et al., 2015). Na prática, a maioria dos ninhos foi encontrada perto de um ou mais apiários. Depois de analisar mais de 6.000 localizações de ninhos na França, os seguintes dados foram obtidos:

LOCALIZAÇÃO % ALTURA % NIDIFICAÇÃO %
Área urbana 48,5 + de 10 m 70 Vegetação 87
Área agrícola 42,25 2-10 m 26,3 Construções 12,8
Área natural 8,1 0-2 m 3,7 Solo 0,2
Pantanal 1,1  –  –  –  –

Tabela: Frequência de nidificação da vespa asiática de acordo com o tipo de localização, altura e localização (Rome et al., 2015).

No País Basco, muitos dos ninhos estão localizados em áreas agrícolas e rurais, mas também em áreas urbanas e peri-urbanas. A presença destes insetos em áreas habitadas é muito importante, podendo ser encontrada em locais como telhados, beirais, armazéns, colmeias vazias, buracos no solo, esgotos, etc. De qualquer forma, parece que estão ocorrendo mudanças na localização habitual dos ninhos de Vespa Velutina. No início da invasão, em França, todos os ninhos estavam nas copas das árvores, a  grande altura. No entanto, nos últimos anos, mais e mais ninhos estão aparecendo ao nível do solo.”

REFERÊNCIAS

  • Kemper H (1960) U¨ ber die nistplatz auswahl bei den sozialen faltenwespen Deutschlands. Z Angew Zool 47:457–483
  • Bessa, A. S., Carvalho, J., Gomes, A., Santarém, F. (2015), Climate and land-use drivers of invasion: predicting the expansion of Vespa velutina nigrithorax into the Iberian Peninsula. Insect Conservation and Diversity, 9: 27–37. doi: 10.1111/icad.12140
  • Rome, Q., Muller, F. J., Touret-Alby, A., Darrouzet, E., Perrard, A. and Villemant, C. (2015), Caste differentiation and seasonal changes in Vespa velutina (Hym.: Vespidae) colonies in its introduced range. Journal of Applied Entomology, 139: 771–782. doi: 10.1111/jen.12210
  • http://www.neiker.eus/vespa-velutina/ES/habitat/

recomendações e apoios para a captura de rainhas de vespa velutina na Galiza

Neste link podemos ler um conjunto de recomendações para a captura de fundadoras/rainhas de vespa velutina:

Estas recomendações acompanharam a distribuição pelas autoridades locais da Galiza de 5 659 armadilhas e respectivas doses de atraentes no ano de 2017. Pergunto se os apicultores com colmeias nos distritos de Portugal já colonizados por esta besta de patas amarelas tiveram este tipo apoio no combate que travam?

Os apicultores mais experientes no combate à velutina podem e devem utilizar o espaço dos comentários para partilharem as boas-práticas com aqueles que, como eu, procuram avidamente por esta informação. A velutina gera de ano para ano novas zonas de fronteira e os apicultores nestas zonas muito ganharão com os conhecimentos e práticas dos mais veteranos.

Fig.1: As vespas velutinas também são uma espécie prejudicial para os produtores de fruta.

vespa velutina: sintetizada a feromona sexual para utilizar em armadilhas selectivas

Pode ter sido dado um passo importante para o controlo biológico da Vespa Velutina por via da síntese de um composto semelhante à feromona sexual libertada nos vôos de acasalamento pelos indivíduos desta espécie.

Hoje (8 de Dezembro de 2017), um biólogo da Universidade da Califórnia (UC) em San Diego e seus colegas na Ásia apresentaram uma solução para lutar contra a vespa asiática baseada no instinto do inseto se orientar através de um químico natural (feromona*) libertado durante os vôos de acasalamento. James Nieh da UC San Diego e investigadores da Academia Chinesa de Ciências e da Universidade Agrícola de Yunnan decifraram a feromona sexual da Vespa velutina. Além disso, eles desenvolveram um método de controle dos machos da vespa asiática atraindo-os para armadilhas iscadas com versões sintetizadas dessa feromona (vídeo em baixo).

Eles testaram com sucesso os principais compostos da feromona sexual da espécie e os resultados mostram que os machos são muito atraídos por eles: “as armadilhas são incrivelmente eficazes, para além das nossas expectativas“, disse Nieh, professor na Divisão das Ciências Biológicas da UC San Diego.

As feromonas são sinais químicos que transmitem informações entre membros da mesma espécie. As feromonas sexuais desempenham um papel fundamental no acasalamento, sobrevivência e manutenção das espécies. No caso dos machos da vespa asiática, que têm visão limitada, as feromonas sexuais são susceptíveis de desempenhar um papel fundamental na atração de longo alcance.  A nova pesquisa do Dr. Nieh demonstra uma maneira simples e confiável de monitorar e potencialmente reduzir as populações destes insetos invasores.

Vídeo: Armadilha com cola anti-vespa velutina com uma banda de papel branco ao centro impregnada com a feromona sexual sintetizada.  

fonte: http://mielleriedesgraves.over-blog.com/2017/12/piege-anti-frelon-a-colle-avec-de-la-pheromone-sexuelle-synthetique.html

*feromona: substância segregada por um animal e reconhecida por animais da mesma  espécie na comunicação e no reconhecimento. = FEROMÓNIOFERORMONA (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [consultado em 19-12-2017]).

luta contra a vespa asiática: o que é um larvicida?

Nos posts anteriores fiz menção a um conceito que importa decompor e explicar dado a sua elevada importância no contexto da escolha do biocida para construir cavalos de tróia na luta contra a vespa asiática/velutina. O conceito em questão é o de larvicida.

O que é um larvicida?

Entre os diversos insecticidas/biocidas que podemos utilizar na preparação dos cavalos de tróia alguns têm um efeito larvicida outros um efeito adulticida. Um insecticida-larvicida é aquele que apresenta uma actividade sobre as larvas dos insectos evitando que estas se desenvolvam e cheguem à fase de pupa. Desta forma o larvicida interrompe o ciclo de vida do insecto uma vez que as larvas não chegam a transformar-se em insectos.

Fig. 1: Ciclo de vida de uma mosca: ovo, larva, pupa, insecto adulto.

Todos os insectos com metamorfose completa (moscas, abelhas, vespas e outros) seguem este mesmo esquema desenvolvimental. Todos passam por uma fase larvar antes de atingirem a fase pupal. Assim um larvicida interrompe a passagem de larva a pupa. Como?

Os insectos desde a sua fase de ovo até à fase adulta realizam uma série de modificações. No final de cada modificação revestem-se de uma capa protectora, o exoesqueleto. Na passagem da fase larvar à fase pupal a quitina é um elemento fundamental à formação do exoesqueleto. Os larvicidas impedem a síntese desta quitina. Sem a deposição da quitina o exoesqueleto não se forma, a larva não termina o seu desenvolvimento, rompe-se assim o ciclo de vida do insecto.

De um ponto de vista teórico (e a teoria deve iluminar a prática) a utilização de cavalos de tróia com larvicidas para diminuir a predação das velutinas parece-me que tem pés para andar, em especial pelo efeito perdurável que tudo indica possa ter. Ao contrário, os biocidas adulticidas, aqueles que matam os insectos adultos, mas com pouco ou nenhum efeito nas larvas, têm um efeito mais rápido mas menos perdurável.  Com a utilização exclusiva de adulticidas passadas uma a duas semanas desconfio que iremos ter novas velutinas a massacrarem as nossas abelhas. Como aconteceu no estudo realizado no País Basco.

Entre muitos outros larvicidas destaco o s-methoprene e o pyriproxyfen, uma vez que estão numa marca comercial bem conhecida, o Frontline Plus e o Frontline Gold, conjugados com fipronil, um adulticida.

vespa asiática: cavalos de tróia validados por estudo realizado no país basco

Este é até agora o único estudo controlado que conheço publicado e que confirma o que vários apicultores portuguese, franceses e espanhóis têm dito acerca dos resultados positivos alcançados com a estratégia de utilização de cavalos de tróia no controlo da predação de apiários pela vespa velutina.

En agosto y septiembre de 2015, en los colmenares de varias zonas de Gipuzkoa [País Basco], se ha realizado un ensayo piloto controlado empleando cebos cárnicos mezclados con biocida para el control de V. velutina. Los resultados de la prueba piloto han sido muy positivos: los días previos a la prueba, el nivel de infestación de los colmenares por avispas era alto, tanto que las abejas no salían de las colmenas. Después de realizar el primer ensayo, el número de avispas disminuyó hasta niveles bajos o muy bajos y las abejas volvieron al  trabajo. Esta situación duró un par de semanas, volviendo después de pasado este tiempo al estado inicial. En la prueba que se hizo en septiembre, la situación de partida era muy parecida y los resultados fueron satisfactorios. Como conclusión parece que un uso controlado y periódico de cebos proteicos mezclados con biocidas autorizados podría servir como medida para disminuir los daños producidos por V. velutina en los colmenares. Asimismo, podría disminuir el número de nidos totales de la temporada siguiente, si este tipo de tratamientos se aplicara de forma estratégica para evitar el desarrollo de las generaciones de machos y de las nuevas reinas fundadoras.” (pgs. 61-62).

fonte: http://www.euskadi.eus/contenidos/documentacion/vespa_velutina/es_def/adjuntos/vespa_velutina.pdf

Três notas acerca do excerto:

  • os “cebos carnicos” são iscos proteicos (carne neste caso, mas também podem ser utilizados peixes).
  • o impacto positivo do primeiro ensaio foi de um par de semanas. Possivelmente este impacto não foi mais duradouro porque o biocida utilizado teve um efeito letal sobre as velutinas campeiras que transportaram o biocida e não tanto sobre a criação. Uma nova geração de velutinas entretanto nascida reiniciou a predação quando atingiram a maturidade e se tornaram campeiras (especulo eu e mais alguns outros mais conhecedores).
  • a escolha do biocida será tanto mais adequada quanto maior for o seu efeito larvicida, isto é, provoque elevada mortalidade nas larvas.

vespa asiática: alguns biocidas para os cavalos de troia

Neste post  identifiquei uma forma simples e rápida para atrair e apanhar as vespas velutinas, com o intuito de fazer delas os cavalos de troia, que deverão transportar para o seu ninho o biocida que o eliminará/enfraquecerá. Desenhados os procedimentos desta primeira etapa passemos à etapa seguinte que trata da escolha do biocida a utilizar.

2ª etapa: a escolha do biocida

Neste ponto as divergências são muitas, fruto de pontos de vista excessivamente polarizados, nomeadamente entre alguns “verdes” de secretária e alguns apicultores desesperados. Como apicultor importa-me avançar para o que me/nos interessa: como eliminar/diminuir/controlar a pressão predatória das velutinas nos apiários, com o menor impacto ambiental possível, de forma razoavelmente eficaz, rápida e perdurável? Na hora actual, a utilização dos cavalos de tróia parece a muitos de nós a resposta de última linha aos desafios que a circunstância de apiários fortemente predados por velutinas, vindas de ninhos inacessíveis ou não localizados, colocam.

Entre os vários ingredientes disponíveis como biocidas os mais utilizados julgo serem a permetrina e o fipronil, presentes por exemplo em produtos com as marcas comerciais Advantix e Frontline, e ainda insecticidas reguladores de crescimento de insetos (RCI), que apresentam um efeito larvicida ao inibir a formação de quitina (exoesqueleto).  Na minha pesquisa pela net encontrei um ingrediente mais, tido como ecológico e orgânico e que alguns apicultores já utilizam na “construção” dos cavalos de tróia: o (e)spinosad(e).

Fig. 1: Um formicida que contem spinosad na sua formulação

Ver mais informação sobre o spinosad em:

  • https://natornatex.wordpress.com/2016/09/11/test-de-la-methode-israelienne-contre-le-frelon-asiatique/
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Spinosad
  • https://stoppestinfo.com/pt/280-melhor-fogo-formigas-assassinos.html

Num próximo post terminarei este conjunto de posts onde fui deixando pistas e orientações para a reflexão e construção  dos cavalos de troia contra as vespas velutinas. Nesse post proporei procedimentos variados de preparação/construção dos cavalos de troia, alguns dos quais acredito serem capazes de minimizar significativamente alguns riscos subjacentes.

Se desejarem ir avançando trabalho proponho a leitura deste fórum francês e ainda este onde o tema foi largamente discutido.

vespa asiática: armadilhas com atraentes doces ou proteicos?

No post anterior identifiquei dois tipos de atraentes básicos utilizados na preparação das armadilhas para efectuar a captura de vespas asiáticas/velutinas. Basicamente estes iscos devem ter ou uma base açucarada ou uma base proteica. Contudo, há alturas do ano em que os açucarados funcionam melhor que os proteicos e outras alturas em que são os proteicos os mais indicados.

Vejamos o que nos diz a este respeito o especialista Ernesto Astiz:

Ernesto Astiz deixa claro nas suas conclusões o seguinte a este respeito: na altura em que os ninhos de velutinas não têm larvas ou têm poucas larvas as velutinas fundadoras ou obreiras são mais atraídas por iscos açucarados (em geral primavera e final do outono); pelo contrário se os ninhos têm muitas larvas (em geral no período do verão e início do outono) as velutinas obreiras são mais atraídas por iscos proteicos (peixe e carne, por ex.).

Cabe ao apicultor adaptar ao ciclo de vida do ninho da velutina um ou outro tipo de isco para aumentar a eficácia na captura das vespas  asiáticas.

vespa asiática: os melhores atraentes

Nestes dois vídeos colectados no youtube inicio o desenho uma sequência de etapas que operacionalizam um processo rápido e seguro para produzir “cavalos de troia” com vista à intoxicação dos ninhos das velutinas não visíveis ou inacessíveis.

1ª etapa: recrutar as vespas.

Os alimentos/líquidos açucarados são muito procurados pelas jovens rainhas/fundadoras.

O peixe fresco é um atraente muito forte, em especial na época em que as vespas operárias procuram proteínas para alimentar as suas larvas.

Estes atraentes colocados em recipientes que  não as afoguem/matem podem servir de alfobre para as nossas capturas. Com uma pinça como podemos ver aqui a sua caça é simples e rápida. Temos assim recrutados os soldados para fazermos deles cavalos de troia.

luta contra a velutina: novas armas

Na luta contra a velutina quase tudo vale e a imaginação é o limite. Em Cambre (Galiza) a protecção civil está a utilizar uma metralhadora dedicada para eliminar os ninhos da vespa asiática.

A metralhadora importada dos Estados Unidos é utilizada para disparar aos ninhos mais altos, a 30-40 m de altura. Esta arma é municiada com balas biodegradáveis que levam no seu interior insecticidas utilizados em agricultura ecológica e que não contaminam o ambiente em redor.

Lolo Andrade, membro da Protecção Civil de Cambre e especialista no combate à vespa asiática diz: “”Estamos probando una decena de productos efectivos pero más respetuosos con el entorno. Un insecticida con cipermetrina, que se usa en agricultura ecológica, es el que mejores resultados ha dado hasta ahora”

Para os ninhos mais acessíveis, os responsáveis localizam a entrada e introduzem o produto insecticida por ali. Para os que se encontram a 40 metros de altura ou mais ou em lugares inacessíveis, os membros da Protecção Civil empregam a metralhadora.

O produto insecticida é misturado com frutose de modo a que “las avispas que no mueren por contacto, mueren después al comer la fructosa con insecticida”, detalha.

Fonte: http://www.laopinioncoruna.es/gran-coruna/2017/09/12/armas-quimicas-velutina/1216437.html