relevância de reservas de mel multifloral para a saúde das colónias de abelhas

Sumário:

Colónias de abelhas oferecem um excelente ambiente para o desenvolvimento de patógenos microbianos. Os agentes bacterianos mais mortais e virulentos, que causam morte das colónias, são as bactérias que causam loque americana e a loque europeia. Além da defesa imunológica inata, as abelhas desenvolveram defesas comportamentais para combater infecções. O forrageamento de compostos de plantas antimicrobianas desempenha um papel fundamental para esse comportamento de “imunidade social”. Os metabólitos secundários das plantas no néctar floral são conhecidos pelos seus efeitos antimicrobianos. No entanto, estes compostos são altamente específicos da planta, e os efeitos na saúde das abelhas dependerão da origem floral do mel produzido. Como as abelhas obreiras alimentam também as larvas e outros membros da colónia, o mel é o principal candidato a agente de auto-medicação em colónias de abelhas para prevenir ou diminuir infecções. Aqui, nós testamos oito linhagens de bactérias de loque americana e loque europeia e a atividade inibitória no seu crescimento em três tipos de mel. Usando um ensaio de crescimento celular, verificámos que todos os méis têm alta atividade inibitória do crescimento das diversas bactérias e que dois méis monoflorais parecem ser específicos na inibição de apenas algumas estirpes de bactérias. A especificidade dos méis monoflorais e o forte potencial antimicrobiano do mel multifloral sugerem que a diversidade de méis presentes nas reservas de mel de uma colónia pode ser altamente benéfica para a sua “imunidade social” contra o conjunto altamente diversificado de patógenos encontrados na natureza. Essa diversidade ecológica pode, portanto, operar de forma semelhante aos efeitos bem conhecidos da variação genética do hospedeiro na corrida “às armas” entre hospedeiro e parasita.”

Aspectos de detalhe

“Durante a estação floral, as forrageiras colectam sequencialmente um conjunto de néctares florais, que são armazenados nos favos de mel. A seletividade da fonte de alimento da colónia em termos de néctar, como comportamento de decisão seletivo por abelhas forrageiras, é um processo de seleção natural entre fontes alternativas de néctar, incluindo eficácia e comunicação (Seeley et al., 1991). Assim, as forrageiras podem escolher entre uma mistura complexa de diferentes néctares, porque as reservas de mel se sobreporão à disponibilidade de flores que muda sazonalmente. […] Como o mel é o nutriente central para o desenvolvimento de larvas, a diversidade nas reservas de mel pode servir como uma “farmácia injetável” ricamente abastecida contra uma ampla variedade de doenças. Durante os primeiros 2 dias após a eclosão do ovo, a dieta larval consiste principalmente de componentes secretados pelas glândulas hipofaríngeas das abelhas, presumivelmente misturadas com mel. No entanto, a partir do terceiro dia, o mel e o pólen são adicionados à dieta e alimentadas diretamente às larvas das obreiras (Winston, 1987). Assim, as abelhas nutrizes estão na posição central da teia alimentar intracolonial e podem fornecer um mecanismo para promover o estado de saúde da colónia, alimentando seletivamente méis específicos em resposta a infecções específicas. Na verdade, as abelhas nutrizes têm demonstrado escolher o mel de acordo com seu próprio estado de saúde (Gherman et al. 2014). […] Além disso, as abelhas mostraram um forrageio selectivo entre resinas específicas, mesmo discriminando plantas resinosas estreitamente relacionadas (Wilson et al. 2013). Os autores concluíram que as abelhas podem fazer escolhas discretas entre as espécies de plantas de resina, confirmando ainda mais a comportamento seletivo entre os recursos específicos de promoção da saúde, independentemente da sua disponibilidade.[…]

Se as reservas de mel multifloral facilitarem a saúde das colónias, isso não seria apenas uma conquista evolutiva importante das colónias de abelhas, mas também teria profundas consequências para as práticas de apicultura. Os apicultores podem aproveitar os fluxos específicos de mel para proteger suas colónias contra doenças específicas. Além disso, os apicultores devem estar cientes de que a produção exclusiva de méis monoflorais pode ter consequências negativas para a saúde das colónias. Além disso, a alimentação de açúcar como fonte exclusiva de alimento durante o inverno pode aumentar a propensão da colónia para ser infectada por patógenos. Em conclusão, a biodiversidade floral de fontes de néctar para a colónia terá implicação direta para a saúde da colónia, com importância semelhante à diversidade genética da abelha.”

fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ece3.1252

Notas:

  • já se sabe há algum tempo que as dietas monoflorais provocam danos ao nível individual e ao nível da colónia de abelhas. Se estou certo as explicações enfatizava sobretudo a monodieta de pólen. Estes e outros estudos ajudam a identificar e compreender melhor e de forma mais abrangente os aspectos subjacentes a este fenómeno;
  • reforço que os autores mencionam que o açúcar como fonte exclusiva de alimento durante o inverno pode fragilizar as defesas da colónia.

as abelhas melíferas (Apis mellifera) nutrizes não consomem pólen com base na sua qualidade nutricional

As abelhas melíferas (Apis mellifera) consomem uma variedade de pólens para responder à maioria de suas necessidades de proteína e lipídos. Trabalhos recentes indicam que as abelhas preferem dietas que refletem a proporção adequada de nutrientes necessários para a sobrevivência e à homeostase. Esta ideia baseia-se no preceito de que as abelhas avaliam a composição nutricional dos alimentos que lhes são fornecidos . Enquanto isto foi evidenciado nos abelhões (bombus sp), os dados actualmente disponíveis para as abelhas melíferas são equívocos. Além disso, há controvérsias sobre se as forrageiras podem avaliar o valor nutricional dos pólens, especialmente porque não o consomem. Neste estudo, focamo-nos nas abelhas nutrizes, que comem a maior parte do pólen que entra na colmeia. Testámos a hipótese de que as abelhas nutrizes preferem dietas com maior valor nutricional. Determinámos primeiro o perfil nutricional dos pólens, o número de plantas disponíveis (riqueza floral) e o grau de crescimento da glândula hipofaríngea provocado por três pólens coletados pelas abelhas. Em seguida, apresentámos às abelhas nutrizes esses mesmos três pólens em testes de escolha emparelhada e medimos o consumo. Para testar se a preferência nutricional era influenciável, também apresentámos às abelhas pólens naturais suplementados com proteínas ou lipidos e dietas líquidas com percentagens proteicas e lipídicas iguais aos pólens naturais. Diferentes pólens provocaram diferentes graus de crescimento da glândula hipofaríngea, mas, apesar dessas diferenças, as abelhas nem sempre preferiram os pólens mais nutritivos. A adição de proteínas e/ou lipidos a pólens menos desejáveis ​​aumentou um pouco a atractividade do pólen, e as abelhas nutrizes não demonstraram uma preferência maior por nenhuma das três dietas líquidas. Concluímos que diferentes pólens fornecem diferentes benefícios nutricionais, mas que as abelhas nutrizes não podem ou não avaliam o valor nutricional do pólen. Isto diz-nos que as abelhas nutrizes podem não conseguir transmitir informações sobre a qualidade do pólen para as abelhas forrageadoras, que regulam os pólens que entram na colmeia.

fonte: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0191050

Em resumo, as abelhas, como nós, nem sempre fazem as escolhas mais acertadas no que respeita à sua dieta. Será de perguntar se os comedouros colectivos de proteína misturados com hidrato de carbono (açúcar) e cheios de abelhas serão o indicador suficiente e inequívoco do valor nutricional da mistura. Ou ao contrário, questionar se uma mistura menos atractiva per si quererá dizer necessariamente que tem menos valor nutricional. Lembro-me rapidamente das couves de Bruxelas e de como o seu elevado valor nutricional não tem correspondência com a pouca vontade que tenho de as consumir.

paragem de postura durante o inverno?

Durante o inverno, e na zona onde os meus apiários estão localizados, as temperaturas diurnas entre os 3ºC – 7ºC  tendem a ser um acontecimento normal e frequente. Com estas temperaturas externas alguns de nós pensarão que as rainhas páram a postura. Ainda que possam estar correctos algumas vezes, o mais provável é estarem afastados da realidade na maioria dos casos.

Tom Seeley e Kirk Visscher descobriram que a postura de ovos começa no momento em que a temperatura média máxima diária atinge cerca de 4 ºC, e se intensifica grandemente se as temperaturas médias diárias se situam entre 5° – 15°C.

Estes investigadores verificaram que este aumento de criação ocorre meses antes do pólen natural estar disponível, e provoca um aumento considerável do consumo de mel/reservas. Isto, claro, aumenta o risco de uma colónia morrer por fome durante o período invernal, mas é um risco que a colónia aceita naturalmente, porque indispensável para que atinja a população de abelhas necessárias ao bom aproveitamento dos fluxos de néctar que virão. Também para  apicultor a criação de abelhas novas nestas condições extremas é crítica para delas tirar os proveitos que o seu trabalho e investimento justificam.

A minha estratégia de suplementação alimentar nos últimos três anos tem sido muito simples e bem sucedida: mais do que estimular a postura da rainha nos meses de Janeiro a Março com suplementos líquidos, procuro dar às minhas colónias o apoio necessário nesta altura do ano, com alimento na forma de pasta de açúcar (fondant), para que elas façam o que entendem e sabem fazer tão bem sem passarem fome e cresçam de forma equilibrada e em sincronia com o seu meio envolvente.

Nota: se e fosse criador de rainhas ou se tivesse contratos de polinização para cumprir a minha estratégia de suplementação de alimentos seria diferente. Tenho que ter, no entanto, o bom senso de não seguir as estratégias de alimentação levadas a cabo por apicultores que têm objectivos tão diferentes dos meus.

Fig. 1: Um exemplo de uma mal-gerida alimentação de estimulação. Esta colónia vai morrer. Vejamos como ela teve recentemente uma grande área de criação, como evidenciado pelo anel de pólen recém-coletado. Mas a sua população de abelhas adultas diminuiu mais rápidamente do que as novas abelhas que foram sendo criadas. O cacho de abelhas foi incapaz de cobrir a criação selada e uma geada e temperaturas mínimas muito baixas, conduziram a que boa parte da criação ficasse congelada e fosse removido no dia seguinte. As elevada mortalidade abelhas adultas nesta época do ano pode ser provocada pela Nosema ceranae.

fonte: Seeley, TD and PK Visscher (1985). Survival of honeybees in cold climates: the critical timing of colony growth and reproduction. Ecological Entomologyhttp://scientificbeekeeping.com/understanding-colony-buildup-and-decline-part-3/

um outono de 2017 como o de 2015?

O outono deste ano começa a assemelhar-se muito ao outono de 2015. Aqui está descrito o que fui observando e fazendo nos meus apiários da Beira Alta e Beira Litoral nesse ano.

A necessidade de efectuar alimentação de manutenção de uma boa parte das colónias poderá surgir como surgiu nesse outono. Vou estar atento como o fiz nesse ano!

que colónias alimentar no outono/inverno

Que colónias alimentar no outono/inverno? Esta é uma questão que nos interpela todos os anos à entrada do outono/inverno.

Em princípio devemos alimentar todas as colónias que apresentem um nível de reservas de mel baixo. Como decidir se o nível de reservas é baixo. Neste post indicámos que o consumo de mel pode variar de acordo com o número de abelhas presentes na colónia. Tomemos como referência o consumo de 2,7 Kg de mel  durante um mês. Se considerarmos que nos meses de Outubro a Janeiro as abelhas pouco ou nenhum néctar fazem entrar na colmeia (esta é a realidade nos meus apiários na Beira Alta), então durante estes 4 meses consumirão 10-11 Kg de mel das sua reservas. Nos meus apiários julgo que consumirão menos porque as baixas temperaturas, mais ou menos habituais por aqueles lados, levam-nas a formar o cacho invernal e portanto a diminuir as suas necessidades energéticas. Mas vamos manter aquele valor como referência, porque neste caso mais vale pecar por excesso. Sendo assim necessito que as colmeias me apresentem pelo menos 4 quadros Langstroth ou Lusitana no ninho bem cheios de mel (que deverão somar 10 a 12 Kg de mel) para ficar tranquilo acerca do seu adequado nível de reservas para passarem estes 4 meses.

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Fig. 1: Quadro cheio de mel maduro em toda a sua superfície

Como avaliar o nível de reservas? A maior parte dos apicultores faz uma pesagem das colónias para verificar o nível de reservas. A forma mais expedita de o fazer é levantar a parte detrás da colmeia. Este tipo de avaliação permite ter uma noção grosseira do nível de reservas de uma colmeia. Há quem faça uma pesagem mais rigorosa recorrendo a uma balança ou dinamómetro (ver aqui uma forma de pesagem das colmeias).

Como calcular o peso real das reservas de mel? Sabendo o peso da colmeia vazia com quadros (há variações dependendo sobretudo do modelo em questão assim como da madeira utilizada na sua construção), sabendo que o peso aproximado das abelhas, numa colónia a invernar, não deverá passar muito os 1,5 kg (7 000 abelhas pesam cerca de 1 Kg e ocupam 3 a 4 quadros do modelo Langstroth) e se adicionarmos mais 2 a 3 Kg para o peso da cera nos 10 quadros, e subtraindo estas parcelas ao peso total, a diferença deverá representar o mel e pólen armazenado no interior da mesma. Retirando o peso do pólen armazenado temos finalmente um valor muito aproximado do peso das reservas de mel. Se estas forem superiores a 12 Kg e nos meus apiários da Beira Alta fico bastante tranquilo.

No papel é fácil. E no campo? Contudo se no papel esta avaliação até é muito simples no campo tudo se complica. A primeira dificuldade passa por pesar com algum rigor cada colmeia. A balança tipo dinamómetro é utilizada para este fim por alguns apicultores, como já vimos. No entanto outros equipamentos são utilizados (ver aqui).  A segunda dificuldade, e na minha opinião a maior, é fazer uma estimativa aproximada do peso do pólen numa colónia estabelecida para o descontar e finalmente alcançarmos um número confiável do peso que as reservas de mel têm.

Dois caminhos, qual escolher? No ano passado para eliminar esta angústia acabei por alimentar todas as 400 colmeias que invernaram nos apiários da Beira Alta (ver aqui). Decidi pecar por excesso e pagar a factura, literalmente. Este ano estou a fazer uma abordagem um pouco diferente. No final de Outubro e nos primeiros dias de Novembro, dei uma volta às 600 colmeias que tenho a invernar, abri-as e fiz uma observação rápida dos 4 quadros laterais (2 de cada lado) para a avaliar o mel efectivamente armazenado. Para isso levantei os quadros mais laterais. Com base nestas observações classifiquei as colónias em quatro categorias: fracas, médias, médias mais, e fortes. Destas quatro categorias estou a alimentar as colónias incluídas nas 3 primeiras.

As minhas observações dizem-me para não confiar numa observação “por cima” dos travessões dos quadros, porque alguns destes tendo uma pequena abobada de mel, que nos podem induzir em erro quando observados “por cima”, apresentam efectivamente a maior parte da sua superfície vazia ou preenchida com pólen.

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Fig. 2: Visão habitual de uma colmeia vista “por cima”

Se estes quadros estiverem vazios o método que eu utilizo, levantar ligeiramente a colmeia pela parte detrás, dá-me uma ideia que esta colmeia está a necessitar de alimento suplementar. Contudo se estes quadros estiverem carregados de pólen podem iludir-me, levando-me a sobrestimar a quantidade de mel armazenado.

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Fig. 3: Quadro em que a maior área está ocupada com pólen

Com a abordagem que estou a utilizar este ano espero que o custo por colmeia com a alimentação suplementar desça cerca de 1/3, e que no final a minha despesa global com 600 colmeias a invernar não ultrapasse a despesa que o ano passado tive ao invernar um pouco mais que 450 colmeias. Mas como prognósticos só no fim vamos ver como corre este ano.

o impacto de diferentes fontes de alimento na saúde das abelhas

Apresento em baixo as conclusões de um estudo muito interessante, realizado para avaliar os efeitos sub-letais e invisíveis aos olhos dos apicultores de algumas fontes de alimentos artificiais/suplementares na saúde e longevidade das nossas abelhas de inverno. Este estudo revela que, apesar das nossas melhores intenções em manter as nossas abelhas saudáveis com uma dieta artificial, podemos estar inadvertidamente a causar-lhes um prejuízo. Este post vem no seguimento deste.

Conclusão

Com base na nossa pesquisa, pode concluir-se que alimentar com diferentes fontes de alimentos tem efeitos diferente no tracto digestivo das abelhas, especialmente na camada epitelial do intestino médio. A fonte natural de alimento para as abelhas, o mel, não teve efeitos nocivos na camada epitelial do intestino médio, e os conteúdos intestinais estavam completamente ligada a esta camada, a qual conduz a uma boa qualidade da digestão e a uma máxima reabsorção dos nutrientes. Resultados semelhantes foram obtidos coma alimentação das abelhas com xarope de açúcar e xarope invertido enzimaticamente sem a adição de levedura e mosto de cerveja. Isto significa que a adição de levedura e mosto de cerveja  produz um dano na camada epitelial do intestino médio, e as diferenças estão dependentes da fonte de alimento. O danos mais grave na camada epitelial do intestino médio foi encontrada nas abelhas alimentados com xarope de açúcar invertido com ácido tartárico (em todas as combinações examinados).  No que diz respeito ao impacto de diferentes fontes alimentares na duração da vida das abelhas, concluímos que a alimentação com mel, xarope de açúcar invertido com enzimas teve um efeito positivo sobre o tempo de vida das abelhas, enquanto que a adição de leveduras e malte de cerveja encurta a vida das abelhas, deste modo recomendamos a utilização de alimentação suplementar sem a sua utilização destes dois aditivos, e que o uso destes suplementos deve ser mais praticado durante outras estações do ano, especialmente se não houver fontes naturais de pólen.

Fonte: http://www.resistantbees.com/fotos/estudio/feeding.pdf

Nota: a inversão do açúcar nos xaropes comerciais pode ser realizada industrialmente através da sua combinação com o ácido tartárico.

desaparecimento das abelhas: uma resposta possível

Marla Spivak, no vídeo linkado em baixo, apresenta-nos a seguinte resposta para enfrentar a questão do desaparecimento das abelhas:

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“O aspecto básico presente no problemático desaparecimento das abelhas está no facto de refletir uma paisagem onde as flores estão a desaparecer, assim como um sistema alimentar disfuncional. Precisamos de uma grande diversidade de flores ao longo de todas as estações de crescimento das colónias de abelhas, da primavera ao outono. Precisamos de bermas de estradas semeadas com flores para as nossas abelhas, e também para as borboletas, pássaros e outros animais selvagens. Precisamos de pensar novamente em voltar a fazer culturas de protecção e pousio que nutram os nosso solos assim como as nossas abelhas. Precisamos de diversificar as culturas nas nossas fazendas/quintas. É preciso plantar/semear plantas nos limites destes terrenos e que interrompam o deserto verde das monoculturas, assim como corrigir o sistema alimentar disfuncional que criámos.” Marla Spivak, 2013

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Fonte: https://www.ted.com/talks/marla_spivak_why_bees_are_disappearing?language=en#t-123744

perigos de alimentar com açúcar invertido

O especialista espanhol António Pajuelo colocou recentemente na sua página de facebook considerações acerca da utilização do açúcar invertido na alimentação das abelhas. Fica aqui a tradução.

“Ultimamente na nossa apicultura está na moda alimentar com açúcar invertido. Existem diferentes fórmulas caseiras para o fazer e os fornecedores industriais cantam seus louvores.

O açúcar invertido é um produto para uso em padaria-pastelaria, para se conseguir algumas texturas interessantes. É uma sacarose, açúcar branco, submetido a um processo de acidificação, temperatura, e, industrialmente, é submetida à ação da enzima beta-frutofuranosidase , que divide a sacarose nos seus dois componentes, glicose e frutose.

Os vendedores deste produto descobriram há algum tempo este novo segmento de mercado, e entrou com um argumento de vendas: “está desdobrado, tornando-o mais fácil de assimilar”. De fato, a abelha e nós temos que dividir a sacarose em glucose e frutose, e em seguida, a glucose em frutose, para poder fragmenta-la e usá-la em outros compostos ou queimá-la para produzir energia. Para isso temos umas enzimas na saliva, elas e nós. Mas o organismo não vai parar de fabricar estas enzimas e colocá-los na saliva consuma-se o açúcar que se consumir. E as enzimas são não se “gastam”, são uma espécie de vai e vem que transportam as moléculas ao seu local de e ficam livres para voltar a atuar; embora haja uma certa perda de moléculas ao longo do tempo. Ou seja, ao ser dada sacarose “desdobrada” é mais um argumento de vendas do que uma vantagem.

Além disso, o processo de aquecimento da sacarose para a “desdobrar” produz HMF, em quantidades variáveis, dependendo de como foi feito o açúcar invertido. E o HMF é tóxico para as abelhas, para nós não (pudins, doces, caramelo … seriam letais se assim fosse). Apesar de não haver consenso na literatura sobre o nível de toxicidade, há dados bibliográficos sobre a toxicidade para as abelhas enjaulado laboratório a partir de cerca de 50mg/kg de HMF. Para mim os valores mais realistas são de 150 mg/kg.

O açúcar de beterraba invertido também é usado para adulterar mel, por isso o mercado possui técnicas analíticas muito avançados que são usualmente utilizadas ​​para detectar a sua presença no mel. Os laboratórios de análises do mel oferecem esta detecção desde 2009, com base na presença da enzima beta-frutofuranosidase (exógena ao mel, mas usada industrialmente para “desdobrar”) e pelos níveis de ácido utilizados na acidificação.

Portanto, se há um armazenagem do açúcar invertido nos favos, pode haver níveis elevados de HMF no mel, se você o inverteu caseiramente e restos de ácidos. E, especialmente, quando se usou açúcar invertido industrialmente em quantidade, ficam presentes no mel enzimas que o mel não possui, que o inabilitam para o mercado. Esta situação já aconteceu, de hás uns anos a esta parte, mas aumentou este ano pela campanha de vendas agressiva destes açúcares invertidos. Tenho clientes que tiveram este problema e os compradores devolveram-lhe o mel. E eu sei que outros colegas passaram pelo mesmo.”

fonte: António Gomez Pajuelo, pg. do facebook

menos abelhas consomem mais…

Quanto consomem as nossas abelhas no período de escassez? Será que têm reservas em quantidade suficiente? Imagino que estas questões e outras do género passem pela cabeça de todos nós com alguma frequência nestes dias frios em que, semana após semana, não abrimos as nossas colmeias para verificar o nível de reservas disponíveis.

Um artigo de John Harbo, o pai das rainhas VSH (Varroa Sensitive Hygiene), refere o consumo de mel diário por abelha, obtido com base nos dados que recolheu numa das suas investigações (fonte: Worker-Bee Crowding Affects Brood Production, Honey Production and Longevity of Honey Bees, 1993).

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Fig. 1 — John Harbo preparando uma rainha para ser inseminada artificialmente

John Harbo verificou que o consumo diário varia um pouco, dependendo da densidade da população na colmeia. Para colmeias mais densamente povoadas, o consumo diário é aproximadamente de 7 mg por abelha. Para colmeias menos densamente povoadas, o consumo diário por abelha ultrapassa um pouco os 12 mg.

Para estarmos em condições de fazer os cálculos do consumo por colmeia, temos que estimar o número aproximado de abelhas por colmeia. Aceitando como correcta a estimativa de que um quadro bem coberto de abelhas comporta 1000 abelhas em cada uma das suas faces (ver http://www.dave-cushman.net/bee/beesest.html), obtemos os elementos necessários à nossa contabilidade.

Proponho 3 cenários diferentes para esta altura do ano (e nos meus apiários na beira interior): um para uma colmeia forte, outro para uma colmeia média e um terceiro para uma colmeia fraca.

Colmeia forte) – colmeia com 12000 abelhas que cobre 6 quadros de abelhas: 12000 x 7 mg = 84 gr/dia, isto é, uma colmeia com cerca de 12000 abelhas consome 588 gr/semana e 2520 gr/mês;

Colmeia média) colmeia com 9000 abelhas que cobre ente 4 e 5 quadros de abelhas: 9000 x 10 mg = 90 gr/dia, isto é, uma colmeia com cerca de 9000 abelhas consome 630 gr/semana e 2700 gr/mês;

Colmeia fraca) colmeia com 7000 abelhas que cobre 3 a 4 quadros de abelhas: 7000 x 13 mg = 91 gr/dia, isto é, uma colmeia com cerca de 7000 abelhas consome 637 gr/semana e 2730 gr/mês.

Espero que estes cálculos vos possam ser úteis e alertem para que, às vezes, menos é mais.

Tendo em conta que cada caso é um caso, pois que na apicultura raramente 2+2=4, e que a apicultura é sempre local, cada um de nós deve ter presente que se as abelhas perdoam muitos dos nossos erros, sem alimento é que elas não passam!

carta de informação de fevereiro icko

“Alimentar, sempre alimentar!

Fevereiro é um mês curto, o mais curto, mas o pior, o frio intenso pode ser frequente, embora estes primeiros dias tenham sido suaves. Atualmente colmeias consomem muito mel, com os raios de sol a permitirem saídas diárias às abelhas. Algumas colmeias já têm mais de 4 quadros de criação…

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Esperando que o frio não seja brutal e há que manter a vigilância!

A alimentação é o leitmotiv do inverno, se as reservas se revelaram insuficientes no outono, não há que ter receio de colocar o candi no óculo da prancheta ou diretamente sobre o travessão superior dos quadros onde as abelhas estão. Na falta, 1kg de cubos de açúcar pode ser o truque. Os cristais demasiado grandes não dissolvidos pela humidade da colmeia, cairão sobre o estrado. Nós encontramos uma certa quantidade de cristais no estrado durante a visita da primavera.

O xarope que damos a partir de fins de março, início de abril, quando o as temperaturas excedem 13°C será utilizado para acelerar a postura da rainha. Abaixo desta temperatura, o xarope por estar muito frio pode não ser consumido pelas abelhas que cairiam dormentes com o frio se o fizessem. Um indicador: horário de verão = xarope; hora de inverno = candi.

Com o calor sabemos que os pólens entram nos dias de sol, o pólen da avelaneiras, entre o primeiro são pobres em proteínas, o candi de proteínas vai ajudar colônias a expandir sua criação.

Uma referência é o florescimento dos dentes de leão, a sua chegada em massa é o sinal de um aquecimento sustentável,  e o xarope provavelmente será bem consumido.

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A minha insistência sobre o controlo dos alimentos e reservas das colónias é devida ao calor deste outono. Até o Natal, eu vi as abelhas a saírem e as colónias mantiveram-se ativas. O consumo de mel foi impressionante como eu raramente vi. A diminuição do peso das colmeias foi extraordinariamente rápido. A mortalidade das colónias pode estar esperando por você!”

Fonte: http://www.icko-apiculture.com/blog/2016/02/03/lettre-dinformation-fevrier/

Nota: esta carta icko é escrita a pensar nos apicultores em França. Contudo, neste ano, o seu conteúdo poderia ser aplicado com toda a propriedade aos meus apiários na beira interior. Suponho que possa ser também o caso de outros companheiros. Muita atenção para que elas não nos morram agora na praia!