uma forma simples de gerir um apiário para aumentar a produtividade, baixar custos e diminuir riscos

Num quadro de alça do modelo Langstroth existem alvéolos suficientes para produzir 3500 ou mais abelhas por cada lado do quadro, ou 7000 abelhas adultas por quadro. Na colmeia Lusitana os números chegam a ser um pouco superiores.

Fig 1: Quadro Langstroth bem fornecido com cria operculada

Um quadro repleto com cria, de canto a canto, fornece ao apicultor uma ferramenta de grande valor na gestão/maneio de colónias de um apiário. A transferência de quadros de cria fechada/operculada das colónias mais fortes paras as colónias menos fortes, cerca de 40 dias antes de um fluxo de néctar importante, permite-nos gerir um apiário para alcançar maior uniformidade entre as colónias. A equalização permite que as colmeias mais fracas adquiram a massa crítica de abelhas suficiente para se tornarem produtivas e, muitas vezes, reduz a pressão para a enxameação na colmeia doadora. As colónias mais fracas recebem quadros repletos com cria operculada das colónias fortes. As colónias fortes recebem quadros com cria aberta e ovos das colónias mais fracas. Desta forma, reforçamos as colónias mais fracas, adicionando cria que irá eclodir em breve e que não necessita ser alimentada. Sabemos que a nutrição de larvas é um processo duro e desgastante para as abelhas, especialmente nas colónias menos fortes com menos abelhas nutrizes. As colónias fortes não são enfraquecidas porque recebem quadros com ovos e larvas. Por outro lado, estas colónias fortes apresentam melhor condições para nutrir a cria aberta, criar abelhas melhor nutridas e mais saudáveis. Simultaneamente a cria aberta contribui para diminuir a pulsão para enxamearem, dado que a feromona libertada pela cria aberta contribui para dissuadir as abelhas de enxamearem.

Fig. 2: A cria aberta contribui para dissuadir as abelhas de enxamearem 

Com este maneio simples conseguimos atingir vários objectivos numa só visita ao apiário, representando uma grande economia na carga de trabalho e nas deslocações, a par com a maximização da produtividade e a minimização de custos e riscos pelas razões em baixo discriminadas:

  • estimulamos colónias mais fracas sem ter de recorrer ao xarope 1:1, diminuindo custos e riscos;
  • a colmeia receptora recebe cria bem alimentada e saudável, diminuindo riscos sanitários e aumentando a produtividade;
  • “arrefecemos” colónias prematuramente fortes e que poderiam enxamear à entrada do fluxo de néctar, aumentando a sua produtividade;
  • aumentamos a diversidade de sub-famílias (abelhas filhas de pais e mães diferentes) nas colónias, diversidade esta que está associada a melhores respostas contra os patogeneos, diminuindo riscos sanitários.

apis mellifera iberiensis ou a melhor abelha para a península ibérica

A Península Ibérica é povoada naturalmente por uma subespécie de abelhas designado cientificamente apis mellifera iberiensis. É um hibrido natural com linhagem M e A.  Foi este ecotipo que o grande ecossistema peninsular ibérico foi seleccionando e apurando ao longo de milhões de anos.

No entanto este longo e eficaz mecanismo de selecção natural é posto em causa sempre que um de nós decide introduzir linhas exóticas no nosso território (ver aqui). O principal argumento apresentado pelos apicultores que importam outras raças (a ligustica e a cárnica são as preferidas) é o de procuram linhas mais homogéneas e/ou produtivas e gentis. Esta quimera rapidamente se desmonta.

Qualquer apicultor minimamente informado sabe que no território nacional manter linhas exóticas homogéneas obriga a uma de duas coisas: inseminação instrumental ou compra regular de rainhas no estrangeiro. É verdade que se fala da possibilidade de desenvolver zonas de acasalamento dedicadas a estas linhas exóticas mas dada a orografia continental e a elevada densidade de colmeias por Km quadrado, no nosso país essa ideia não passará das boas intenções. Voltando à inseminação instrumental, esta é uma via que requer equipamentos caros e muito sofisticados, a juntar a um conjunto competências muito evoluídas por parte do apicultor-inseminador, só ao alcance de muito poucos. A outra via, a compra regular de rainhas exóticas no estrangeiro, é uma solução que torna o apicultor dependente do criador de rainhas, e sobretudo é uma prática com imensos riscos sanitários, aumentando enormemente a possibilidade de se  introduzirem doenças e/ou patogéneos novos, como já aconteceu no passado com o ácaro varroa e o fungo nosema ceranae, e no futuro poderá vir a acontecer com o  Aethina tumida (pequeno escaravelho da colmeia)  presente em território italiano e o ácaro Tropilaelaps, tão ou mais perigoso que o ácaro varroa. A culminar, a questão do transporte aéreo de rainhas e seu efeito negativo na viabilidade espermática das mesmas poderá dar graves amargos de boca aos inocentes compradores (tema a abordar num post futuro).

Outra das razões mais frequentemente referidas para a compra de linhas exóticas passa pela crença de que serão mais produtivas e menos enxameadoras. Crenças também facilmente desmontáveis. Estudos recentes mostram que as linhas nativas tendem a ser mais produtivas que as linhas exóticas (ver aqui). Mas mesmo que estes estudos não viessem confirmar aquilo  que muitos de nós sabem, os dados das produções espanholas e portuguesas rapidamente demonstram que a nossa abelha ibérica não só produz como produz de forma muito satisfatória. O país com a produção mais elevada de mel na UE é Espanha. Pergunto como será possível um país ser simultaneamente o maior produtor de mel da UE e um dos maiores produtores do mundo com uma abelha pouco produtiva e enxameadora?  Poderá argumentar-se que tal se deve ao maior número de colónias em Espanha. Vejamos então a produção média por colmeia e os dados são elucidativos: Portugal apresentou em 2010 um produção média de 23 Kg por colmeia; Itália com as ligusticas, por alguns intituladas fábricas de fazer mel, ficou atrás com 19 Kg por colmeia; a Áustria, terra das cárnicas e dos grandes mestres apicultores, apresenta apenas 16 Kg. Nós, com uma abelha menosprezada por alguns, estamos à frente de duas raças tão cobiçadas pelos apaixonados das linhas exóticas.

Relativamente à doçura das abelhas das linhas exóticas este é um traço com grande heritabilidade e os inevitáveis cruzamentos com a abelha nativa depressa diluirão esse traço, podendo suceder gerações com comportamentos tão ou mais defensivos que os das nossas abelhas nativas  (falo por experiência pessoal).

Só me apraz uma conclusão: se alguns de nós não conseguem que a abelha ibérica produza, antes de a por em causa faria um grande favor a si próprios se começasse por se por em causa a si e ao seu maneio incompetente.

Num próximo post abordarei outro ângulo desta problemática associado ao impacto negativo que esta prática de importar linhas exóticas tem nos apiários ao redor. Se importar linhas exóticas é um tiro no pé do próprio é também uma facada nas costas do vizinho.

A terminar uma nota de esperança nesta época festiva: estou convencido que a nossa abelha por cá continuará muito depois de termos partido, e seguramente a fazer as alegrias de muitos futuros apicultores… e sem linhas exóticas. É claro para onde as tendências estão a avançar nos meios mais esclarecidos: para a preservação dos ecotipos locais e a proibição de introdução de linhas exóticas, como já acontece na Catalunha e noutras regiões da Europa (ver aqui). As autoridades portuguesas, ou porque estão mal aconselhadas ou porque desconhecem esta problemática, mais tarde ou mais cedo proibirão a importação de linhas exóticas a bem da apicultura nacional.

fazer rainhas de qualidade utilizando o formão/raspador

Como?

Esta técnica foi cunhada com o acrónimo OTS (on the spot) e foi inicialmente divulgada por Mel Disselkoen, apicultor norte-americano.

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Fig. 1 : Mel Disselkoen

Numa colmeia previamente orfanizada, vamos procurar em dois ou três quadros larvas com menos de 36 horas de vida. O mais provável é encontrar estas larvas em zonas adjacentes às zonas com ovos.

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Fig 2: Ovos (Eggs), larvas com menos de 36 h (just right) e larvas com mais de   36 h (too old)

Nas zonas onde encontrarmos estas larvas com menos de 36 h vamos esmagar com o formão os alvéolos logo por baixo como podemos ver exemplificado neste vídeo (a partir dos 4’40”).

Este simples gesto permite que a construção de alvéolos reais se faça o mais possível na vertical, como acontece naturalmente com os alvéolos reais de enxameação ou de substituição (supersedure).

Mel Disselkoen propõe que se realize o OTS  em duas a quatro zonas por quadro e em dois ou três quadros. Tudo dependerá do que cada um de nós pretender.

Se pretender fazer alguma selecção genética recomendo que utilize um quadro com larvas de uma colmeia que aprecie.

Desde há dois anos que utilizo esta técnica e estou satisfeito com a qualidade geral das rainhas que tenho obtido.

Fica assim apresentada uma técnica que requer do apicultor apenas duas coisas: um formão/raspador e uma razoável acuidade visual.

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introduzir rainhas novas em colmeias estabelecidas

Como era minha intenção construí cerca de uma centena de tabuleiros divisores no início da passada primavera.

O tabuleiro divisor é neste momento para mim o mais crucial dos equipamentos apícolas que possuo: pela sua simplicidade, pela sua versatilidade, pelo seu baixo preço. Como estou muito satisfeito com este equipamento continuo a juntar as peças do puzzle para entrever de que forma poderei maximizar e diversificar o âmbito da sua aplicação no maneio que pratico. E somando e juntando as peças daqui e dali julgo que tenho um método bem desenhado e definido na minha cabeça com vista à introdução de rainhas novas, especialmente virgens, em colmeias já estabelecidas e com o auxílio do tabuleiro divisor.

Do saber que foi sendo construído pelas anteriores gerações de apicultores sabemos que em regra é mais fácil uma rainha estranha/nova ser aceite por uma colónia estabelecida durante um fluxo de néctar. Se não houver néctar a entrar na colmeia, a aceitação será facilitada com o fornecimento de xarope de açúcar.

Para aumentar a probabilidade de uma rainha nova ser aceite há ainda um conjunto de outras considerações a ter muito em conta:

  • dar às abelhas o tempo e a oportunidade de se acostumar com sua nova rainha. Durante este período de um a dois dias a rainha deve estar protegida por uma gaiola lhe permite manter contato “físico” com as obreiras (exsudando as feromonas reais no coração da colónia);
  • as abelhas mais jovens aceitam rainhas mais facilmente do que as abelhas velhas;
  • colónias menores aceitam as rainhas mais prontamente do que colónias maiores.

O método que apresentarei seguidamente apresenta estas vantagens:

  • evitará quaisquer interrupções na postura de ovos das rainhas atuais/velhas;
  • dispensará a utilização/aquisição de material dedicado, o que permite simplificar o trabalho do apicultor e torna-lo mais rentável.

(Abrindo parêntesis: Relativamente à dispensa de material dedicado a minha posição de princípio é que o apicultor moderno deve evitar sempre que possível comprar material e equipamentos que sirvam apenas para um maneio/operação específica. Deve privilegiar os métodos que lhe permitam fazer o que pretende com os materiais e equipamentos generalistas que já possui. No caso específico da criação de rainhas há muito equipamentos dedicados por onde nos podemos “despistar”e fazer derrapar orçamentos. Como consequência destas derrapagens orçamentais desejamos e necessitamos que cada colmeia produza 50 Kg de mel/ano para o apicultor, que dê ainda uns bons quilos de pólen e umas gramitas de apitoxina, tudo para que se paguem as despesas do ano. A minha opção é sempre que possível evitar o material dedicado e procurar os métodos de maneio de colónias que levem aos mesmos fins e que exijam materiais e equipamentos que já possuo do maneio habitual e normal das colmeias. Esta recomendação poderá ter interesse para os apicultores que se focam na produção de mel, como é o meu caso. Recomendo a terminar este parêntesis que tenham um quando muito dois focos se querem ter uma apicultura rentável no nosso país. Não se dispersem, nem no território nem nos produtos! Foquem-se na produção de um/dois produtos e concentrem a vossa operação num/dois territórios!)

Equipamento necessário a preparar antes de ir para o apiário:

  • uma alça de dimensões iguais à do ninho da colmeia e com quadros puxados ou laminados;
  • tabuleiro divisor;
  • jaula temporária de rainhas/pinça para apanhar rainhas.

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Fig. 1: Exemplo de uma pinça para apanhar rainhas

No apiário:

  • Coloque a alça que trouxe em cima do tabuleiro divisor e ao lado da colmeia estabelecida onde pretende introduzir a nova rainha;
  • Localize a rainha “velha” e coloque-a numa jaula temporária;
  • Remova 2 – 4 quadros com criação larvar e sobretudo operculada do ninho desta colmeia estabelecida com todas as abelhas aderentes. Estes quadros deverão ser colocados na alça igual ao ninho que trouxe consigo. Os quadros vazios que são removidos são introduzidos no ninho da colmeia estabelecida. Devemos manter a integridade da zona de criação, colocando estes quadros “novos”nas zonas laterais da mesma;
  • Coloque um ou dois quadros adicionais de mel retirados da colmeia estabelecida ou de outra colmeia depois de sacudidas as abelhas aderentes;
  • Se necessário sacuda ainda mais algumas abelhas dos quadros da colmeia estabelecida para os quadros colocados na alça que se encontra em cima do tabuleiro divisor. Pode fazê-lo com toda tranquilidade porque a rainha ainda se encontra na sua jaula temporária;
  • Liberte a rainha velha em cima dos quadros com criação que ficaram no ninho da colmeia estabelecida;
  • Coloque a alça com tabuleiro divisor em cima da colmeia estabelecida. A entrada do tabuleiro divisor deverá ter a direção contrária à entrada da colmeia estabelecida. Isso permitirá que as abelhas mais velhas saiam e voltem para a colmeia estabelecida em abaixo;
  • Passadas umas horas ou até um dia introduza a nova rainha na sua jaula na alça que foi preparada para a receber;
  • Esta nova alça/novo ninho, foi perdendo as abelhas mais velhas que foram sendo drenadas para o ninho estabelecido em baixo, tem uma parcela importante de abelhas novas, e tem um número menor de abelhas. Com este método estão reunidas as condições que garantem maior sucesso na introdução de novas rainhas;
  • Passadas duas ou três semanas, confirmada a boa postura da nova rainha, elimina a velha rainha ou retira-a para um núcleo, tira o tabuleiro divisor e sem mais operações reúne a colónia, agora com nova rainha.

compatibilizar a renovação de rainhas e a produção de mel

Uma das leis mais sólidas em apicultura é a de que as colmeias mais populosas tendem, em condições normais, a serem as mais produtivas (ver lei de Farrar).

Se exceptuarmos as doenças das abelhas (sendo a mais prevalente a varroose) e a fome nas abelhas, as duas variáveis que mais impacto negativo têm na população das abelhas de uma família/colmeia são a pouca prolificidade de uma rainha e a enxameação.

Em condições regulares estas duas variáveis (baixa prolificidade e enxameação) podem e devem ser resolvidas com a renovação de rainhas em ciclos de dois anos, ou mesmo de ano a ano.

Os métodos de renovação de rainhas são inúmeros e cada um de nós deve escolher aquele que mais lhe agrada, de acordo com a sua realidade e as suas capacidades. Neste post vou propor uma técnica que nos permite fazer a renovação de rainhas sem pôr em causa o desenvolvimento normal da família/colmeia, isto é, sem provocar um atraso no crescimento da sua população, logo sem pôr em causa a produção.

No meu caso, tendo em conta o meu contexto, procuro uma solução para a renovação que rainhas que possa ser aplicada de forma simples (que não me exija a criação de condições relativamente complexas para a introdução de rainhas virgens ou fecundadas), económica (que não me exija por ex. a aquisição de rainhas fecundadas e/ou equipamentos dedicados), com uma baixa exigência logística (que não me exija trabalhar com caixas de tamanhos diferentes como por ex. nucleólos, núcleos ou outros equipamentos), que seja rápida ao ponto de ser realizada com um baixo de número de manipulações/operações e que seja eficiente, isto é, que me dê garantias que no processo de renovação de rainhas menos de 1% das famílias/colmeias fique orfã.

Para alcançar este conjunto integrado de exigências apenas necessito de um equipamento extra ou dedicado, o tabuleiro divisor, que me permite atingir todas as exigências elencadas em cima, em particular a baixa exigência logística.

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Fig. 1 : Tabuleiro divisor simples

Os procedimentos/manipulações são os que descrevo em baixo:

  • identificamos a família/colmeia que apresente uma rainha pouco prolífica ou que apresente sinais prévios de enxameação (por ex. ovos em cálices reais ou construção de muito cálices reais);
  • passamos esta rainha com 2 ou 3 quadros de criação e abelhas para uma outra caixa (caixa B) igual ao ninho e um ou dois quadros com reservas (tal e qual o que faríamos se da criação de um núcleo se tratasse);
  • no ninho (caixa A) ajeitamos os quadros restantes e completamos os espaços vazios com quadros novos com cera puxada e/ou laminada;
  • colocamos o tabuleiro divisor sobre este ninho (caixa A) com a sua entrada/alvado orientado na mesma direção do alvado do ninho;
  • sobre o tabuleiro divisor colocamos, finalmente, a caixa B, com a rainha original, quadros e abelhas aderentes e com os espaços vazios preenchidos com quadros novos puxados e/ou laminados;
  • passadas algumas horas ou no dia seguinte introduzimos no ninho uma realeira/mestreiro aberto ou fechado (a solução mais económica e simples de todas as que conheço para a renovação de rainhas).

Passados cerca de 10 a 20 dias (dependendo da maturação da realeira introduzida) teremos na caixa A/ninho:

  • Uma jovem rainha fecundada que iniciou a postura na caixa A (ninho) mais uma numerosa população que devido aos elevados níveis de produção de feromona mandibular da jovem rainha verão o seu instinto enxameatório fortemente diminuído;
  • Uma rainha que em virtude da sua juventude e vigor tenderá a apresentar uma taxa de ovodeposição muito elevada.

Entretanto na caixa B, a rainha original continuou a sua postura, podendo ter passado dos 2 ou 3 quadros de criação iniciais para os 5 a 6 de criação.

Se o nosso objectivo era somente o de renovar a rainha, eliminamos a rainha original da caixa B, tiramos o tabuleiro divisor, passamos estes quadros de criação existentes na caixa B e colocamo-los na caixa A. Tiramos o tabuleiro divisor e sem mais juntamos as duas famílias sem receio de lutas entre as abelhas, dado que os aromas/odores se mantiveram harmonizados pela facto de o tabuleiro divisor apresentar uma rede mosquiteira que promoveu em todos os momentos a permanência de um só odor entre as duas famílias.

Se por algum acaso, a jovem rainha não chegou a iniciar a postura, não matamos a rainha original e reunimos as duas famílias/colmeias como descrito em cima.

Se a nossa intenção é eliminar a rainha original porque a família começava a apresentar fortes sinais de enxameação, podemos aumentar a eficácia do procedimento se ao invés de colocar a entrada/alvado do tabuleiro divisor com a mesma orientação da entrada do ninho (caixa A) a colocarmos no sentido oposto, o que leva a que muitas mais abelhas forrageiras deixem a caixa B, deixando a rainha original com uma população sobretudo de abelhas nutrizes na caixa B, o que irá refrear significativamente a pulsão reprodutiva, logo a ação de enxameação.

Nota: sobre a construção e utilização do tabuleiro divisor pode ler mais aqui e aqui.

avaliação de rainhas: o caso de rainhas de má qualidade

Tendo lido este post e este outro, não devem restar dúvidas acerca das características de uma rainha de má qualidade. Neste caso a criação não é nem abundante nem compacta. Claramente há uma série de gradações de acordo com o estado mais ou menos avançado de decadência da rainha. É verdade, como não poderia deixar de ser, que a própria natureza encontrou a sua solução para este problema, levando as abelhas a substituir naturalmente a rainha inútil. Muitas vezes as abelhas fazem estas novas rainhas sem que o apicultor chegue a aperceber-se. Sabemos que, em certas colmeias, por várias temporadas consecutivas há sempre boas rainhas, sem a nossa intervenção. Mas, noutros casos, as abelhas chegam demasiado tarde, quando a decadência real já se arrasta há demasiado tempo atrasando toda a colónia, enfraquecendo-a de uma forma que se não interviermos deixará de ter condições para se tornar uma colmeia produtiva. Portanto, sempre que observarmos uma mancha de criação escassa e dispersa devemos pensar em criar as condições para as abelhas (ou nós próprios) mudarem esta rainha antes da sua exaustão se refletir em maior medida na colónia.

Nota: post inspirado por Manuel Oksman.

avaliação de rainhas: o caso de rainhas duvidosas

Dissemos aqui que as rainhas de qualidade apresentam uma criação abundante e compacta.

No caso vertente as duas variantes desse caso mostram-nos apenas uma dessas características, faltando a outra.

  • Primeira variante: criação abundante, mas não compacta Neste caso pode estar a acontecer uma de duas coisas: uma rainha de qualidade que devido à sua idade (em regra 2 ou mais anos) dá sinais da sua decadência, ou uma excelente rainha ainda jovem e prolífera, mas ” desordenada ” no seu trabalho. Este último caso é raro, mas às vezes pode ocorrer, e esta rainha compensa generosamente com a abundância da sua ovoposição, o desleixo que apresenta, formando colónias fortes, prósperas e produtivas. Como seria uma pena desperdiçar uma rainha com estas características, é melhor o apicultor não se apressar a tomar decisões irreversíveis.

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Fig. 1 — Mancha de criação de uma velha rainha decadente ou de uma jovem rainha desordenada?

  • Segunda variante: criação compacta, mas em pouca quantidade. Temos aqui o caso inverso, e a menos que seja uma colmeia débil com poucas abelhas (ou núcleo), onde poderia ser normal este tipo de mancha de criação apesar da qualidade da rainha, vemos este caso quando ocorre com o chamado “cerco de mel”, ou bloqueio do ninho pelo mel. Este é um caso um tanto peculiar e cuja interpretação não é uniforme. Na opinião de alguns, não é de atribuir muita importância ao caso e tudo se resume a colocar no ninho alguns quadros vazios para quebrar o “cerco”. Outros, nos quais nos incluímos, são da opinião que, se esta situação não é devido a uma supervisão descuidada do apicultor que não colocou atempadamente as alças ou meias-alças meleiras (forçando as abelhas a armazenar o mel no ninho ), uma rainha que não é capaz de se fazer respeitar e manter a sua área de postura livre, é uma rainha de má qualidade e deve ser mudada. E se não existe um “cerco de mel” e a postura não é abundante com mais razão ainda.

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Fig. 2 — Mancha de criação compacta mas pouco abundante

Nota: post inspirado por Manuel Oksman.

avaliação de rainhas: o caso de rainhas de qualidade

A qualidade de uma rainha e a sua avaliação é uma característica e uma competência que funda a apicultura produtiva. O primeiro aspecto diz naturalmente respeito ao insecto, o segundo diz respeito ao apicultor. Vamos centrar esta abordagem na competência do apicultor para fazer essa avaliação (a competência mais não é que o conhecimento em acção).

Sabemos que uma rainha de boa qualidade se caracteriza por apresentar uma postura (de operárias) abundante e compacta. Sabemos que ela começa essa postura no centro do favo, em seguida, em vagas elípticas e sucessivas de postura, a postura irá abrangendo áreas cada vez mais vastas do favo até ao ponto de o ocupar quase na totalidade, ficando as extremidades dos quadros bordejadas por uma pequena abóbada  de pólen e mel. Podemos afirmar que uma rainha de qualidade “empurra” o mel para as extremidades dos quadros na câmara de criação. Concluímos assim que, salvaguardando o atempado fornecimento de alças e meias alças para o armazenamento do néctar ou a ausência de preparação de uma enxameação, o bloqueio do ninho com mel e pólen não acontecem na presença de uma rainha de qualidade.

O filme dos quadros de criação de uma rainha de qualidade é repetitivo durante vários ciclos de criação e pelos vários quadros que formam a câmara de criação.  Procurando descrever por palavras este filme com a duração de 21 dias digo: observamos o quadro com criação larvar não selada ao centro, onde começou a postura e, portanto, com larvas maiores e mais velhas; em torno deste disco encontramos larvas mais jovens, e nas extremidades do favo/quadro vamos encontrar ovos. Poucos dias depois, observando o mesmo quadro, no seu centro a selagem dos alvéolos já se iniciou e a periferia apresentará ainda criação larvar aberta/não selada. Mais tarde alguns dias, a selagem estará completa e observamos uma mancha uniforme, densa e compacta de criação; um quadro caro, pois trata-se de um grande “pacotes de abelhas por nascer” muito valioso e com várias aplicações práticas, nomeadamente para o exercício da equalização já referido noutros posts. Após 21 dias as novas abelhas, provindas dos primeiros ovos colocados no centro do favo, começam a nascer, formando naturalmente um “buraco” no meio da criação selada, buraco que vai crescendo com o nascimento de mais abelhas. A rainha, sendo de qualidade, vai rapidamente encher de ovos este renovado espaço vazio. Este fenómeno vai-se espalhando do centro para as periferias do quadro de criação. É um novo ciclo de postura a decorrer perante nós. E vai-se repetindo uma e outra vez, passando pelas mesmas fases durante toda a temporada de “grande postura”.

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Fig. 1 — Criação selada abundante e compacta bordejada por pólen e mel.

De uma coisa estou certo, neste mundo de muitas incertezas: só as colónias com rainhas de qualidade produzem mel. De há dois anos a esta parte procuro eliminar sistematicamente todas as rainhas que, à entrada da primavera, não apresentam as características atrás descritas. São poucas, felizmente! Salvam-se apenas as mais velhas, que provaram no passado, e cujo património genético é aproveitado como matriarcas de futuras rainhas.

Nota: este post foi inspirado por Manuel Oksman, enorme apicultor argentino.

uma abordagem mais “natural” para fazer núcleos de fecundação

Quando uma colónia produz a sua rainha após a enxameação ou o apicultor faz a divisão de uma colónia, há uma probabilidade elevada (superior a 90%) de produzir uma nova rainha com uma vida reprodutiva normal, à sua frente. Este elevado nível de sucesso contrasta com o resultado obtido com rainhas fecundadas nos pequenos nucléolos ou mini-núcleos, onde a melhor taxa de sucesso que podemos esperar é de 2 em cada 3 (66%), e muitas vezes pode ser substancialmente mais baixa.

Qual a razão da diferença? Em parte é uma questão de escala, porque num nucléolo temos apenas 200-300 abelhas para dar apoio a uma rainha virgem. Mesmo os mais pequenos enxames secundários, mais conhecidos como garfos, são muito maiores do que isto. Portanto os mini-núcleos colocam as rainhas virgens e as abelhas numa situação excessivamente artificial, para a qual não estão naturalmente adaptadas.

Se o objectivo é partir uma colónia e fazer dela duas, para aumentar o efectivo a tarefa fica concluída assim que a divisão é feita. A colónia mãe (aquela que mantém a velha rainha) e a colónia filha (a que está criando as suas realeiras de emergência) pode permanecer no mesmo apiário, quer em assentos separados ou com a colónia filha em cima da colónia mãe usando um prancheta especial de divisão. Tudo o que o apicultor precisa de fazer é sentar-se e esperar e, após 4-5 semanas, verificar se uma nova rainha está fazendo postura na colónia filha. A colónia mãe que doou abelhas e criação e é improvável que enxameie. Por outro lado, o excedente de realeiras de emergência produzidas pela divisão podem ser utilizados para criar mais alguns núcleos com abelhas, quadros e criação retirados de outras colmeias no apiário. Cerca de 90% destas rainhas são sobreviventes de longo prazo (sobrevivem pelo menos até o final da temporada seguinte).

Os aspectos-chave envolvidos na concretização deste processo de criação e fecundação de rainhas podem ser resumidas como se segue :

 

  1. Os núcleos devem ser preenchidos com as abelhas da mesma colónia que fez as realeiras;
  1. Cada núcleo deve ser fornecido pelo menos com 2 células reais e de preferência mais (não há nenhum limite);
  1. Os quadros com realeiras devem ser retirados logo que possível após a operculação (cerca do 9º dia);
  1. As entradas das caixas de núcleos devem ser fechadas e o núcleo deve ser transferido para um apiário de acasalamento, situado a mais de 3-4 Km de distância.

Achamos que desta maneira a criação de núcleos de fecundação funciona melhor porque é mais “natural” , ou seja assemelha-se muito ao que acontece na natureza. A explicação é a seguinte :

  • As orientações 1 e 2 estão logicamente relacionados e são destinadas a garantir que as rainhas em desenvolvimento são cuidadas por abelhas operárias com quem estão geneticamente relacionados (ponto 1). As abelhas estão conscientes da relação genética que têm com os suas companheiras de ninho (se são irmãs completas ou apenas meia-irmãs — dependendo do zangão que as gerou). Estas relações fazem parte integrante da organização colónia, embora eles não sejam completamente compreendidas no presente momento. Isto contrasta com o método tradicional de fazer núcleos, onde uma única célula real é geralmente dado a um grupo de abelhas não relacionadas. A provisão de um núcleo com várias realeiras tem a vantagem de permitir que as abelhas podem fazer “o que acontece naturalmente”, isto é, façam as suas escolhas (ponto 2). Nós (meros seres humanos) não entendemos que critérios elas estão usando, mas eles (as abelhas) claramente fazem-no e a melhor estratégia é não interferir.
  • As orientações 3 e 4 também estão logicamente relacionados e visam aumentar o sucesso do acasalamento das rainha virgens. Fazendo-se os núcleos assim que as células rainha foram operculados (ponto 3) aumentamos o número de dias antes de uma nova rainha nascer e estar pronta para realizar os vôos de acasalamento. O bloqueio de entrada evita a perda de abelhas aquando da transferência para outro apiário (ponto 4) e garante que elas ficam no núcleo e não vão voar de volta para casa. Estudos recentes mostram que rainhas virgens não saem sozinhas nos seus vôos de acasalamento, mas são acompanhados por um número de abelhas operárias maduras que as guiam para as áreas de congregação dos zãngãos e asseguraram seu retorno seguro. Para fazer bem esta tarefa um núcleo deve ter abundância de abelhas forrageiras que tenham tido tempo suficiente para conhecer o seu novo território. Se núcleos são feitos no dia 9 e são transferidos imediatamente para o apiário de acasalamento deve haver um mínimo de 7 dias antes de uma nova rainha estar pronta para acasalar (e provavelmente mais) e as abelhas forrageiras estarem capacitadas para desempenhar esta função tão importante. A falta de abelhas pode ser uma das razões para os mini-núcleos terem um menor nível de sucesso no acasalamento das suas rainhas do que as colónias maiores. Uma desvantagem adicional pode ser que as rainhas mal apoiadas são obrigados a acasalar mais perto de casa, resultando num menor acesso à diversidade genética dos zângãos.

Consciente que alguns aspectos podem e devem ser discutidos e bem reflectidos por todos nós, importa que a nossa prática seja conduzida cada vez mais respeitando o “modo natural de fazer”das abelhas. Pergunto se com um excessivo artificialismo nos procedimentos por nós escolhidos não estaremos a ganhar a curto prazo para desperdiçar a longo prazo, ou como diz o nosso povo não estaremos a poupar no farelo e a desperdiçar na farinha?

como atrasar a enxameação

A enxameação é um processo natural, inevitável, com o qual, mais tarde ou mais cedo, todo o apicultor se vê confrontado. Estar preparado é a chave para prevenir e/ou controlar o processo da enxameação. Ainda que por vezes não consigamos evitar a enxameação, contudo é possível atrasá-la. Atrasar a enxameação pode ditar a diferença entre não colher mel nenhum na estação ou, caso sejamos bem sucedido, colher algum mel, o suficiente para pagar o que investimos durante o ano naquela colónia.

As diversas técnicas disponíveis para prevenir e/ou atrasar a enxameação, em grande parte giram em torno de fornecer espaço adequado à colónia, abrandar a velocidade de crescimento da sua população ou simular artificialmente a enxameação, com a aplicação de diversas técnicas, as mais conhecidas desenhadas por Demarée e por Snelgrove.

A chave para o sucesso da prevenção ou atraso da enxameação roda muito em torno do momento e da intensidade com que a intervenção do apicultor é exercida.

No caso dos meus apiários na beira, as colónias mais fortes atingem os 6-8 quadros de criação na primeira quinzena de março, graças à entrada abundante de pólen que se inicia em fevereiro a juntar a um fluxo lento de algum néctar que surge por esta altura. Estas colónias fortes convivem no mesmo apiário com algumas outras que saíram menos povoadas do inverno. Estou-me a referir a colónias que nesta primeira quinzena de março apresentam 4-6 quadros de abelhas e 2-4 quadros com criação. O facto de os meus apiários apresentarem estes desequilíbrios permite-me, através da equalização, retirar força às colmeias que me parecem prematuramente fortes e dar alguma dessa força às minhas colmeias mais fracas.

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Fig. 1 — Quadro com muita criação operculada a utilizar no processo de equalização

Assim as colmeias mais débeis que eu entendo que ganham com a equalização recebem um quadro com muita criação operculada, quadro este fornecido pelas mais fortes. As primeiras são reforçadas com 4000-5000 abelhas novas e as últimas ficam descongestionadas dessa população de abelhas que poderiam vir a ser o gatilho para uma enxameação precoce, ainda durante a primeira quinzena de abril. Em simultâneo ofereço espaço no ninho às rainhas destas colónias mais fortes. Em regra nas colónias mais fracas encontro pelo menos um quadro ainda vazio com muito boas áreas de postura. Este recurso inestimável, colocado no ninho das colmeias mais fortes, permite-me criar um novo espaços de postura tão necessário nestas colónias. A juntar a esta acção, no mesmo dia ou poucos dias depois, adiciono espaço no topo da colmeia, com uma alça ou meia-alça. Este espaço adicional será usado para armazenar o néctar quando necessário, evitando o bloqueio dos preciosos alvéolos nos quadros do ninho.

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Fig. 2 — Quadro vazio puxado com excelente área de postura