colónias conformadas à regra “não mais de 6” produzem mel?

Dado o interesse que a “regra não mais de 6” suscitou em vários apicultores que me contactaram, questionando e procurando mais alguma informação, surgiu algumas vezes nestas conversas a questão: e estas colmeias assim trabalhadas produzem mel? Da minha experiência, que trabalho com os modelos Langstroth e Lusitana, a resposta sumária é sim (com as reversíveis em teoria poderá ser diferente, mas não tenho experiência directa que o confirme porque não trabalho com este modelo de colmeia). Mas vamos a alguns números para todos entendermos melhor a minha observação reiterada e a minha resposta sumária (apesar de a apicultura não ser uma ciência, é uma arte que se fundamenta por ex. nos números/matemática).

Lembro o que escrevi em 2017: Em quase todas as colmeias com 8 quadros de criação estou a retirar 2 quadros com criação e a colocar um quadro com cera laminada na posição 2 e um outro de meia-alça na posição 9.

Uma colónia com 8 quadros de criação à saída do inverno apresenta os 10 quadros do ninho bem cobertos de abelhas. Grosso modo temos 20 mil abelhas no ninho (2 mil por quadro).

Colónia com 9 a 10 quadros bem cobertos de abelhas (foto tirada a 18 de março do ano passado num apiário a 900 m de altitude, no início do fluxo da urgueira).

Tiro dois quadros deixando 6 quadros com áreas substanciais preenchidas por criação (operculada e não operculada). Destes 6 quadros vão nascer/emergir cerca de 30 mil abelhas, nos próximos 20 dias.

Um quadro langstroth ou lusitano tem cerca de 7 mil alvéolos, retirando dois mil para o arco de mel e pólen, nestas condições cada quadro, como o da foto em cima, vai dar cerca de 5 mil novas abelhas à colónia.

Segundo a lei de Farrar os quilogramas de mel produzidos são uma função quadrática do número de abelhas da colónia e duração e quantidade do fluxo de néctar. Trocando por miúdos, quer dizer o seguinte:

  • 20 mil abelhas produzem 4 kgs de mel para o apicultor (2 ao quadrado);
  • 30 mil abelhas produzem 9 kgs de mel para o apicultor (3 ao quadrado);
  • 40 mil abelhas produzem 16 kgs de mel para o apicultor (4 ao quadrado);
  • 50 mil abelhas produzem 25 kgs de mel para o apicultor (5 ao quadrado);
  • 60 mil abelhas produzem 36 kgs de mel para o apicultor (6 ao quadrado).

No caso da utilização da “regra não mais de 6” teremos uma média de 50 mil abelhas na colónia (as 20 mil do ninho e as 30 mil novas abelhas que se lhes juntarão). Por cada geração de abelhas (que medeia os 35 a 45 dias), e assim a duração e a quantidade do fluxo de néctar o permitam, estas colónias poderão produzir em média 25 kgs de mel.

Nota: Deu-me muito prazer ter lido há poucos dias atrás que Mark L. Winston, investigador canadiano que está entre os mais referenciados na literatura apícola, concluiu através dos seus trabalhos de campo que as abelhas tendem naturalmente a enxamear quando ocupam cerca de 90% da área disponível dos favos na cavidade/colmeia que habitam. Não andei muito longe da conclusão de Winston quando escrevi em 2017 “A análise do histórico das minhas colmeias tem-me mostrado que trabalhando com uma só caixa a ninho, existe uma correlação assinalável entre os 8 a 9 quadros de criação no ninho e o facto de as abelhas entrarem em modo de enxameação.”

as alterações climáticas: o caso da melada tardia do abeto francês

As alterações climáticas vêm somar-se aos problemas já “usuais” da apicultura: parasitismo por Varroa, fragmentação do território, poluição ambiental e declínio da biodiversidade floral. Por seu turno, o vespão asiático continua sua expansão por toda a Europa e aumentou esta lista.

Temos vindo a observar nos últimos anos uma mudança no perfil das estações, em grande parte promovida pela mudança climática (ou “aquecimento global”). Suas consequências são numerosas, especialmente para as plantas das quais a alimentação de nossas abelhas depende inteiramente. Ao interromper o acesso ao pólen e ao néctar, esse distúrbio influencia a saúde das colónias de abelhas e, portanto, aumenta as perdas no inverno. Altas temperaturas e outros extremos climáticos são elementos desfavoráveis, como indicado num estudo recente que encontrou uma ligação clara entre “clima mais quente e seco no ano anterior” e “maiores perdas de inverno”.

Uma melada tardia que fez mais mal do que bem

As perdas invernais de 2016-2017 parecem estar também associadas à excepcionalmente tardia melada de abeto/”sapin” neste ano, resultante de um clima alterado.

O sapin

Importa esclarecer que não é a melada de abeto que é prejudicial como tal, mas sim o período tardio em que chegou em 2016, que resultou numa dessincronia relativamente ao padrão e às necessidades habituais das abelhas nesta época do ano. As meladas clássicas de abetos vão de julho a setembro; a de 2016 iniciou-se em setembro e terminou em novembro.

As colmeias viram seus ninhos encherem-se de melada em detrimento da postura da rainha e da preciosa criação de outono. Isso levou aos riscos usuais da melada tardia: baixas populações de inverno; atraso na colocação dos tratamentos de luta contra o Varroa; risco de diarreia na primavera.

Este atraso da melada de “sapin”, levou mais de metade dos apicultores inquiridos a trataram as suas colónia mais tarde do que o habitual. 52% dos apicultores começaram tratamentos anti-varroa após o período recomendado de julho/agosto, o que é um erro no controlo da infestação, como têm confirmado os dados dos inquéritos dos últimos anos.

fonte: http://www.adage.adafrance.org/downloads/apiculture_bilan_enquetes_pertes_hivernales_grd-est_2017.pdf

primeiras alças meleiras: com cera puxada ou cera laminada?

Uma das muitas dúvidas dos apicultores menos experientes é se a primeira meia-alça/alça meleira, a colocar imediatamente sobre o ninho, deve ser com cera puxada ou com cera laminada. Não havendo uma resposta universal, porque as condições locais variam muito, vou descrever o que faço por norma e porque o faço na zona onde tenho os meus apiários.

Fig. 1: Alça meleira com quadros com cera puxada

Durante o fluxo principal da primavera (na minha zona estou a pensar na floração da urgueira ou do rosmaninho até finais de abril/meados de maio), o néctar chega rápido e em quantidade, mais rápido do que as abelhas conseguem puxar a cera. Não tendo meias-alças ou alças com cera puxada sobre os ninhos, isso faz com que elas comecem a armazenar o néctar (ou xarope estimulante, se for em demasia na época pré-fluxo) no ninho/câmara de criação. O ninho bloqueado é uma dos principais factores que desencadeia o impulso de enxameação prematuramente no início da época, como sabemos. Sabemos ainda que o enxame sai com um bom número de abelhas em idade de produzirem cera. A colónia enxameada vai estar cerca de 3 semanas sem uma rainha em postura. Uma vez que esta inicie a postura, levará mais 3 semanas até a cria começar a emergir, outra semana a 10 dias antes que as abelhas jovens estejam na idade para se tornarem produtoras de cera. Somando tudo, a colónia não puxará muita cera nas próximas 7 semanas após a enxameação. Por um lado não precisam, têm muitos alvéolos à disposição, onde a cria está a emergir ou emergiu, juntando ao facto que não têm uma população preparada para fazer cera. Cerca de 7 semanas após a enxameação, a população é “corrigida” e agora a colónia mudou totalmente os modos, mudaram do modo “queremos reproduzir-nos” para o modo “queremos armazenar para o inverno”. Os fluxos posteriores são mais lentos (meados de maio até inicio/meados de julho) que os fluxos iniciais de primavera, as abelhas podem puxar cera tão rápido quanto a entrada de néctar, e fazem exatamente isso se as temperaturas não forem excessivas e houver alguma humidade na atmosfera.

As colónias que recebem uma meia-alça/alça puxada no início da primavera têm espaço para armazenar esse fluxo forte e rápido, de modo que não bloqueiam o ninho logo no início, em vez disso armazenam o néctar nos quadros puxados colocados logo acima do ninho. As colónias que não possuem este “armazém acabado” de cera puxada, vão puxando as lâminas de cera, mas simultaneamente armazenam boa parte do néctar no ninho porque não encontam outro lugar para colocá-lo.

a utilização dos núcleos para reforço das colónias dedicadas à produção de mel e/ou abelhas

Uma das leis mais sólidas em apicultura é a de que as colmeias mais populosas tendem, em condições normais, a serem as mais produtivas (ver lei de Farrar). Por outro lado há uma velha máxima em apicultura que diz que para produzir abelhas são precisas abelhas, isto é, colónias fortes.

Fig.1 : Exemplo de configuração de colmeia dedicada à produção de abelhas

Este objectivo de ter colónias muito fortes, colónias com 45 mil indivíduos ou mesmo algo mais, no início do fluxo, pode ser atingido se dedicarmos parte dos nossos enxames à doação de quadros com criação operculada às colónias que saíram fortes do inverno, colónias estas que ficam dedicadas à produção de mel e ou abelhas.

Os meios e os procedimentos para obtermos colónias tão populosas são variados. Este ano vou introduzir de forma mais sistemática uma forma de o fazer no meu cardápio de procedimentos e que até aqui só era utilizada pontualmente. Vou dedicar um conjunto de núcleos por apiário à tarefa de regularmente fornecerem quadros com abelhas prestes a emergir às colmeias de produção.

Estes núcleos não têm ainda a população para fazerem um excedente de mel para o apicultor no fluxo que na minha zona está à porta, mas estão à altura de darem uma preciosa ajuda às colmeias fortes para estas atingirem nas próximas duas semanas uma população de abelhas que só atingiriam em meados de maio, em condições normais. Serão núcleos “palmerizados” (neologismo originário do inglês palmerized) de forma regular e sistemática como nunca o tinha feito até aqui.

o maneio (in)adequado da abelha negra


Um vasto conjunto de técnicas modernas de apicultura foram desenvolvidas simultaneamente com a expansão das subespécies de abelhas mais populares: A. m. ligustica e A. m. carnica.

Fig. 1 : A. m. ligustica

A padronização do tamanho e estrutura das caixas de colmeias levou a técnicas universais de maneio em operações apícolas profissionais, primeiro no Novo Mundo e depois em muitos países europeus. Cursos, materiais didáticos, manuais e periódicos promoveram as novas técnicas. Toda a filosofia de maneio foi pensada e optimizada para as abelhas A. m. ligustica, A. m. carnica e A. m. caucasica.

Fig. 2: A. m. carnica

Estes são alguns exemplos desta filosofia de maneio: incluiu maneio brusco das colónias, evita o desdobramento/arrefecimento das colónias antes do fluxo do néctar principal, defende um grande espaço para a invernagem de colónias (ninho e sobreninho langstroth), exige baixa tendência de enxameação, recorre à remoção dos mestreiros para controle de enxameação e preconiza o uso intenso de fumo durante o maneio.

Muitos desses métodos são muito severos/inadequados para a abelha A. m. mellifera (abelha negra). Apicultores mantendo A. m. mellifera devem conhecer algumas técnicas mais antigas e desenvolver métodos e equipamentos mais ajustados ao maneio destas colónias [Manner, 1925]. A fisiologia, o comportamento e ciclo de vida anual de A. m. mellifera diferem de outras abelhas e devem ser consideradas nas técnicas de maneio. Surpreendentemente, isso não é comumente conhecido pelos apicultores [Ingvar Arvidsson, comunicação pessoal].

Fig. 3: A. m. mellifera

fonte: https://www.nordgen.org/wp-content/uploads/2017/03/BrownBeeReport2014NordGen.pdf

Nota: reescrever alguns capítulos do manual de maneio da nossa A. m. iberiensis pode e deve ser feito na minha opinião. Temos bons apicultores na península com conhecimentos para isso. Não tenho ideia da sua motivação para os partilharem.

Fig. 4: A. m. iberiensis

quadros iscados: vantagens e desvantagens

Na tentativa de atingir um ou vários objectivos em simultâneo alguns apicultores utilizam quadros iscados (quadros com uma tira de cera laminada de 2 cm ou mais), deixando às abelhas a tarefa de completar com favo natural a restante superfície do quadro.

Fig. 1 Quadro iscado

Regra geral esta opção visa um ou vários objectivos:

  • redução dos gastos com cera laminada;
  • reduzir a quantidade de resíduos químicos na cera;
  • deixar às abelhas a escolha da dimensão do alvéolo;
  • combater o varroa;
Fig.2: Abelhas cerieiras construindo favo

Sendo relativamente consensual entre os apicultores que os quadros iscados permitem atingir estes objectivos, fico com a ideia que alguns de nós leram apenas o primeiro capítulo deste livro e não tiveram tempo para ler ou ignoraram o segundo capítulo da obra. Vejamos com mais amplitude.

Vários apicultores nacionais e estrangeiros, entre os quais me incluo, que tentaram no passado, alcançar um ou vários dos objectivos atrás elencados, depararam-se com um resultado que os surpreendeu. Muitos dos favos construídos pelas abelhas apresentavam um grande número de alvéolos de zângão. Em alguns casos, a nova cria de zangãos situava-se entre os 25% a 50% da população total: por cada duas abelhas foi criado um zângão, nos casos mais extremos. Como não pode deixar de ser, vastas quantidades de recursos da colmeia vão para a alimentação deste mar de larvas de zângão, recursos que continuam a ser gastos durante a sua adultez. Em vez de ter obreira lá fora, colectando mel e criando mais obreiras, o apicultor tem milhares de zângãos (podendo ultrapassar os 10 mil por colónia), deambulando pelas colmeias, transferindo não só o seu charme mas também doenças e parasitas entre colmeias e esperando para serem alimentados.

Está relativamente bem estabelecido que as colónias de abelhas selvagens criam cerca de 25%-30% de zângãos, a maioria no período de pré-enxameação. Esta elevada quantidade de zângãos foi definida por milhões de anos de evolução da espécie. Este comportamento é instintivo e universal. Sempre que o apicultor coloca na sua colmeia quadros iscados no período pré-enxameação, numa colmeia forte, numa colmeia com uma rainha madura e num período de expansão/crescimento da colónia não se deve surpreender que cerca de um terço da criação total da colónia seja de zângãos.

O que fazem os apicultores para contrariar, em parte, este comportamento? Colocam cera estampada com alvéolo de obreira a cobrir praticamente toda a superfície do quadro. Assim conseguem reduzir para 10%-15% a quantidade de alvéolos de zângão produzidos pelas abelhas numa temporada. Existem muitas razões pelas quais os apicultores desenvolveram a cera pré-estampada, e esta é uma delas.

Uma coisa a lembrar é que a maioria da cria de zângão é feita no início da primavera, pouco antes e durante a época da enxameação reprodutiva. Depois desta época a criação de zângãos baixa acentuadamente. Ou porque desejamos poupar algum dinheiro na cera, ou por outro motivo, esta será a janela de oportunidade para utilizar os quadros iscados: no período pós-enxameação reprodutiva, nunca antes e/ou durante este período. Conhecendo mais e melhor as abelhas permite-nos trabalhar lado a lado com elas, numa simbiose cada vez mais completa.

As abelhas em regra dão o que os apicultores desejam, mas devemos conhecer os ciclos, os timings, os mecanismos subjacentes, para os utilizar em nosso favor e tudo isto sem lhes causar dano, pelo contrário ajudando-as a defender-se dos seus inimigos. E na actualidade ter menos criação de zângãos nas colmeias é mais saudável que ter mais criação de zangãos, como todos sabemos.

dicas para encontrar a abelha rainha

Fig.1 : Rainha (Queen); Abelha (Worker); Zângão (Drone)

Começando pelas características únicas da rainha:

  • a. Mais comprida que as abelhas;
  • b. Mais delgada que os zângãos;
  • c. O seu tórax é mais proeminente e visível que o das abelhas;
  • d. As suas asas não se estendem até ao final do abdómen;
  • e. As suas pernas são mais compridas ou do “tipo aranha”.

Quando os objectivos a atingir com o maneio tornam inevitável encontrar a rainha em alguma das minhas colónias tenho por hábito seguir estes procedimentos:

  • abro a colmeia muito suavemente;
  • não utilizo fumo;
  • tiro o quadro mais lateral e do lado quente da da colmeia para ter espaço para deslocar os restantes quadros dentro da mesma; 
  • identifico o primeiro quadro com ovos e/ou larvas e/ou alvéolos vazios mas luzidios pela fina camada de propolis que os prepara para a ovoposição da rainha;
  • chego este quadro para o lado e antes de o levantar dou um rápido vislumbre (cerca de 10 segundos) ao quadro seguinte sem o tirar do lugar. Com alguma frequência a rainha está neste quadro seguinte, e consigo descortiná-la com alguma facilidade dado o seu tórax  mais saliente/proeminente.  Se neste quadro não vislumbrar a rainha levanto o quadro com criação que antes tinha chegado para o lado;
  • neste quadro procuro a rainha varrendo cada face do mesmo com o olhar por cerca de 30 segundos;
  • em regra a rainha é o indivíduo mais calmo na face do quadro e aquele que não procura ingerir mel. Estes aspectos comportamentais distintivos, para além dos morfológicos referidos em cima, ajuda-nos a reparar no que é diferente do resto e neste caso será muito provavelmente a rainha;
  • se não a encontrar neste quadro passo ao adjacente e repito o procedimento;
  • se não encontrar a rainha nos 2 ou 3 quadros existentes com ovos/criação aberta/alvéolos volto a colocar os quadros na mesma posição e fecho a colmeia;
  • se os objectivos não me permitirem aguardar pelo dia seguinte volto a repetir estes procedimentos 15-30 minutos depois.

Com estes procedimentos encontro 80%-90% das rainhas nos primeiros 2 a 4 minutos. Devo acrescentar que a grande maioria das rainhas que tenho não estão marcadas.

Este maneio pressupõe duas atitudes básicas:

  • aceitar que é necessário atenção concentrada, suavidade e algum tempo (cerca de 1 minuto por cada um dos 2 ou 3 quadros com as características referidas atrás)  para encontrar um indivíduo no meio de alguns milhares de indivíduos semelhantes;
  • acreditar que se não vislumbrámos a rainha durante 1 minuto de observação atenta daquele quadro devemos procurá-la no seguinte. Como as rainhas preferem a sombra não devemos demorar demasiado tempo antes de avançar para o quadro seguinte, de forma a evitar que ela se esconda no canto mais escuro da colmeia.

Uma nota a terminar: se a colmeia tiver ninho e sobreninho começo por observar a caixa que aparenta ter mais abelhas. O sobreninho coloco-o sempre sobre um tampo/telhado invertido para evitar o mais possível o esmagamento de abelhas e sobretudo da rainha.

maximizar o crescimento primaveril de uma colónia de abelhas

Neste vídeo Randy Oliver apresenta a uma audiência de apicultores canadianos um conjunto de ideias que ele segue para maximizar o crescimento primaveril das suas colónia situadas na Califórnia. Como se costuma dizer toda a apicultura é local. Contudo sendo as condições edafoclimáticas, os timings e algumas necessidades, diferentes de zona para zona, podemos aprender com este apicultor californiano tanto quanto os nossos companheiros canadianos o fazem.

Para a minha zona e com aplicabilidade destaco as seguintes ideias retiradas desta bela palestra de Randy Oliver:

  • ajustar o maneio das colónias aos objectivos: produzir mel, fazer pacotes, efectuar polinização, criar rainhas, produzir núcleos, …?;
  • preparar a primavera seguinte no final do verão anterior com o controlo atempado da varroa, com o fim de reduzir o impacto negativo do vírus das asas deformadas na longevidade da nova geração de abelhas que irão invernar;
  • estimular a postura da rainha no final do verão/início do outono com pasta proteica, se houver pouco pólen disponível no exterior, para ter mais abelhas a invernar;
  • conhecer os timings dos primeiros fluxos de pólen: tipicamente a colónia atinge a pulsão enxameatória 60 a 90 dias após a primeira entrada significativa de pólen;
  • prevenir a enxameação: colónia enxameadas necessitam 30 a 60 dias para recuperar a população de abelhas perdidas;
  • compreender a transição de abelhas de inverno para abelhas de verão: quando a criação começa a aumentar e as abelhas de inverno começam a morrer, a colónia passa por um período crítico de reequilíbrio populacional,  mais difícil ainda se as condições climatéricas forem desfavoráveis;
  • (MUITA ATENÇÃO aos 22′ 20” em que Randy Oliver mostra um belo quadro com criação fechada de uma ponta à outra, retirado de uma colónia no mês de Fevereiro, colónia esta com apenas três quadros de abelhas; Randy questiona a audiência acerca do futuro para esta colónia se as temperaturas nocturnas descerem muito: resposta a colónia está condenada; o número de abelhas disponíveis para aquecer tanta criação é insuficiente e o número de abelhas que nascerão não será suficiente para substituir as abelhas de inverno que estão a morrer em maior número cada dia que passa; será campo fértil para o surgimento de nosemose ceranae e loque europeia);
  • estar atento ao crescimento linear de uma colónia que se inicia com a estabilização do ninho (cerca de 5 quadros com criação) e continua durante cerca de 60 dias: nesta fase nascem 400-500 abelhas/dia, isto é, ao fim de 4 a 5 dias temos mais um quadro coberto de abelhas;
  • não esquecer que as rainhas atingem o pico de postura quando as abelhas cobrem 10 ou mais quadros;
  • não esquecer que a população de abelhas máxima de uma colónia corresponde a 42 vezes a taxa de ovoposição de uma rainha: se uma rainha põe 1000 ovos/dia a população máxima da colónia será de 42000 abelhas; a média de ovoposição de uma rainha nova é de 1500 ovos/dia;
  • não esquecer que as rainhas gostam do efeito chaminé alcançado quando se coloca um sobreninho com ceras já puxadas o que lhes permite “subir” e iniciar aí a postura; assim estamos a maximizar a postura da rainha e a prevenir a enxameação;
  • colónias grandes e em rápido crescimento necessitam de entrada de muito pólen; se as condições climatéricas não permitem o pastoreio a produção de geleia real diminui imediatamente (1 hora após o início de chuvadas por ex) e em casos mais graves as abelhas canibalizam os ovos e as jovens larvas para suprir algumas necessidades proteicas;
  • a escassez de alimento e a mortalidade por fome ocorre mais no início da primavera que durante o inverno;
  • importa monitorar a quantidade de alimento dado às larvas: larvas a nadar em geleia é muito bom sinal; larvas em alvéolos quase secos é sinal de desequilíbrio nutricional corrigido com suplementos proteicos;
  •  alimentar sempre que na primavera há vários dias seguidos com condições climatéricas que impeçam as abelhas de sair; nesta altura as reservas são as suficientes apenas para o dia-a-dia;
  • o gatilho para a  enxameação surge quando não existe feromona da criação emitida pelas larvas jovens antes da operculação;
  • é necessário quebrar a abóboda de mel no topo dos quadros para levar as abelhas a armazenarem o mel nas alças meleiras, sobretudo se estas alças tiverem apenas cera laminada;
  • inverter a posição do ninho com criação fechada e o sobreninho com criação aberta diminui a pulsão para enxamearem; a criação fechada irá emergir nos dias seguintes criando uma nova “cavidade” vazia que engana as abelhas e refreia a sua vontade de enxamearem;
  • happy beekeeping.

a regra “não mais de 6”: sua operacionalização

Aproveito a pertinente questão do Alberto como motivo para fazer este post.

Para aplicar a regra “não mais de 6” utilizo uma estratégia muito simples. Imaginemos o seguinte cenário: num apiário de 40 colmeias lusitanas, identifico uma colmeia que tenha boas condições para receber um sobreninho (caixa igual ao ninho). Esta colmeia tem de estar muito forte de abelhas. Nessa colmeia coloco o sobreninho com 10 quadros com boa cera laminada. Passo a fazer a inspecção das restantes colmeias. Encontro uma colmeia com 7 ou 8 quadros de criação. A esta colmeia vou tirar um ou dois quadros com criação e conformá-la assim com a regra. Em geral tiro quadros com criação e que simultaneamente estejam parcialmente bloqueados com pólen e/ou mel. Na colmeia com sobreninho, anteriormente preparada, tiro um ou dois quadros de cera laminada do centro. No espaço vazio coloco os quadros com criação e sem abelhas. A colmeia que deu o(s) quadro(s) com criação recebe o(s) quadro(s) com cera laminada. Continuo a inspecção aos ninhos até encontrar outra colmeia que necessite da mesma intervenção. Faço novamente a mesma operação e o quadro com criação retirado vai juntar-se na colmeia com sobreninho que vou designar “colmeia armazém”. Nesta colmeia armazém não coloco mais que 4 a 5 Q com criação. Os restantes são quadros com mel e/ou pólen resultantes do desbloqueio de outros ninhos. Quando o sobreninho desta colmeia armazém está cheio com os 10 quadros resultantes das operações atrás descritas, crio uma nova colmeia armazém e prossigo o trabalho no apiário tal como descrevi. Em regra, levo a cabo estas operações 2 a 3 vezes durante o período de enxameação. Depois de passado o período de enxameação deixo de o fazer ou faço-o muito mais esporadicamente e para resolver alguma situação pontual e excepcional. Estes sobreninhos armazém são utilizado posteriormente para dar quadros e abelhas aos meus desdobramentos.

No ano de 2017, ano em que este procedimento se tornou regra no meu maneio, a taxa de colmeias enxameadas não chegou aos 5%. Ainda que seja cedo para tirar conclusões definitivas sobre a eficácia da regra na prevenção da enxameação, até pelo ano atípico, os resultados são encorajadores o suficiente para que neste ano de 2018 a volte a utilizar.

Resolvi construir este cenário com referência à colmeia Lusitana porque me parece que há uma regra oculta que nos impede de utilizar sobreninho nestas colmeias. Eu desconhecia essa rega e quebrei-a. Parece-me que não sou o único infractor (ver nestas duas afirmações ironia q.b.).  Utilizo sobreninho, as abelhitas têm tolerado bem esta mal-feitoria,  e os resultados agradam-me. Também utilizo os mesmos procedimentos com as Langstroth. Nestas últimas a utilização de sobreninhos parece-me que é muito mais comum. Sabendo que o volume interior dos dois tipos de ninhos se aproxima e sabendo que a configuração ninho mais sobreninho é utilizada com frequência no modelo norte-americano não vi razão forte para que não o experimentasse no modelo português. Em boa hora o fiz!