primeiras alças meleiras: com cera puxada ou cera laminada?

Uma das muitas dúvidas dos apicultores menos experientes é se a primeira meia-alça/alça meleira, a colocar imediatamente sobre o ninho, deve ser com cera puxada ou com cera laminada. Não havendo uma resposta universal, porque as condições locais variam muito, vou descrever o que faço por norma e porque o faço na zona onde tenho os meus apiários.

Fig. 1: Alça meleira com quadros com cera puxada

Durante o fluxo principal da primavera (na minha zona estou a pensar na floração da urgueira ou do rosmaninho até finais de abril/meados de maio), o néctar chega rápido e em quantidade, mais rápido do que as abelhas conseguem puxar a cera. Não tendo meias-alças ou alças com cera puxada sobre os ninhos, isso faz com que elas comecem a armazenar o néctar (ou xarope estimulante, se for em demasia na época pré-fluxo) no ninho/câmara de criação. O ninho bloqueado é uma dos principais factores que desencadeia o impulso de enxameação prematuramente no início da época, como sabemos. Sabemos ainda que o enxame sai com um bom número de abelhas em idade de produzirem cera. A colónia enxameada vai estar cerca de 3 semanas sem uma rainha em postura. Uma vez que esta inicie a postura, levará mais 3 semanas até a cria começar a emergir, outra semana a 10 dias antes que as abelhas jovens estejam na idade para se tornarem produtoras de cera. Somando tudo, a colónia não puxará muita cera nas próximas 7 semanas após a enxameação. Por um lado não precisam, têm muitos alvéolos à disposição, onde a cria está a emergir ou emergiu, juntando ao facto que não têm uma população preparada para fazer cera. Cerca de 7 semanas após a enxameação, a população é “corrigida” e agora a colónia mudou totalmente os modos, mudaram do modo “queremos reproduzir-nos” para o modo “queremos armazenar para o inverno”. Os fluxos posteriores são mais lentos (meados de maio até inicio/meados de julho) que os fluxos iniciais de primavera, as abelhas podem puxar cera tão rápido quanto a entrada de néctar, e fazem exatamente isso se as temperaturas não forem excessivas e houver alguma humidade na atmosfera.

As colónias que recebem uma meia-alça/alça puxada no início da primavera têm espaço para armazenar esse fluxo forte e rápido, de modo que não bloqueiam o ninho logo no início, em vez disso armazenam o néctar nos quadros puxados colocados logo acima do ninho. As colónias que não possuem este “armazém acabado” de cera puxada, vão puxando as lâminas de cera, mas simultaneamente armazenam boa parte do néctar no ninho porque não encontam outro lugar para colocá-lo.

a utilização dos núcleos para reforço das colónias dedicadas à produção de mel e/ou abelhas

Uma das leis mais sólidas em apicultura é a de que as colmeias mais populosas tendem, em condições normais, a serem as mais produtivas (ver lei de Farrar). Por outro lado há uma velha máxima em apicultura que diz que para produzir abelhas são precisas abelhas, isto é, colónias fortes.

Fig.1 : Exemplo de configuração de colmeia dedicada à produção de abelhas

Este objectivo de ter colónias muito fortes, colónias com 45 mil indivíduos ou mesmo algo mais, no início do fluxo, pode ser atingido se dedicarmos parte dos nossos enxames à doação de quadros com criação operculada às colónias que saíram fortes do inverno, colónias estas que ficam dedicadas à produção de mel e ou abelhas.

Os meios e os procedimentos para obtermos colónias tão populosas são variados. Este ano vou introduzir de forma mais sistemática uma forma de o fazer no meu cardápio de procedimentos e que até aqui só era utilizada pontualmente. Vou dedicar um conjunto de núcleos por apiário à tarefa de regularmente fornecerem quadros com abelhas prestes a emergir às colmeias de produção.

Estes núcleos não têm ainda a população para fazerem um excedente de mel para o apicultor no fluxo que na minha zona está à porta, mas estão à altura de darem uma preciosa ajuda às colmeias fortes para estas atingirem nas próximas duas semanas uma população de abelhas que só atingiriam em meados de maio, em condições normais. Serão núcleos “palmerizados” (neologismo originário do inglês palmerized) de forma regular e sistemática como nunca o tinha feito até aqui.

o maneio (in)adequado da abelha negra


Um vasto conjunto de técnicas modernas de apicultura foram desenvolvidas simultaneamente com a expansão das subespécies de abelhas mais populares: A. m. ligustica e A. m. carnica.

Fig. 1 : A. m. ligustica

A padronização do tamanho e estrutura das caixas de colmeias levou a técnicas universais de maneio em operações apícolas profissionais, primeiro no Novo Mundo e depois em muitos países europeus. Cursos, materiais didáticos, manuais e periódicos promoveram as novas técnicas. Toda a filosofia de maneio foi pensada e optimizada para as abelhas A. m. ligustica, A. m. carnica e A. m. caucasica.

Fig. 2: A. m. carnica

Estes são alguns exemplos desta filosofia de maneio: incluiu maneio brusco das colónias, evita o desdobramento/arrefecimento das colónias antes do fluxo do néctar principal, defende um grande espaço para a invernagem de colónias (ninho e sobreninho langstroth), exige baixa tendência de enxameação, recorre à remoção dos mestreiros para controle de enxameação e preconiza o uso intenso de fumo durante o maneio.

Muitos desses métodos são muito severos/inadequados para a abelha A. m. mellifera (abelha negra). Apicultores mantendo A. m. mellifera devem conhecer algumas técnicas mais antigas e desenvolver métodos e equipamentos mais ajustados ao maneio destas colónias [Manner, 1925]. A fisiologia, o comportamento e ciclo de vida anual de A. m. mellifera diferem de outras abelhas e devem ser consideradas nas técnicas de maneio. Surpreendentemente, isso não é comumente conhecido pelos apicultores [Ingvar Arvidsson, comunicação pessoal].

Fig. 3: A. m. mellifera

fonte: https://www.nordgen.org/wp-content/uploads/2017/03/BrownBeeReport2014NordGen.pdf

Nota: reescrever alguns capítulos do manual de maneio da nossa A. m. iberiensis pode e deve ser feito na minha opinião. Temos bons apicultores na península com conhecimentos para isso. Não tenho ideia da sua motivação para os partilharem.

Fig. 4: A. m. iberiensis

quadros iscados: vantagens e desvantagens

Na tentativa de atingir um ou vários objectivos em simultâneo alguns apicultores utilizam quadros iscados (quadros com uma tira de cera laminada de 2 cm ou mais), deixando às abelhas a tarefa de completar com favo natural a restante superfície do quadro.

Fig. 1 Quadro iscado

Regra geral esta opção visa um ou vários objectivos:

  • redução dos gastos com cera laminada;
  • reduzir a quantidade de resíduos químicos na cera;
  • deixar às abelhas a escolha da dimensão do alvéolo;
  • combater o varroa;
Fig.2: Abelhas cerieiras construindo favo

Sendo relativamente consensual entre os apicultores que os quadros iscados permitem atingir estes objectivos, fico com a ideia que alguns de nós leram apenas o primeiro capítulo deste livro e não tiveram tempo para ler ou ignoraram o segundo capítulo da obra. Vejamos com mais amplitude.

Vários apicultores nacionais e estrangeiros, entre os quais me incluo, que tentaram no passado, alcançar um ou vários dos objectivos atrás elencados, depararam-se com um resultado que os surpreendeu. Muitos dos favos construídos pelas abelhas apresentavam um grande número de alvéolos de zângão. Em alguns casos, a nova cria de zangãos situava-se entre os 25% a 50% da população total: por cada duas abelhas foi criado um zângão, nos casos mais extremos. Como não pode deixar de ser, vastas quantidades de recursos da colmeia vão para a alimentação deste mar de larvas de zângão, recursos que continuam a ser gastos durante a sua adultez. Em vez de ter obreira lá fora, colectando mel e criando mais obreiras, o apicultor tem milhares de zângãos (podendo ultrapassar os 10 mil por colónia), deambulando pelas colmeias, transferindo não só o seu charme mas também doenças e parasitas entre colmeias e esperando para serem alimentados.

Está relativamente bem estabelecido que as colónias de abelhas selvagens criam cerca de 25%-30% de zângãos, a maioria no período de pré-enxameação. Esta elevada quantidade de zângãos foi definida por milhões de anos de evolução da espécie. Este comportamento é instintivo e universal. Sempre que o apicultor coloca na sua colmeia quadros iscados no período pré-enxameação, numa colmeia forte, numa colmeia com uma rainha madura e num período de expansão/crescimento da colónia não se deve surpreender que cerca de um terço da criação total da colónia seja de zângãos.

O que fazem os apicultores para contrariar, em parte, este comportamento? Colocam cera estampada com alvéolo de obreira a cobrir praticamente toda a superfície do quadro. Assim conseguem reduzir para 10%-15% a quantidade de alvéolos de zângão produzidos pelas abelhas numa temporada. Existem muitas razões pelas quais os apicultores desenvolveram a cera pré-estampada, e esta é uma delas.

Uma coisa a lembrar é que a maioria da cria de zângão é feita no início da primavera, pouco antes e durante a época da enxameação reprodutiva. Depois desta época a criação de zângãos baixa acentuadamente. Ou porque desejamos poupar algum dinheiro na cera, ou por outro motivo, esta será a janela de oportunidade para utilizar os quadros iscados: no período pós-enxameação reprodutiva, nunca antes e/ou durante este período. Conhecendo mais e melhor as abelhas permite-nos trabalhar lado a lado com elas, numa simbiose cada vez mais completa.

As abelhas em regra dão o que os apicultores desejam, mas devemos conhecer os ciclos, os timings, os mecanismos subjacentes, para os utilizar em nosso favor e tudo isto sem lhes causar dano, pelo contrário ajudando-as a defender-se dos seus inimigos. E na actualidade ter menos criação de zângãos nas colmeias é mais saudável que ter mais criação de zangãos, como todos sabemos.

dicas para encontrar a abelha rainha

Fig.1 : Rainha (Queen); Abelha (Worker); Zângão (Drone)

Começando pelas características únicas da rainha:

  • a. Mais comprida que as abelhas;
  • b. Mais delgada que os zângãos;
  • c. O seu tórax é mais proeminente e visível que o das abelhas;
  • d. As suas asas não se estendem até ao final do abdómen;
  • e. As suas pernas são mais compridas ou do “tipo aranha”.

Quando os objectivos a atingir com o maneio tornam inevitável encontrar a rainha em alguma das minhas colónias tenho por hábito seguir estes procedimentos:

  • abro a colmeia muito suavemente;
  • não utilizo fumo;
  • tiro o quadro mais lateral e do lado quente da da colmeia para ter espaço para deslocar os restantes quadros dentro da mesma; 
  • identifico o primeiro quadro com ovos e/ou larvas e/ou alvéolos vazios mas luzidios pela fina camada de propolis que os prepara para a ovoposição da rainha;
  • chego este quadro para o lado e antes de o levantar dou um rápido vislumbre (cerca de 10 segundos) ao quadro seguinte sem o tirar do lugar. Com alguma frequência a rainha está neste quadro seguinte, e consigo descortiná-la com alguma facilidade dado o seu tórax  mais saliente/proeminente.  Se neste quadro não vislumbrar a rainha levanto o quadro com criação que antes tinha chegado para o lado;
  • neste quadro procuro a rainha varrendo cada face do mesmo com o olhar por cerca de 30 segundos;
  • em regra a rainha é o indivíduo mais calmo na face do quadro e aquele que não procura ingerir mel. Estes aspectos comportamentais distintivos, para além dos morfológicos referidos em cima, ajuda-nos a reparar no que é diferente do resto e neste caso será muito provavelmente a rainha;
  • se não a encontrar neste quadro passo ao adjacente e repito o procedimento;
  • se não encontrar a rainha nos 2 ou 3 quadros existentes com ovos/criação aberta/alvéolos volto a colocar os quadros na mesma posição e fecho a colmeia;
  • se os objectivos não me permitirem aguardar pelo dia seguinte volto a repetir estes procedimentos 15-30 minutos depois.

Com estes procedimentos encontro 80%-90% das rainhas nos primeiros 2 a 4 minutos. Devo acrescentar que a grande maioria das rainhas que tenho não estão marcadas.

Este maneio pressupõe duas atitudes básicas:

  • aceitar que é necessário atenção concentrada, suavidade e algum tempo (cerca de 1 minuto por cada um dos 2 ou 3 quadros com as características referidas atrás)  para encontrar um indivíduo no meio de alguns milhares de indivíduos semelhantes;
  • acreditar que se não vislumbrámos a rainha durante 1 minuto de observação atenta daquele quadro devemos procurá-la no seguinte. Como as rainhas preferem a sombra não devemos demorar demasiado tempo antes de avançar para o quadro seguinte, de forma a evitar que ela se esconda no canto mais escuro da colmeia.

Uma nota a terminar: se a colmeia tiver ninho e sobreninho começo por observar a caixa que aparenta ter mais abelhas. O sobreninho coloco-o sempre sobre um tampo/telhado invertido para evitar o mais possível o esmagamento de abelhas e sobretudo da rainha.

maximizar o crescimento primaveril de uma colónia de abelhas

Neste vídeo Randy Oliver apresenta a uma audiência de apicultores canadianos um conjunto de ideias que ele segue para maximizar o crescimento primaveril das suas colónia situadas na Califórnia. Como se costuma dizer toda a apicultura é local. Contudo sendo as condições edafoclimáticas, os timings e algumas necessidades, diferentes de zona para zona, podemos aprender com este apicultor californiano tanto quanto os nossos companheiros canadianos o fazem.

Para a minha zona e com aplicabilidade destaco as seguintes ideias retiradas desta bela palestra de Randy Oliver:

  • ajustar o maneio das colónias aos objectivos: produzir mel, fazer pacotes, efectuar polinização, criar rainhas, produzir núcleos, …?;
  • preparar a primavera seguinte no final do verão anterior com o controlo atempado da varroa, com o fim de reduzir o impacto negativo do vírus das asas deformadas na longevidade da nova geração de abelhas que irão invernar;
  • estimular a postura da rainha no final do verão/início do outono com pasta proteica, se houver pouco pólen disponível no exterior, para ter mais abelhas a invernar;
  • conhecer os timings dos primeiros fluxos de pólen: tipicamente a colónia atinge a pulsão enxameatória 60 a 90 dias após a primeira entrada significativa de pólen;
  • prevenir a enxameação: colónia enxameadas necessitam 30 a 60 dias para recuperar a população de abelhas perdidas;
  • compreender a transição de abelhas de inverno para abelhas de verão: quando a criação começa a aumentar e as abelhas de inverno começam a morrer, a colónia passa por um período crítico de reequilíbrio populacional,  mais difícil ainda se as condições climatéricas forem desfavoráveis;
  • (MUITA ATENÇÃO aos 22′ 20” em que Randy Oliver mostra um belo quadro com criação fechada de uma ponta à outra, retirado de uma colónia no mês de Fevereiro, colónia esta com apenas três quadros de abelhas; Randy questiona a audiência acerca do futuro para esta colónia se as temperaturas nocturnas descerem muito: resposta a colónia está condenada; o número de abelhas disponíveis para aquecer tanta criação é insuficiente e o número de abelhas que nascerão não será suficiente para substituir as abelhas de inverno que estão a morrer em maior número cada dia que passa; será campo fértil para o surgimento de nosemose ceranae e loque europeia);
  • estar atento ao crescimento linear de uma colónia que se inicia com a estabilização do ninho (cerca de 5 quadros com criação) e continua durante cerca de 60 dias: nesta fase nascem 400-500 abelhas/dia, isto é, ao fim de 4 a 5 dias temos mais um quadro coberto de abelhas;
  • não esquecer que as rainhas atingem o pico de postura quando as abelhas cobrem 10 ou mais quadros;
  • não esquecer que a população de abelhas máxima de uma colónia corresponde a 42 vezes a taxa de ovoposição de uma rainha: se uma rainha põe 1000 ovos/dia a população máxima da colónia será de 42000 abelhas; a média de ovoposição de uma rainha nova é de 1500 ovos/dia;
  • não esquecer que as rainhas gostam do efeito chaminé alcançado quando se coloca um sobreninho com ceras já puxadas o que lhes permite “subir” e iniciar aí a postura; assim estamos a maximizar a postura da rainha e a prevenir a enxameação;
  • colónias grandes e em rápido crescimento necessitam de entrada de muito pólen; se as condições climatéricas não permitem o pastoreio a produção de geleia real diminui imediatamente (1 hora após o início de chuvadas por ex) e em casos mais graves as abelhas canibalizam os ovos e as jovens larvas para suprir algumas necessidades proteicas;
  • a escassez de alimento e a mortalidade por fome ocorre mais no início da primavera que durante o inverno;
  • importa monitorar a quantidade de alimento dado às larvas: larvas a nadar em geleia é muito bom sinal; larvas em alvéolos quase secos é sinal de desequilíbrio nutricional corrigido com suplementos proteicos;
  •  alimentar sempre que na primavera há vários dias seguidos com condições climatéricas que impeçam as abelhas de sair; nesta altura as reservas são as suficientes apenas para o dia-a-dia;
  • o gatilho para a  enxameação surge quando não existe feromona da criação emitida pelas larvas jovens antes da operculação;
  • é necessário quebrar a abóboda de mel no topo dos quadros para levar as abelhas a armazenarem o mel nas alças meleiras, sobretudo se estas alças tiverem apenas cera laminada;
  • inverter a posição do ninho com criação fechada e o sobreninho com criação aberta diminui a pulsão para enxamearem; a criação fechada irá emergir nos dias seguintes criando uma nova “cavidade” vazia que engana as abelhas e refreia a sua vontade de enxamearem;
  • happy beekeeping.

a regra “não mais de 6”: sua operacionalização

Aproveito a pertinente questão do Alberto como motivo para fazer este post.

Para aplicar a regra “não mais de 6” utilizo uma estratégia muito simples. Imaginemos o seguinte cenário: num apiário de 40 colmeias lusitanas, identifico uma colmeia que tenha boas condições para receber um sobreninho (caixa igual ao ninho). Esta colmeia tem de estar muito forte de abelhas. Nessa colmeia coloco o sobreninho com 10 quadros com boa cera laminada. Passo a fazer a inspecção das restantes colmeias. Encontro uma colmeia com 7 ou 8 quadros de criação. A esta colmeia vou tirar um ou dois quadros com criação e conformá-la assim com a regra. Em geral tiro quadros com criação e que simultaneamente estejam parcialmente bloqueados com pólen e/ou mel. Na colmeia com sobreninho, anteriormente preparada, tiro um ou dois quadros de cera laminada do centro. No espaço vazio coloco os quadros com criação e sem abelhas. A colmeia que deu o(s) quadro(s) com criação recebe o(s) quadro(s) com cera laminada. Continuo a inspecção aos ninhos até encontrar outra colmeia que necessite da mesma intervenção. Faço novamente a mesma operação e o quadro com criação retirado vai juntar-se na colmeia com sobreninho que vou designar “colmeia armazém”. Nesta colmeia armazém não coloco mais que 4 a 5 Q com criação. Os restantes são quadros com mel e/ou pólen resultantes do desbloqueio de outros ninhos. Quando o sobreninho desta colmeia armazém está cheio com os 10 quadros resultantes das operações atrás descritas, crio uma nova colmeia armazém e prossigo o trabalho no apiário tal como descrevi. Em regra, levo a cabo estas operações 2 a 3 vezes durante o período de enxameação. Depois de passado o período de enxameação deixo de o fazer ou faço-o muito mais esporadicamente e para resolver alguma situação pontual e excepcional. Estes sobreninhos armazém são utilizado posteriormente para dar quadros e abelhas aos meus desdobramentos.

No ano de 2017, ano em que este procedimento se tornou regra no meu maneio, a taxa de colmeias enxameadas não chegou aos 5%. Ainda que seja cedo para tirar conclusões definitivas sobre a eficácia da regra na prevenção da enxameação, até pelo ano atípico, os resultados são encorajadores o suficiente para que neste ano de 2018 a volte a utilizar.

Resolvi construir este cenário com referência à colmeia Lusitana porque me parece que há uma regra oculta que nos impede de utilizar sobreninho nestas colmeias. Eu desconhecia essa rega e quebrei-a. Parece-me que não sou o único infractor (ver nestas duas afirmações ironia q.b.).  Utilizo sobreninho, as abelhitas têm tolerado bem esta mal-feitoria,  e os resultados agradam-me. Também utilizo os mesmos procedimentos com as Langstroth. Nestas últimas a utilização de sobreninhos parece-me que é muito mais comum. Sabendo que o volume interior dos dois tipos de ninhos se aproxima e sabendo que a configuração ninho mais sobreninho é utilizada com frequência no modelo norte-americano não vi razão forte para que não o experimentasse no modelo português. Em boa hora o fiz!

mortalidade de colónias de abelhas nos EUA: que relação com o maneio

Esta palestra dada por Dennis van Engelsdorp, entomólogo e Director do Projecto “Bee Informed Partnership”, dá-nos a conhecer um conjunto de dados e correlações entre opções de maneio e sobrevivência vs. mortalidade de colónias de abelhas. Estes dados foram recolhidos por inquérito aos apicultores dos EUA e ao longo dos últimos anos. Dennis van Engelsdorp apresenta um conjunto de fenómenos que se têm repetido ao longo destes anos em circunstâncias semelhantes. No seu entender esta repetição ajuda a definir tendências e, em última instância, a estabelecer algumas relações fortes e fiáveis entre a sobrevivência ou a morte de uma colónia de abelhas e o maneio levado a cabo pelo apicultor. Não esquecendo que “para cada problema complexo existe uma resposta que é clara, simples… e errada.”

Pontos que destaco:

  • maior perda de colónias durante a primavera e verão que no outono/inverno no último ano inquirido;
  • por ano os apicultores profissionais perdem menos colmeias (cerca de 20%) que os apicultores não-profissionais nos EUA (cerca de 45%);
  • cerca de 60% dos apicultores nos EUA não realiza tratamentos contra a varroa (a maior parte são apicultores não-profissionais);
  • 3 ácaros por 100 abelhas adultas justificam o início do tratamento (ver também aqui);
  • tratar com 5 ácaros por 100 abelhas pode ser tarde demais para algumas colónias (ver também aqui);
  • os ácaros são vectores de transmissão horizontal de virús entre abelhas, aspecto que se julga estar a aumentar a sua virulência;
  • tipicamente atingem-se picos de infestação nos meses de setembro e outubro;
  • apesar dos tratamentos terem sido efectuados nas colmeias, a infestação pode subir enormemente no mês de setembro/outubro devido à transferência de varroas de colónias de apiários vizinhos que estão a colapsar com varroose;
  •  o amitraz,  fórmico e o oxálico são os produtos mais eficazes no controlo dos ácaros;
  • quem alimenta com açucar ou pasta de açucar perde menos colónias do que quem não alimenta;
  • quem alimenta com quadros com mel provenientes das colmeias colapsadas perde mais colónias do que quem não o faz;
  • alimentar com proteínas no outono ou na primavera é uma boa prática;
  • mudar mais de 50% dos quadros do ninho por ano tem um impacto negativo nas colónias;
  • mudar 1 ou 2 quadros do ninho por ano é melhor do que não mudar nenhum;
  • colónias iniciadas partir de pacotes de abelhas apresentam a pior taxa de sobrevivência;
  •  colónias iniciadas por divisão/desdobramento de colónias existentes apresentam a melhor taxa de sobrevivência;
  • quem substituiu as rainhas no ano anterior apresenta menor taxa de mortalidade do que quem não o fez.

Vários dos aspectos destacados nesta apresentação já foram abordados neste blogue. Ainda que a realidade portuguesa seja em parte diferente da norte-americana, muitas das conclusões e pontos destacados têm servido e continuarão a servir-me de orientação no meu maneio. E o resultado tem sido muito positivo até agora (ver aqui e aqui)

falta de eficácia dos acaricidas ou falta de jeito do apicultor?

 

Fig.1: Esquema representando a interacção das abelhas com as tiras de Apivar que funcionam por contacto.

Neste esquema fica evidente que para as tiras de Apivar funcionarem é necessário que as abelhas contactem com as mesmas para se impregnarem com o amitraz  que depois o espalharão também por contacto a outras abelhas . Este é o princípio de funcionamento de todos os tratamentos contra a varroa que funcionam por contacto.

David Quesada, conceituado apicultor e blogger espanhol, apresenta aqui um conjunto de advertências,  feitas já também por aqui, acerca da necessidade de colocar as tiras acaricidas entre quadros com criação, em especial nos tratamentos de de verão/início de outono. Como as tiras acaricidas funcionam por contacto o local indicado para as colocar é onde há mais abelhas: no centro das zonas de criação.

Por ejemplo, si dice que se utilicen dos tiras, no colocar una porque pensemos que tenemos pocos cuadros de abeja y que con una basta, ya que así estaremos aplicando una dosis menor a la indicada. La colocación adecuada de las tiras anti varroa es también imprescindible, siempre dentro del nido de cría, en contacto con los cuadros con cría. Esto exige, en el momento del tratamiento, buscar y ver cuantos cuadros de cría hay y donde están para insertar entre ellos el tratamiento. Colocar las tiras en cualquier sitio, a ojo, sin realizar esta búsqueda hará que las abejas no entren en contacto con ellas resultando ineficaz, ya que el acaricida que portan las tiras actúa por contacto.

Todo esto puede parecerte obvio, pero aunque te cueste creerlo,  quienes trabajamos codo con codo con los apicultores lo vemos con más frecuencia de la que nos gustaría. La incorrecta aplicación de los tratamientos es uno de los hallazgos y conclusiones que hemos sacado de los últimos estudios llevados a cabo en el marco del Programa de Vigilancia Piloto de las Enfermedades de las Abejas que desde el año 2012 venimos realizando en España bajo la coordinación del Ministerio de Agricultura.

Como escreve Quesada constata-se que aplicação incorrecta de tratamentos é muito mais frequente que o esperado. Será que em Portugal é muito diferente? Não creio. Quando por cá se fala de ineficácia dos tratamentos acaricidas por contacto, eu leio falta de jeito dos apicultores, senão em todos os casos numa boa parte deles. Ver este post relacionado, entre outros.

Um velho ditado português “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” aplicado a este contexto seria “diz-me onde colocaste as tiras e dir-te-ei que eficácia alcançarás”.

Nota: para aumentar a eficácia dos tratamentos com acaricidas que funcionam por contacto há necessidade de recolocar as tiras sempre que a zona de criação se desloque.

colmeias e suas configurações

As fotografias em baixo pretendem ilustrar as principais configurações de colmeia que utilizo. Apesar da sua importância este é um tema que me parece pouco abordado.

 

 

 

Fig.1 : Imagem geral de um apiário.

 

 

Fig.2: Colmeias com uma só câmara a ninho e meias-alças meleiras.

 

 

 

Fig.3: Colmeia com duas câmaras a ninho e 2 meias-alças meleiras (colmeia mais alta do assento).

 

 

 

Fig.4: Colmeia dividida com tabuleiro divisor (colmeia com pedra sobre o tecto).

 

Na minha opinião a tomada de decisão acerca da configuração a adoptar para esta ou aquela colmeia, mais do que regras escritas na pedra, deve ter em conta a força do enxame e o grau de desenvolvimento que dele se prevê (ver mais detalhes aqui).