feromona mandibular da rainha e comportamento defensivo

O comportamento defensivo é uma das características mais conhecidas de uma colónia de abelhas e consiste no reconhecimento de predadores, no alertar as companheiras e adotar comportamentos anti-predador (desde posturas de ameaças, até zumbidos e, finalmente, picadas). O comportamento defensivo está intimamente ligado à feromona de alarme, mas também à feromona mandibular da rainha (FMR).

A presença da rainha parece ser importante na regulação do comportamento defensivo de uma colónia, uma vez que foi observado que as colónias sem rainha exibem um comportamento defensivo maior em comparação com o que é exibido pelas colónias com rainha. Estes dados são reforçados por estudos que demonstraram que a FMR sintética diminuiu a resposta de picadas de abelhas colocadas em gaiolas (Kolmes e Njehu, 1990). O efeito da FMR sobre o comportamento defensivo da colónia foi recentemente confirmado por Gervan et al. (2005), que mostraram que a administração de FMR sintético reduz significativamente o comportamento defensivo em colónias com rainha e que no caso de colónias sem rainha se verifica uma diminuição no número de abelhas guardiãs e uma ligeira redução da reação de picada. Vergoz et al. (2007), descobriram que a FMR bloqueia a aprendizagem de comportamentos aversivos em jovens obreiras.

Destes dados tirei duas aplicações práticas:

  1. durante o período de enxameação explico a alguns proprietários de terrenos vizinhos aos meus apiários que alguma agressividade das abelhas é temporária e recomendo que se protejam e/ou procurem trabalhar esses terrenos em horários mais matinais;
  2. no meu maneio permite-me verificar de uma forma rápida e não intrusiva se colónias anteriormente orfanizadas já têm rainha em postura: se ao levantar a prancheta do ninho ou ao passar a mão calçada com a luva de apicultor numa passagem rasante ao topo dos quadros um bom número abelhas ficarem irritadas muito provavelmente ainda não têm rainha em postura; se pelo contrário manifestarem uma relativa indiferença a estes gestos muito provavelmente já têm rainha em postura.

Nota: A FMR sintética já é comercializada por algumas casas especializadas. Em baixo estão dois links que apresentam este produto:

  • http://pheromonehelper.ca/en/honey-bee-pheromones/tempqueen.html
  • https://www.etnamiele.it/attrezzature-apistiche/1508-pseudoqueen-feromoni-artificiali-regine.asp

Fontes:

  • Kolmes S.A, Njehu N. Effect of queen mandibular pheromones on Apis mellifera worker stinging behavior (Hymenoptera: Apidae) J New York Entomol S. 1990;98(4):495–98;
  • Gervan N, Winston M, Higo H, Hoover S. The effects of honey bee (Apis mellifera) queen mandibular pheromone on colony defensive behaviour. J Apicult Res. 2005;44:175–79.
  • Beggs K.T, Glendining K.A, Marechal N.M, Vergoz V, Nakamura I, Slessor K.N, Mercer A.R. Queen pheromone modulates brain dopamine function in worker honey bees. Proc Natl Acad Sci U S A. 2007;104:2460–64.

fundamentos de uma apicultura produtiva segundo C. L. Farrar

Clarence L. Farrar, foi um entomólogo norte-americano, que fez muitas e relevantes análises e reflexões em torno dos factores determinantes da produtividade em colmeias. Deixo em baixo alguns dos dados por ele observados e algumas das linhas do seu pensamento.

As boas rainhas raramente colocam mais de 1.600 ovos por dia. São necessários vinte dias para que a criação amadureça. As abelhas adultas vivem de 4 a 6 semanas durante a estação ativa, e a sua longevidade é grandemente influenciada pela intensidade da criação existente no ninho. As abelhas de pequenas colónias, que criam uma quantidade proporcionalmente grande de abelhas novas, têm vidas mais curtas do que as abelhas de colónias mais populosas. A quantidade de novas abelhas a nascer é influenciada pela capacidade de colocação de ovos da rainha, pela população adulta da colónia, pelo fornecimento de pólen e mel, e pelo espaço disponível no ninho para a postura da rainha.

Uma colónia populosa produz mais criação do que uma colónia pequena, contudo apresenta uma proporção mais elevada de abelhas disponíveis para recolher o pólen e o néctar. A produção por abelha  é consideravelmente maior em colónias mais fortes do que em colónias menores, uma vez que proporcionalmente menos abelhas estão envolvidas nos cuidados a prestar à criação. Durante uma melada de 2 semanas, uma colónia com 60.000 abelhas produzirá 50% mais mel do que quatro pequenas colónias, cada uma com 15.000 abelhas (ver aqui a célebre regra de Farrar bem explicada) . Sob um fluxo mais longo, as quatro pequenas colónias aumentarão em população, reduzindo assim a diferença de rendimento entre uma colónia forte e as quatro pequenas colónias. Não há nenhuma vantagem, contudo, em manter colónias pequenas apenas porque sua eficiência de armazenamento aumenta. É melhor gerir o apiário para ter todas as colónias direccionadas à produção na eficiência máxima durante todo o fluxo.

No meu caso particular encontro na equalização uma ferramenta muito útil para fazer a gestão do apiário no sentido que Farrar preconiza.

um inverno quente é bom para as abelhas?

As abelhas, em geral, invernam melhor quando a temperatura exterior mantém o cacho invernal tranquilo e a consumir muito pouco mel. Muitos consideram que a temperatura ideal se situa entre -1ºC e  +5ºC. Os apicultores canadianos, sabendo isto, mantêm as temperaturas nos armazéns onde albergam as suas colmeias em torno dos 5ºC.  Embora as abelhas não hibernem como os ursos, elas aglomeram-se em camadas, produzem calor, comem e esperam por dias mais quentes. Acima dos 5ºC as abelhas consomem mais. Estranhamente ou não, com temperaturas abaixo de -1ºC as abelhas necessitam de gerar mais calor, acabando também por consumir mais.

Outro aspecto a considerar, neste equilíbrio entre temperaturas externas e consumo, é o número de abelhas que a colónia tem. Uma colónia mais densamente povoada está apta a gerar e fornecer o calor necessário durante os picos mais extremos de frio. Uma grande colónia pode gerar mais calor com menos consumo de mel. As colónias mais fortes também mudam o local do cacho e expandem-no mais vezes do que as colónias mais fracas. Todos já encontrámos colónias pequenas que morreram durante inverno e com abundância de mel logo ali ao lado. Isto acontece porque estas colónias não conseguem manter a temperatura no cacho que lhes permita deslocarem-se para o quadro ao lado cheio de mel. Neste caso, o inverno não matou a colónia, mas porventura um verão demasiado seco, ou acaricidas colocados demasiado tarde, portanto uma deficiente gestão do apicultor que durante o fim do verão e outono não lhes deu o suporte que elas necessitavam, por exemplo alimentando-as. A minha opção pelo tipo de alimento a colocar, tem nos últimos dois anos ido para o fondant, também conhecido por pasta de açúcar, que começo a aplicar no final do verão (Setembro) até ao início da primavera seguinte em todas as colmeias mais leves.

Fig. 1: O fondant colocado no local do óculo da prancheta permite às abelhas alimentarem-se facilmente sempre que as temperaturas exteriores estão acima dos 10-12ºC.

Fig. 2: O fondant colocado directamente sobre os quadros permite às abelhas alimentarem-se facilmente sempre que as temperaturas exteriores estão abaixo dos 10ºC.

VSH (Varroa Sensitive Hygiene): o vídeo

Este pequeno vídeo capta abelhas com o traço VSH (Varroa Sensitive Hygiene), combatendo o ácaro varroa. Estas abelhas VSH conseguem detectar o ácaro varroa nos alvéolos ainda operculados. Estas abelhas localizam as pupas infestadas, removem o opérculo de cera, removem as pupas (que serão comidas). Esta atividade interrompe a reprodução do ácaro, mantendo o parasita num nível tolerável para a colónia. Fonte do vídeo: USDA ARS Baton Rouge Honey Bee Lab. Publicado a 13 de dezembro de 2016

alvéolos reais: como os interpretar

Para o apicultor que se está a iniciar na apicultura a correcta interpretação do que dizem os alvéolos reais, em especial na época de enxameação, é crucial para o seu entendimento do que se está a passar na colónia, o que o qualifica para uma intervenção mais adequada e ajustada à realidade da mesma.

Quando vir no fundo dos quadros vários alvéolos reais muito provavelmente a colónia está para enxamear ou já enxameou.fig-0611-600x450

No período da enxameação o apicultor deve verificar com uma frequência semanal se as abelhas estão a criar alvéolos reais no fundo dos quadros, em particular nas colónias que tenham atingido ou passado os 6 quadros com áreas extensas de criação. Inclinar num ângulo de 45º o corpo do ninho em relação ao estrado e dar uma espreitadela ao fundo dos quadros pode trazer um bom retorno ao apicultor.

Contudo nem sempre os alvéolos reais de enxameação surgem (só) no fundo dos quadros.

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Às vezes surgem nas zonas laterais dos quadros, especialmente se houver depressões ou irregularidades nas superfícies laterais destes. Contudo, em regra, quando as abelhas criam alvéolos reais nestas zonas dos quadros também os criam no fundo dos quadros. Portanto a inspecção ao fundo dos quadros continua a dar boas garantias, mesmo nestas circunstâncias, de uma boa interpretação.

Quando vir no seio de uma zona de criação um a dois alvéolos reais e não encontrar mais muito provavelmente está numa situação de supersedure eminente.

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Nesta situação as abelhas irão substituir a velha rainha por uma nova. Estes alvéolos reais não devem ser destruídos para não pôr em causa a sucessão da velha rainha.

Quando encontrar alguns alvéolos reais construídos nas zonas periféricas da zona de criação e se eles se formam a partir dos alvéolos de obreira (alvéolos reais de emergência) muito provavelmente estará na presença de uma colónia que ficou subitamente orfã e que está a tentar criar a sua próxima rainha. Não deve destruir estes alvéolos reais se não tem planos ou possibilidades de fornecer alvéolos reais ou uma rainha a esta colónia.

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Em regra nos períodos de crescimento pujante das colónias, períodos de um bom fluxo de pólen e néctar, encontram-se com frequência vários cálices reais. Não indicam necessariamente que a colónia se prepara para enxamear nas próximas semana, mas deve manter no radar estas colónias e inspecioná-las semanalmente.

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Se estes cálices se apresentarem com geleia real e com uma larva em cada um deles o processo de criação de novas rainhas foi iniciado.

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A terminar uma nota: um abelha ocupa uma área no quadro equivalente a cerca de 3 alvéolos. Sendo assim um quadro cheio de criação fechada fornecerá abelhas suficientes para cobrir  cerca de 3 quadros. Compreendemos melhor com estes números como uma colónia fica, num espaço de no máximo 12 dias, subitamente cheia de abelhas, às vezes demasiado cheia para o espaço que o apicultor lhes dá.

abelha buckfast ou nenhum homem é uma ilha

O irmão Adam (Karl Kehrle 1898-1996) para responder à designada “doença da ilha de Wight”criou uma abelha híbrida que ficou mundialmente conhecida pela designação abelha buckfast.

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Fig. 1: O irmão Adam e a abadia de Buckfast

Esta abelha tem qualidades muito apreciadas pelos apicultores: boa produtora, resistente a doenças, pouco enxameadora, pouco defensiva. Estas qualidades devem-se ao conhecido “vigor híbrido” característico do cruzamento na primeira geração (F1). Contudo não está garantido que estas características sejam passadas às gerações seguintes. Para o garantir é necessário proceder à inseminação instrumental/artificial ou garantir zonas de congregação de zângãos suficientemente isoladas. Tanto quanto sei os criadores alemães parecem reunir estas condições e têm credibilidade neste nicho de mercado. Quanto à credibilidade de vários fornecedores de linhas buckfast podem ler aqui as dúvidas que o conceituado apicultor britânico Roger Patterson tem.

Como consequência os utilizadores da abelha buckfast ficam dependentes dos criadores de linhas credíveis (alemães muito provavelmente) e necessitam de renovar as rainhas a intervalos regulares de 1 a 2 anos, antes que as abelhas decidam fazê-lo naturalmente (enxameação ou supersedure) . Se assim não o fizerem as suas linhas buckfast depressa degenerarão com os cruzamentos com as linhas nativas (no nosso caso a iberiensis), donde resultarão linhas de características misturadas e imprevisíveis e geralmente muito agressivas.

Entretanto os apiários vizinhos com linhagens nativas podem ter sido desarranjados pela introdução das linhas buckfast nas imediações. Estes são os primeiros a receber o impacto de ter um vizinho apicultor que inopinadamente, ou por estar deficientemente informado, decidiu experimentar a abelha buckfast.  Lembra-me a frase que alguns infelizmente vão esquecendo ou pior ignorando: nenhum homem é uma ilha!

poupar cera… as abelhas e as suas circunstâncias

Os preços actuais que pago por cera de boa qualidade são 12 € por kilograma. E mesmo estando disposto a pagar este preço por um produto de  qualidade, logo surge um outro problema: ela é escassa e nem sempre se encontra.

Há cerca de 3 ou 4 anos atrás para baixar os gastos com a cera e para experimentar as teses do alvéolo pequeno/alvéolo à vontade das abelhas e o corte da criação de zângão, como medida de controlo da varroa, decidi colocar apenas um pequena tira com 2 cm de cera em vários quadros (quadros iscados). Desta forma as abelhas eram obrigadas a construir o favo restante de acordo com os seu próprios critérios. Alguns destes quadros coloquei-os no centro da câmara de criação e outros na posição 9. Estes últimos visaram estimular a criação intensiva de zângãos que funcionaria como armadilha para as varroas com o posterior corte dos mesmos. Mas é dos quadros que coloquei no centro do ninho que desejo falar.

Ao realizar esta experiência estava convencido que os quadros iscados (com a tira de cera de apenas 2 cm) colocados bem no interior da zona de criação iriam ser puxados com rapidez e com alvéolos de obreira. A primeira expectativa realizou-se mas a segunda não. Isto é, as colmeias estavam fortes, com vontade de puxar cera e puxaram-na a bom ritmo, mas na grande maioria puxaram-na com alvéolos de zângão. Obviamente este não era o resultado que eu pretendia. Assim sendo deixei de utilizar os quadros iscados, tirando as excepções de colónias onde me interessa pelas suas características genéticas que produzam mais zângãos do que naturalmente produziriam.

Este ano. contudo vou voltar à carga com esta medida: vou voltar a iscar uma boa quantidade de quadros. O que mudou? As abelhas seguramente que não. Mudei eu, ou melhor mudou aquilo que julgo saber. Sei que as colmeias fortes por norma fazem aquilo que já relatei. Assim, em colónias fortes só utilizarei folhas/lâminas completas de cera. Por outro lado, sei que as colónias/núcleos com uma rainha nova, acabadinha de fecundar, com uma força menor, têm pouca propensão a construírem alvéolos de zângão nos quadros iscados. É nestas colónias que irei fazer a poupança de umas centenas de lâminas de cera. Importa-me conhecer as abelhas e seu comportamento circunstanciado, por forma a utilizar com benefício quer para elas quer para mim a sua inteligência colectiva.

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Fig. 1 — Quadro iscado 

raças de rainhas muito prolíferas: algumas reflexões

Roger Patterson tem uma reflexão muito interessante no www.dave-cushman.net acerca da prolificidade de certas raças de abelhas. Como é seu hábito, acrescento eu!

Ele começa por dar o significado de uma rainha prolífera: aquela que tem uma taxa elevada de ovodeposição/postura; não significa uma colónia vigorosa como alguns podem pensar.

Neste domínio ele distingue três raças de abelhas: as abelhas italianas (A.m. Ligustica), raça muito prolífera durante todo o ano; as carniolas (A.m. Carnica) muito prolíferas na primavera e verão; e, finalmente, a abelha negra (A.m. Mellifera) muito adaptada a invernos e verões imprevisíveis. Estas últimas são abelhas autóctones no Reino Unido e Irlanda.

Acerca das rainhas prolíferas R. Paterson faz a seguinte análise:

  • Em geral são de cor amarela (abelhas italianas)
  • Irão manter a postura durante o inverno. A varroa continuará a crescer nesta época do ano.
  • As abelhas italianas necessitam 2,5 vezes mais reservas que as menos prolíferas.
  • Em períodos de más condições climatéricas continuam a postura convertendo as reservas em criação desnecessária.
  • A fome é um problema mais frequente em colónia com rainhas proliferas.
  • Necessitam maiores áreas para a postura, ou seja colmeias de maiores dimensões ou mais caixas para o ninho.
  • A mudança anual ou bi-anual de rainhas faz sentido com estas rainhas que se esgotam mais rapidamente.

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Fig. 1 — Rainha amarela e sua corte

 

Acerca das rainhas não-prolíferas R. Paterson faz a seguinte análise:

  • Em geral são rainhas negras.
  • As rainhas negras vivem mais tempo, porque não se desgastam tão rapidamente e também por outras razões mais complexas.
  • Em geral as abelhas negras vivem mais tempo (cerca de 50% mais).
  • Em geral dão uma colheita razoável, sem ter que as alimentar tão abundantemente.
  • São abelhas mais frugais.
  • Como consomem menos podem ser mantidas mais colónias no mesmo local/apiário. O mel será armazenado nas alças meleiras, em vez de ser convertido em criação.
  • Geralmente têm reservas no ninho, portanto a fome é muito improvável quando as alças meleiras são retiradas e crestadas.
  • Colónias mais pequenas significa menos trabalho.

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Fig. 2 — Rainha negra e sua corte

Roger Patterson termina com esta reflexão ou chamada de atenção: “Como em muitas outras coisas no domínio da apicultura a prolificidade das rainhas que mantemos é uma questão de escolha pessoal. Está muito bem desde que a escolha tenha sido ponderada e não baseada em informação incompleta.”

fonte: http://www.dave-cushman.net/bee/prolificacy.html

Por cá a nossa abelha ibérica é um híbrido natural, com uma forte ancestralidade que a liga à abelha negra. Não me parece nada desajustado dizer que a nossa abelha se aproxima em grande medida das características da sua ancestral, a abelha negra e se distancia das características da abelha amarela italiana. Alguns gostam que assim seja, outros detestam.

o espaço abelha: o que nos dizem as abelhas naturalmente

Quando um enxame de abelhas enxameia e ocupa um buraco numa árvore, numa parede, etc., a primeira tarefa a que se dedica é à construção de um conjunto de favos. Independentemente do local onde os constroem, o espaçamento dos favos apresenta uma grande regularidade: 30 a 32 milímetros entre os centros dos mesmos. Somente nos favos nos lados de fora do ninho surge um espaçamento ligeiramente maior, mas estes são usados ​​quase exclusivamente para o armazenamento de mel ou para a criação de zângãos.

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Fig. 1 — Medição da distância entre os centros de dois favos de abelhas

Os favos que que as abelhas constroem em condições naturais raramente são planos. Os favos são muitas vezes curvados em arcos graciosos e apresentam uniões entre si, o que lhes dá integridade estrutural, para que possam suportar o peso do mel e resistam às altas temperaturas nos dias quentes de verão.

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No que respeita à sua utilização, os favos num ninho natural são multiuso e a postura da rainha surge quase em qualquer lugar, com a possível excepção dos favos externos. Os alvéolos onde antes houve criação são, habitualmente, ocupados com néctar, impedindo a rainha de aí fazer postura imediatamente a seguir, obrigando-a a procurar outros alvéolos. Isto significa que a rainha está constantemente a ser reconduzida para um outro favo, componente importante do comportamento higiénico da colónia.

Por que é que os favos naturais apresentam um espaçamento de 30-32mm entre os seus centros? As medições dos alvéolos preparados para a postura da rainha mostram que eles apresentam 11-12mm de profundidade. As medições mais detalhadas revelam que a profundidade não é uniforme e que a relação entre a largura/profundidade é aproximadamente de 1 / 2 — os alvéolos de diâmetro mais pequeno são alvéolos menos profundos, os alvéolos com um diâmetro maior são mais profundos.

Qual é a razão desta relação? Como sabemos, o alvéolo fica plenamente ocupado nos estágios finais de desenvolvimento da criação e estas são as proporções que se adequam exatamente ao seu ocupante — a pupa ou abelha pré-emergente. Alvéolos com diâmetros menores produzem abelhas mais pequenas. Em conclusão, é a relação largura/profundidade, e não somente a profundidade, que determina se a abelha é um pouco maior ou um pouco menor.

Assumindo que a profundidade média dos alvéolos é de 11,5 milímetros, a largura do favo, com ambos os lados preparados para receber criação, é de 23 milímetros (2 x 11,5 = 23). Se subtrairmos ao espaçamento entre favos (32 mm) estes 23 mm, resulta um espaço excedente de 9 milímetros entre as suas faces opostas (32-23 = 9). Estes 9 mm não acontecem por acaso (Deus não joga aos dados, dizia frequentemente Einstein).  O espaço de 9 mm é exatamente a distância adequada para que as abelhas sejam capazes de trabalhar nas faces opostas de dois favos, de costas umas para as outras, apenas com um ligeiro roçar de asas.

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Ilustração 1 — Duas abelhas de costas uma para a outra a trabalharem nas faces opostas de dois favos

Isto significa que as abelhas nutrizes se podem mover livremente nas duas faces do favo, sem se atropelarem mutuamente, aumentando a eficácia dos seus esforços nos cuidados que prestam à criação. Este espaço de 9 milímetros também é importante para a termorregulação. Esta distância permite que, com apenas duas camadas de abelhas entre os favos, o espaço entre eles fique quase totalmente preenchido e aquecido. Como sabemos em ambientes ou épocas mais frias as abelhas são chamadas a ocupar o espaço entre-favos, onde geram calor e retardam o fluxo convectivo do ar. Um espaçamento entre-favos maior exige mais abelhas ­— mais de duas camadas — para manter a criação quente. Como sabemos as colónias de abelhas são altamente sensíveis a este aspeto. Se aumentarmos o espaço entre favos muito provavelmente será produzida menos criação, particularmente durante o crescimento primaveril da colónia, o que implicará menos abelhas forrageiras disponíveis para os primeiros fluxos de néctar. Este é um aspecto com um grande impacto prático, nomeadamente no que respeita à opção por colocar 9, 10 ou 11 quadros no ninho de uma colmeia (tema a que voltaremos num futuro próximo).

Quando os favos de criação (ou partes deles) são utilizados para o armazenamento de mel no fim do verão (na preparação para o inverno), os alvéolos são estirados com maior profundidade restando um único espaço abelha entre eles (5-6 mm). O mesmo acontece nas alças meleiras. Antes destes alvéolos poderem ser reutilizados para a criação, na primavera seguinte, eles têm de ser aparados para uma profundidade correcta. Nesta época do ano podemos descortinar este comportamento, quando nos apercebemos dos fragmentos de cera sob os pisos em malha de rede ou à entrada da colmeia.

a termorregulação na criação de novas abelhas no período outono-inverno: aspectos específicos

A temperatura da criação no ninho é de extrema importância para a colónia de abelhas e é controlada com a maior precisão. As abelhas mantêm a temperatura da câmara de criação entre os 32°C e os 35°C, de modo a que a sua prole se desenvolva em condições óptimas. Quando a temperatura no ninho é demasiado elevada, as abelhas ventilam o ar quente para o exterior, ou usam mecanismos de arrefecimento por evaporação da água do néctar ou da água simples temporariamente colocada nos alvéolos. Quando a temperatura é muito baixa, as abelhas geram calor metabólico, contraindo e relaxando os músculos das asas. A vibração resultante gera calor nesses músculos. Muitos insetos aquecem os seus músculos de voo antes de levantar voo, mas as abelhas têm explorado essa função para termorregular o seu ambiente.

A investigação tem mostrado que mesmo pequenos desvios (superiores a 0,5°C) a partir das temperaturas óptimas tem influência significativa sobre o desenvolvimento da criação e a saúde das abelhas adultas resultantes. Abelhas criadas em temperaturas sub-ótimas são mais suscetíveis a certos pesticidas como adultos. Curiosamente, a temperatura de desenvolvimento da pupa também afeta a atribuição de tarefas nas abelhas adultas resultantes.

Vejamos com maior detalhe como a termorregulação é levada a cabo pelas abelhas adultas, afim de originar condições de temperatura óptima para a criação da sua prole no período invernal. A termorregulação muito apertada da temperatura no ninho e, especificamente, na área da criação, a qual é altamente sensível às flutuações na temperatura como referido em cima, é conseguido através das duas formas descritas de seguida:

  • a criação operculada é aquecida por abelhas que pressionam os seus tórax firmemente para baixo sobre os opérculos dos alvéolos e transferem o calor para as pupas no seu interior. Desta forma, apenas um alvéolo é aquecido e uma abelha aquecedor consegue manter esta posição até 30 minutos e mantém a temperatura do seu tórax estabilizada em torno de 43° C. A fim de minimizar a dissipação do calor produzido por estas abelhas aquecedoras, as restantes abelhas estão densamente aglomeradas, sobrepondo-se em camadas, sobre esta área de criação a aquecer.
  • outra maneira mais eficiente ainda de aquecer a criação, é conseguido através da ocupação dos alvéolos vazios, aí deixados estrategicamente no seio da área de criação, pelas abelhas aquecedor. A área de criação operculada no favo normalmente contém 5-10% de alvéolos vazios. Esta percentagem varia de acordo com o clima exterior. Estes alvéolos vazios são ocupados pelas abelhas aquecedor que se inserem de cabeça para baixo no alvéolo e mantêm o seu abdómen a pulsar. Estas abelhas também mantêm uma temperatura média do tórax de cerca de 43°C.

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Fig. 1 — Abelhas-aquecedor no interior dos alvéolos nas proximidades de uma área com criação operculada

Estas abelhas aquecedor que actuam como descrito para aquecer a criação gastam enormes quantidades de energia na forma de mel maduro altamente concentrado. Ocasionalmente usam néctar não maduro, mas este combustível não é de tão alta qualidade como é a do mel maduro, que é transferida de boca em boca pelas abelhas (trofalaxia).

Para concluir realço os seguintes aspectos práticos:

  1. a colmeia deve estar bem povoada para aquecer as novas abelhas de inverno a criar, portanto é necessário fazer os tratamento da varroa atempadamente e evitar os desdobramentos tardios;
  2. os quadros centrais do ninho não devem estar bloqueados com mel e/ou pólen, devem ter um número razoável de alvéolos vazios, portanto devemos evitar o fornecimento excessivo de xarope no final do verão/início do outono.  

 

Fontes consultadas:

  • Medrzycki P, Sgolastra F, Bortolotti L, Bogo G, Tosi S, et al. (2009) Influence of brood rearing temperature on honey bee development and susceptibility to poisoning by pesticides. J Apic Res 49: 52–60.
  • Matthias AB, Holger S, Robin FAM (2009) Pupal developmental temperature and behavioral specialization of honeybee workers (Apis mellifera L.). Journal of Comparative Physiology A 195: 673–679
  • Tautz J (2008) The Buzz about Bees. Springer-Verlag, Berlin Heidelberg.
  • Winston ML (1987) The Biology of the Honey Bee. Harvard University Press, Cambridge Massachusetts.