loque americana: o teste ao filamento (teste do palito)

Teste ao filamento (teste do palito)
Os apicultores devem realizar o teste ao filamento nos alvéolos suspeitos antes da infecção atingir o seu estágio mais avançado e mais infeccioso. O teste deve ser feito de acordo com os procedimentos seguintes:

  • Identifique o alvéolo suspeito que apresente sinais de loque americana – alvéolos com coloração mais escura, gordurosos, perfurados e/ou afundados.
  • Insira um palito de fósforo no interior do alvéolo.
  • Lentamente, retire o seu conteúdo.
  • Se este conteúdo for pegajoso e formar um filamento castanho-escuro, com 3 a 5 cm de comprimento isso indica que a colmeia, muito provavelmente, está infectada com loque americana.
  • Se este filamento for de cor cinza-clara e menor que 1,5 cm, então a doença é provavelmente loque europeia. No entanto, as larvas infectadas por Paenibacillus alvei (uma infecção secundária associada à loque europeia) também podem causar larvas infectadas que produzam um filamento mais longo e se assemelhe ao filamento de larvas infectadas com loque americana.
  • Um dos principais meios de distinção entre loque europeia e loque americana é que a loque europeia normalmente mata a larva antes do alvéolo ser operculado; ao contrário as larvas infectadas com loque americana geralmente morrem após o alvéolo ser operculado.

Teste ao filamento nos casos de loque americana

  • Filamento: pode ser bastante viscoso, formando um filamento em torno de 3-5cm de comprimento.
  • Aparência do filamento: é geralmente castanho escuro e pode ser bastante elástico.
  • Odor: apresenta um odor bastante sulfuroso nos estádios mais avançados.
  • Padrão da criação e estágio da infecção: padrão de criação em “mosaico” e opérculos perfurados. As larvas infectados geralmente morrem após a operculação dos alvéolos.
  • Escama: Frágil, de cor castanho-escuro.

Teste ao filamento nos casos de loque europeia

  • Filamento: Geralmente não é muito viscosa nos estágios iniciais, com alguns filamentos a atingirem cerca de 1,5cm. No último estágio da infecção, com possível infecção secundária, o comprimento do filamento pode ser mais comprido.
  • Aparência do filamento: massa semilíquida de cor cinza-claro, com algum amarelado devido a tubos traqueais infectados.
  • Odor: geralmente um odor azedo.
  • Padrão de criação e estágio da infecção: criação irregular, larvas mortas, ou descoloridas (amareladas) e torcidas, em alvéolos abertos não operculados.
  • Escama: aspecto de borracha, com uma cor cinza-claro a preto.

Lembre-se sempre de que estas são orientações para uma análise de campo simples e, por vezes, as conclusões podem ser equivocadas. O único meio preciso de diferenciar a loque europeia da loque americana é por meio de análises de laboratório. Como todos sabemos a loque americana é uma doença de declaração obrigatória. Como apicultor “conservador” (alguns poderão dizer prudente), nos casos de loque americana só vejo uma saída: o fogo. Para bem do próprio, para bem dos apicultores vizinhos e para bem da apicultura nacional. A loque americana pode tornar-se, num período de poucos anos, pandémica, como aconteceu há cerca de dois anos na África do Sul. Segundo os próprios sul-africanos o principal factor desta evolução dramática foi o desconhecimento, a desvalorização do problema e uma actuação parcial e incompleta, decorrente de uma atitude excessivamente optimista (imprudente, se desejarem) por parte de muitos apicultores daquele país.

Fonte: http://beeaware.org.au/archive-pest/american-foulbrood

loque americana: identificação dos alvéolos suspeitos

Os apicultores devem realizar o “teste do palito” sempre que observem opérculos suspeitos no seio de um quadro de cria selada/fechada.

Os alvéolos adequados para realizar o teste do palito para verificar a resistência do filamento que identifica a Loque Americana são aqueles cujos opérculos apresentam uma coloração mais escura, um aspecto gordurosos, estão perfurados e/ou ligeiramente afundados.

Fig.1 : Opérculos mias escuros e afundados (no centro da imagem) e que nos devem levantar suspeitas.
Fig.2 : Opérculos afundados, com aspecto gorduroso e perfurados e que nos devem levantar muitas suspeitas.
Fig.3 : Opérculos afundados, com aspecto gorduroso e furados, que nos devem levantar muitas suspeitas.
Fig. 4: Inúmeros opérculos perfurados são frequentemente sinais de um estado avançado de Loque Americana.

Fonte: http://beeaware.org.au/archive-pest/american-foulbrood

Nem sempre os opérculos perfurados indicam obrigatória e necessariamente a existência de Loque Americana. O teste do palito para testar a resistência do filamento é o passo seguinte no diagnóstico. Um assunto para um outro post.

varroa: tempo de vida, desenvolvimento populacional e dispersão

Tempo de vida do varroa

O tempo de vida dos ácaros varroa depende da presença de cria e pode variar de 25 dias a cerca de 5 meses. Durante o verão, os ácaros podem viver até 2 a 3 meses e, se a cria de abelha estiver presente, eles podem completar 3 a 4 ciclos de reprodução. No inverno, quando a cria não está presente ou é limitada, os ácaros passam o inverno sobre os corpos das abelhas adultas — fase forética. Um ácaro varroa adulto pode viver alimentando-se exclusivamente de uma abelha adulta durante 3 meses. Os ácaros adultos podem viver até 5 dias sem comida.

Fig. 1. : Os ácaros varroa podem alimentar-se e esconder-se entre os segmentos do abdómen da abelha.

Crescimento populacional do varroa
O crescimento populacional do ácaro varroa é determinado pelo número de ácaros fêmeas na colónia de abelhas, a sua taxa reprodutiva, bem como a disponibilidade de cria de abelhas e o tipo de cria disponível. Estes factores provavelmente variarão ao longo do ano, devido a flutuações na quantidade e no tipo de criação presente na colónia. Nas zonas onde a criação está presente durante todo o ano e onde a criação de zangões está frequentemente presente, o crescimento da população de varroas será mais rápido do que em zonas onde a criação não está presente durante algumas épocas do ano (por exemplo em zonas geográficas mais frias).

Fig. 2: Emergência de abelhas obreiras condenadas pela elevada taxa de infestação pelo ácaro varroa.

As larvas de zângão são escolhidas preferencialmente (10 vezes mais que as larvas de operárias). Como as crias de zângãos apresentam um tempo de maturação mais longo do que as crias de obreiras (mais três dias em média), mais ácaros varroa são capazes de amadurecer na cria dos zângãos. A pesquisa mostrou que um ácaro fêmea que põe ovos na cria de zangão produzirá, em média, 2,6 fêmeas adultas, em comparação com 1,6 fêmeas adultas, se os ovos forem colocados na cria de obreira. Isso significa que a taxa reprodutiva de ácaros varroa aumenta com a disponibilidade de crias de zângão. No clima temperado médio, estima-se que as populações de ácaros podem aumentar 12 vezes nas colónias com criação de abelhas pelo menos 6 meses ao longo do ano e 800 vezes nas colónias com criação durante o ano todo. Isso torna o varroa muito difícil de controlar, especialmente em climas mais quentes, onde as colónias mantêm criação durante todo o ano.

Fig. 3: Ácaros varroa em zângãos emergentes.

Na ausência de qualquer cria, a população de ácaros diminuirá lentamente à medida que morrem e não são substituídos. Estima-se que a sua população diminui aproximadamente 10% por cada mês em que a cria de abelhas está ausente. No entanto, assim que nova cria de abelhas for produzida, a população de ácaros começará a aumentar novamente. E de forma exponencial!

Crescimento exponencial da população de ácaros varroa

No final de cada ciclo reprodutivo do varroa dois a três ácaros mais por cada larva infestada não parece muito. No entanto, sob condições ideais para o ácaro, assistimos a um crescimento exponencial da população de ácaros na colónia. Assumindo 10 ciclos reprodutivos em 6 meses, um único ácaro geraria uma população de mais 1.000 ácaros se criados nas larvas de operárias, e mais de 59.000 se criados em larvas de zângão. Lembro que uma população de 5.000 — 6.000 ácaros numa colónia de abelhas é suficiente para começarmos a ver os primeiros impactos nas abelhas (especialmente a emergência/nascimento de abelhas com asas deformadas). E está a apenas duas semanas de duplicar o seu número e conduzir ao colapso da colónia. Felizmente (para nossas abelhas, não para os ácaros), as condições ideais não ocorrem na realidade.

Muitas coisas contribuem para a redução do potencial reprodutivo dos ácaros. Por exemplo, apenas 60% dos ácaros machos atingem a maturidade sexual, a criação de zângãos só está disponível em determinadas épocas do ano, a interrupção de postura e a indisponibilidade de qualquer criação interrompe o ciclo reprodutivo do ácaro e ajuda as abelhas adultas a livrarem-se de alguns dos ácaros foréticos.

No entanto, estas reduções naturais não são suficientes. Sem um maneio adequado, os níveis de ácaros atingem níveis perigosamente altos, ameaçando a viabilidade a médio/longo prazo da colónia (um ano a ano e meio se tanto: ver aqui) .

A dispersão/deriva de abelhas inter-colónias

Em alguns estudos com colmeias colocadas em filas rectilíneas, verificou-se que 50-90% das abelhas marcadas saíam da colmeia mãe para outras colmeias, e que aproximadamente 15% dessas abelhas mudavam de colmeias pelo menos três vezes durante as suas vidas. Verificou-se também que 40% das obreiras de uma colmeia podem não ter “nascido” nessa colmeia.

Se houver várias colónias numa área que estejam infestadas com ácaros varroa (por exemplo, colónias selvagens ou colmeias não tratadas ou incorrectamente tratadas), elas podem actuar como uma fonte constante de infestação. Os ácaros varroa causam o enfraquecimento das colónias e as abelhas naturalmente roubam e derivam das colmeias enfraquecidas para as mais fortes, o que resulta na disseminação e invasão dos ácaros.
Devido à natureza exponencial do crescimento populacional, a introdução de alguns ácaros extra pode ter efeitos dramáticos na rapidez com que esta população virá a atingir níveis prejudiciais.

Tendo estes aspectos em conta, a maior parte dos meus apiários têm uma configuração que procura “quebrar”, em parte, com a disposição em fila rectilínea das colmeias, como se pode ver na foto em baixo de um apiário meu.

Fontes:

  • http://beeaware.org.au/archive-pest/varroa-mites/#ad-image-0
  • https://agdev.anr.udel.edu/maarec/wp-content/uploads/2010/03/Varroa_Mites_PMP2.pdf
  • http://www.ask-force.org/web/Bees/Rosenkranz-Biology-Control-Varroa-2010.pdf
  • https://www.theapiarist.org/know-your-enemy/
  • http://scientificbeekeeping.com/the-varroa-problem-part-16a/


mortalidade outonal, até ao solstício do inverno de 2108

Nos passados dias 27 e 28 de Dezembro fiz mais uma ronda de alimentação com “fondant” nos 12 apiários da minha exploração, onde estão assentes cerca de 630 colmeias e 70 núcleos. Esta é a terceira ronda de alimentação desde Novembro de 2018. Desta vez alimentei todas as colmeias, sem excepção. Nas duas rondas anteriores tinha alimentado as colmeias mais leves e/ou com um peso médio.

Fig.1: Fondant colocado sobre o óculo aberto da prancheta

Mais uma vez noto que as colónias mais populosas estão nos apiários situados nas zonas de maior altitude (entre os 800 e 900 m de altitude). Em regra as colmeias aí localizadas apresentavam 7 a 9 quadros de abelhas (avaliação feita sem levantar quadros, através da observação dos travessões superiores dos quadros e dos espaços entre quadros). Também as colmeias nos apiários mais soalheiros e a uma altitude mais baixa (cerca dos 600 m) estavam bem povoadas (com 5 a 8 quadros de abelhas). Os apiários com colónias mais fracas (2 apiários), um é o mais sombrio de todos, o outro está numa zona de frequentes nevoeiros nesta altura do ano, apresentavam colónias com 3 a 6 quadros de abelhas . Não vi sinais de varroose (não vi abelhas com asas deformadas nem abelhas com o abdómen atrofiado). Não vi também sinais de ascosferiose. Nosema apis também não vi sinais (não vi entradas sujas pelas fezes). Nosema cerana, como é assintomática a olho nu, não me arrisco a dizer nada, mas não vi abelhas mortas à entrada da colmeia num número que me preocupasse e me levasse a suspeitar da mesma.

Nesta ronda trouxe para casa 3 colmeias e um núcleo que ficaram pelo caminho. Não morreram por varroose. Duas colmeias morreram por falta de rainha. Era visível alguma criação fechada de zângão muito dispersa e em pequena quantidade em alvéolos de obreira assim como algumas realeiras iniciadas. A outra colmeia e o núcleo morreram por terem poucas abelhas. Estes dois enxames, apesarem de terem algumas reservas próximas, não tinham abelhas em número suficiente para primeiro aquecerem o mel e depois o consumirem. Sem este combustível vital acabaram por não ser capazes de manter o cacho termorregulado para ultrapassarem as frias noites que se fizeram sentir nas encostas da Serra de Estrela ali pelo Natal.

Identificadas as causas da morte nestas colmeias resta-me contabilizar a percentagem de colónias perdidas durante o outono de 2018: 0,60%.

Até ao final do inverno não tenho ilusões e sei que ainda vou tirar algumas duas a três dezenas de colmeias mortas, correndo tudo normalmente. Outra certeza que tenho neste momento é que aquelas que vierem a morrer não será por varroose. Veremos se a mortalidade invernal deste ano não supera a do ano passado, que ficou um pouco abaixo dos 5%. Veremos!

Nota: vendi no mês de Dezembro 150 colmeias. Como eram as mais fortes entre as mais fortes, como o comprador (apicultor muito experimentado) passadas cerca de três semanas me disse que estavam todas bem, incorporei-as neste cálculo, porque seguramente se estivessem ainda nos meus apiários também estariam vivas.

backfilling — o que é?

Já há uns anos que conheço as ideias do falecido apicultor Walt Wright acerca do fenómeno que ele designou backfilling. Deixo aqui alguns excertos traduzidos acerca deste fenómeno, por mim verificado váriadíssimas vezes nas minhas colmeias e que, segundo ele, são um sinal de preparação da colónia para a enxameação reprodutiva. Tendo a concordar, sustentado nas minhas observações.

Backfilling (preenchimento) é uma palavra. que, usada apropriadamente, substitui uma frase inteira e descreve um processo-chave no desenvolvimento da colónia com vista à enxameação reprodutiva: para reduzir a área de criação os alvéolos no ninho, antes ocupados por cria fechada, são preenchidos com néctar ou pólen, à medida que esta vai emergindo (nascendo). […]

O preenchimento deste espaço é semelhante ao ajuste do tamanho dos ninhos de cria nas colónia de abelhas na fase de contracção do enxame. Durante o final do inverno/princípio da primavera a colónia expande o ninho. Ela (colónia) precisa destas abelhas extra para ter um número de indivíduos que lhe permita fazer um enxame reprodutivo. Quando a expansão produz abelhas suficientes para a divisão por enxameação, este alvéolos extra cumpriram seu propósito. Então a colónia precisa reduzir a área de cria para um nível que possa ser mantido pela população mais pequena que irá permanecer após a partida do enxame. A colónia faz isso preenchendo as áreas de cria com néctar ou pólen. O néctar é preferido — é mais fácil e rápido —, mas se o néctar for escasso e o pólen estiver disponível, ela (a colónia de abelhas) usará o pólen. À medida que a ninhada emerge, a forragem disponível é colocada nesses alvéolos para reduzir o volume da ninhada. Esse é o processo que chamamos de backfilling (preenchimento).

Esquema 1: O backfilling inicia-se quando as abelhas começam a armazenar néctar abaixo da linha curva e a ocupar a zona designada “capped brood”

O backfilling não se restringe à redução do ninho no momento da enxameação reprodutiva. Toda vez que o volume da criação é reduzido, o backfilling é aplicado. Isso acontece durante toda a primavera/verão no fluxo principal de néctar. Também é aplicado no outono/inverno, em certos locais, com fluxos de forragem intensos (zona de eucaliptal, por ex.). […]

Dica do mês

Quando os mestreiros/realeiras de enxameação são iniciadas, a colónia já está comprometida com a enxameação. A “febre” está instalada, as medidas de prevenção da enxameação chegaram tarde ou foram insuficientes. Resta ao apicultor controlar a enxameação. Teremos de ser capazes de olhar e identificar sinais anteriores para anteciparmos e intensificarmos as medidas que dispomos para a prevenção da enxameação. A monitorização do backfilling é para onde o nosso olhar e atenção se devem dirigir.

Se tiver um número de colónias que exceda os limites de sua memória visual, coloque um alfinete ou uma pequena sinalização no quadro no topo da zona de expansão da cria. Se o néctar aparecer abaixo da marca, terá cerca de duas semanas para iniciar uma ação corretiva antes de a colónia entrar em “modo de enxameação.”

Fig.1.: Quadro exemplo de backfilling

Fonte: https://beesource.com/point-of-view/walt-wright/backfilling-whats-that/

Nota: quando as abelhas, por falha da rainha ou por falta de alças meleiras, enchem os quadros do ninho com mel e/ou pólen numa altura do ano em que o volume de cria deve estar em notória expansão não estamos perante o backfilling tal e qual aqui descrito.

resíduos químicos em alimentos e risco de cancro: uma análise crítica

“Introdução

Possíveis riscos de cancro decorrentes de resíduos de pesticidas nos alimentos têm sido muito discutidos e debatidos com afinco na literatura científica, na imprensa popular, na arena política e nos tribunais. Pesquisas de opinião do consumidor indicam que grande parte do público dos EUA acredita que os resíduos de pesticidas nos alimentos são um sério risco de cancro (Opinion Research Corporation, 1990). Em contraste, estudos epidemiológicos indicam que os principais fatores de risco de cancro são o fumo do tabaco, desequilíbrios alimentares, hormonas endógenas e inflamação (por exemplo, infecções crónicas). Outros fatores importantes incluem exposição intensa ao sol, falta de atividade física e consumo excessivo de álcool (Ames et al., 1995). […]

Químicos naturais e sintéticos na comida e sua relação com o cancro

A atual política regulatória para reduzir os riscos de cancro humano baseia-se na ideia de que substâncias químicas que induzem tumores em bioensaios de cancro em roedores (ratinhos brancos de laboratório, sobretudo) são potenciais carcinógenos em humanos. Os produtos químicos selecionados para testes em roedores, no entanto, são principalmente sintéticos (Gold et al., 1997a, b, c, 1998, 1999). O enorme cenário de exposição humana a substâncias químicas naturais não foi sistematicamente examinado. Isso levou a um desequilíbrio nos dados e na percepção sobre possíveis riscos carcinogénicos para os seres humanos devido a exposições químicas. O processo regulatório não leva em conta (1) que as substâncias químicas naturais compõem a grande quantidade de substâncias químicas às quais os seres humanos estão expostos; (2) que a toxicologia de toxinas sintéticas e naturais não é fundamentalmente diferente; (3) que cerca de metade dos produtos químicos testados, sejam naturais ou sintéticos, são cancerígenos quando testados usando protocolos experimentais atuais; (4) que o teste de carcinogenicidade em doses quase tóxicas em roedores não fornece informações suficientes para prever o número de cancro humanos que podem ocorrer em baixas doses de exposição; e (5) que a elevada frequência do teste na dose máxima tolerada (DMT) pode causar morte celular crónica e consequente substituição celular (um fator de risco para cancro que pode ser limitado a altas doses) e que ignorar esse efeito na avaliação de risco pode exagerar a percepção dos riscos.

Estimamos que cerca de 99,9% das substâncias químicas que os seres humanos ingerem ocorrem naturalmente. As quantidades de resíduos de pesticidas sintéticos nos alimentos vegetais são baixas em comparação com a quantidade de pesticidas naturais produzidos pelas próprias plantas (Ames et al., 1990a, b; Gold et al., 1997a). De todos os pesticidas dietéticos que os americanos comem, 99,99% são naturais: eles são os produtos químicos produzidos pelas plantas para se defenderem contra fungos, insetos e outros predadores de animais. Cada planta produz uma matriz diferente de tais produtos químicos (Ames et al., 1990a, b).
[…] Apesar dessa exposição enormemente maior a substâncias químicas naturais, entre os produtos químicos testados em bioensaios a longo prazo, 77% são sintéticos (1050/1372) (Gold e Zeiger, 1997; Gold et al., 1999).

Concentrações de pesticidas naturais em plantas são geralmente encontradas em partes por mil ou milhões, em vez de partes por bilião, que é a concentração usual de resíduos de pesticidas sintéticos. […] É provável que quase todas as frutas e verduras do supermercado contenham químicos naturais que são cancerígenos em roedores (os ratinhos brancos de laboratório) . Embora apenas uma pequena proporção de químicos naturais tenha sido testada quanto à carcinogenicidade, 37 dos 71 que foram testados são carcinógenos em roedores e estão presentes nos alimentos comuns.”

Fonte: https://toxnet.nlm.nih.gov/cpdb/pdfs/handbook.pesticide.toxicology.pdf

Nota : Como em quase tudo, senão em tudo mesmo, também esta dimensão da realidade não é a preto e branco. Restringir a questão e percepção dos riscos carcinogénicos aos pesticidas químicos presentes nos alimentos que consumimos é simplista e redutor. Em simultâneo ignorar que os produtos alimentares de origem vegetal que nos chegam à mesa estão repletos de pesticidas/químicos naturais com potencial carcinogénico é psicologicamente reconfortante. Lamentavelmente aquele simplismo e este conforto não coincidem com a realidade.

decálogo para lutar contra a vespa velutina

Nota prévia: não pretendo neste post fazer publicidade aos equipamentos e marcas. Pretendo apenas partilhar informação que me parece pertinente.

1.– No começo da primavera as velutinas só buscam o néctar e começam a desenvolver seu ninho, nesta fase elas são praticamente inofensivas para as abelhas, muitas se matam entre elas lutando pelos ninhos.

2 .- Se encontrarmos um ninho primário, não devemos eliminá-lo até que saibamos que as primeiras obreiras já nasceram, será o sinal de que é um ninho definitivo e que vai dar origem em algumas semanas a um ninho secundário.

Um ninho primário é um tesouro, se o eliminarmos antes do tempo outra velutina iniciará seu ninho num lugar desconhecido, se o eliminarmos quando tiver obreiras recém-nascidas ou prestes a nascer, será um ninho secundário a menos.

3.- Há lugares onde as velutinas têm predileção especial para fazer os ninhos primários a cada ano, por exemplo, nos cemitérios, nos nichos, entre a cobertura de vidro que protege a cobertura de granito, esses locais são ideais para eliminar ninhos usando a regra n º 2.

4.- Devemos usar armadilhas tão seletivas quanto possível, para não danificar os insetos nativos, para isso, se usarmos armadilhas do tipo garrafa, elas devem ser feitas corretamente, com um orifício de entrada não superior a 8 mm de diâmetro e com saídas de 4 mm para permitir que os insectos menores saiam.

5.- As armadilhas combinadas SANVE-elétricas não só não matam os insetos nativos, mas estes são usadas como atrativos, uma vez que também fazem parte da alimentação das velutinas. Esta armadilha pode ser usada na primavera para substituir as garrafas, e também no resto da temporada em frente aos alvados.

6.- Durante o verão no apiário existem vespas com dois papéis, algumas procuram proteína e, portanto, caçam abelhas, outras procuram carboidratos (açúcares, néctares, mel). Esse tipo de armadilha atrai ambas.

7.- Devemos reorganizar os apiários para serem mais eficazes contra a vespa.

Uma boa estratégia é colocar as colmeias em agrupamentos, deixando um espaço livre a cada 5 colmeias para inserir harpas elétricas, muito efetivas nos meses de julho, agosto e setembro, quando as velutinas são mais agressivas com as abelhas.

8.- Durante esses meses devemos diminuir o alvado para cerca de 5 mm de altura para evitar que a velutina entre na colmeia.

9.- Devemos também separar cerca de 5 mm a base da colmeia do ninho, o que permite que as abelhas entrem e saiam de todo o perímetro da colmeia e assim possam fugir das velutinas que estão em vôo estático em frente à entrada.

10.- Devemos manter as armadilhas até ao outono até que deixemos de ver a última velutina no apiário.”

fonte: www.sanve.weebly.com

vespa velutina: um adaptador para a entrada das colmeias salva as abelhas da predação

Um apicultor francês, Norbert Mathieu, inventou um adaptador que, fixado às pranchas de vôo das colmeias, permite às abelhas atingirem uma velocidade de vôo mais alta à saída e entrada na colmeia, dificultando o ataque dos vespões asiáticos. Este sistema também tem o efeito de inibir o comportamento de predação da vespa, e abre a possibilidade de as abelhas se defenderem através do comportamento de “pelotagem”.

Nota: não tenho dados pessoais que me permitam confirmar ou infirmar a eficácia do dispositivo.

por quê é tão difícil criar abelhas melhores? parte 1.

“Aqueles que são novos na apicultura perguntam frequentemente por que razão não criamos melhores abelhas. Esta é uma questão lógica porque a reprodução tem sido a resposta para muitos problemas agrícolas. Quando eu digo “procriação”, não quero dizer técnicas modernas de manipulação de genes que nos permitam criar gatos que brilham no escuro, mas o tipo antiquado/tradicional de reprodução em que cruza indivíduos selecionados a fim de amplificar suas melhores características.

Este método tradicional produziu plantas e animais maiores, mais gordos, resistentes a doenças e de maior rendimento, que são a espinha dorsal da agricultura moderna. Com o passar dos anos, obtemos mais leite, cerejas maiores, maçãs mais doces, tomates resistentes à ferrugem, narcisos rosados e cachorros sem pêlos.

Por que não criamos melhores abelhas?
Então por que não criamos melhores abelhas? A resposta é simples: nós já as temos. Criadores conseguiram todos os tipos de maravilhas com abelhas. Eles “construíram” abelhas que são gentis, abelhas que hibernam bem, abelhas com maior produção de mel e até mesmo abelhas que lidam com ácaros varroa. A criação não é o problema.

O problema com as abelhas ocorre depois que as rainhas deixam o criador. Os traços criados em rainhas de abelhas melíferas em programas de criação cuidadosamente controlados desaparecem logo quando as filhas dessas rainhas podem acasalar em campo aberto. Dentro de uma geração ou duas, os descendentes dessas super abelhas estão de volta à estaca zero. A questão é: “Por que isso continua acontecendo?”

Os bloqueios na estrada para manter melhores abelhas
Existem três bloqueios principais na estrada para manter populações bem controladas – haplodiploidia, poliandria e panmixia – além de algumas outras pequenas complicações.

Fig.1. Acasalamento natural de abelhas rainha.

Poliandria
As abelhas são poliândricas. Poliandria significa “muitos homens” e refere-se ao fato de que uma abelha rainha acasala várias vezes com “companheiros” diferentes. Ter muitos companheiros não é incomum por si só, mas uma abelha rainha armazena todo o esperma em seu corpo para o resto de sua vida de postura. Então, quando ela põe seus ovos, os ovos são fertilizados por sémen proveniente de uma variedade de machos. Cada um desses diferentes acoplamentos representa uma subfamília diferente no ninho, no coração da colónia.

As obreiras de qualquer subfamília que têm a mesma mãe e pai são chamados de super-irmãs porque compartilham cerca de 75% de seus genes. As obreiras pertencentes a diferentes sub-famílias têm a mesma mãe, mas pais diferentes. Estas são conhecidas como meias-irmãs e compartilham cerca de 25% de seus genes. Quando as pessoas perguntam: “Por que minhas abelhas são todas de cores diferentes?”, Esta é a resposta: elas representam diferentes subfamílias no mesmo ninho. É mais visível se uma rainha acasalar com os zângãos italianos (amarelo) e carniolanos (preto).

Mas a cor não é a única diferença. Como as subfamílias são descendentes de diferentes zângãos, elas variam de várias maneiras, como a capacidade de invernagem, resistência a doenças, temperamento ou força de forrageamento. Ainda mais importante, as subfamílias tendem a estabilizar uma colónia. Se a rainha teve um acasalamento com um zângão de má qualidade – ou mesmo dois – a descendência deste mau acasalamento é apenas uma pequena proporção da colónia inteira, significando que a colónia pode sobreviver mesmo que alguns indivíduos não o façam.

Panmixia
Além de haplodiploidia e poliandria, as abelhas são famosas por um traço chamado panmixia. Panmixia refere-se ao acasalamento totalmente aleatório, resultando numa mistura completa de genes na população. Áreas de congregação de zângãos – locais onde, como o nome indica, um grande número de zângãos se reunem até que uma rainha virgem chegue – foram projetados com panmixia em mente. Eles garantem uma excelente mistura de genes, porque os zângãos de grandes áreas geográficas encontram-se nestas reuniões e competem pelo direito de acasalar.

Embora a poliandria por si só assegure múltiplos acasalamentos, a panmixia garante que os parceiros não são todos “garotos” locais. Em vez disso, uma área congregacional de zângãos representam uma população diversificada. Panmixia tem uma influência estabilizadora numa população, fornecendo um controlo contra a deriva genética e depressão endogâmica, um termo chique que indica uma redução nas aptidões devido à partilha de muitos dos mesmos genes. Ele fornece um amortecedor contra a tragédia genética, a menos, claro, que você seja um criador tentando selecionar certas características.”

fonte: https://honeybeesuite.com/why-is-it-so-hard-to-breed-better-bees/

Notas:

  • Num post que publicarei em breve irei detalhar o 3º “bloqueio da estrada”, a haplodiploidia. 
  • Neste post ficam apresentados dois dos três mecanismos que dificultam a seleção de abelhas. Pela natureza destes mecanismo vemos facilmente como não passa de ilusão ou marketing despudorado afirmar-se que se está a criar melhores abelhas em programas que de programa só têm o nome. Por ex. dizer-se que se está a criar abelhas mais resistentes/tolerantes à varroa, ou linhas menos enxameadoras quando mais se não faz que uma avaliação “a olho” do comportamento da colónia como um todo ou é ignorância do criador ou, pior, é vender ilusões. Como se as obreiras presentes na colónia fossem todas filhas do mesmo zângão, como se as larvas sujeitas a translarve e de onde vão sair as futuras rainhas fossem todas fecundadas pelo sémen de um único e “bom” zângão. E sabemos que esta “bela história” não adere nem respeita a realidade.