a regra “não mais de 6”

Este ano estou a utilizar um procedimento sistemático na grande maioria das minhas colmeias. Em quase todas as colmeias com 8 quadros de criação estou a retirar 2 quadros com criação e a colocar um quadro com cera laminada na posição 2 e um outro de meia-alça na posição 9.

A análise do histórico das minhas colmeias tem-me mostrado que trabalhando com uma só caixa a ninho, existe uma correlação assinalável entre os 8 a 9 quadros de criação no ninho e o facto de as abelhas entrarem em modo de enxameação. Raramente me enxameou uma colmeia que não tivesse 7 a 9 quadros cheios de criação no ninho. Esta verificação não é uma lei (há excepções nos históricos das minhas colmeias, isto é, colmeias com 7 a 9 quadros cheios de criação que não enxameiam), mas ajo como se o fosse. O princípio é estar à frente das abelhas. Dar-lhes espaço acima do ninho, e no ninho cera de qualidade para puxarem é uma forma de o alcançar.

Desde que sou apicultor “abro” os ninhos frequentemente com ceras laminadas, em especial na época pré-enxameação. Noto contudo que este ano há uma coisa diferente no meu maneio: esta decisão foi tomada com grande convicção, elevada a regra e aplicada de forma sistemática.  Actuar de forma sistemática, isto é eleger e/ou construir um sistema de maneio, aplicá-lo de forma quase automática é uma necessidade que apenas alguns de nós compreenderão na plenitude. Por ex. os apicultores de maior dimensão sabem bem que agir de forma padronizada poupa tempo e diminui o desgaste mental.

Escolher este ou aquele tipo/sistema de maneio das colmeias depende das mais diversas  causas, começando pelas idiossincrasias de cada apicultor e terminando na dimensão do seu efectivo apícola.

Mais adiante voltarei a este tema com dados acerca dos resultados. Um dado interessante e muito animador é que até esta altura em que escrevo tenho do meu conhecimento 2 colmeias enxameadas, em cerca de 550 trabalhadas pelo meu empregado e por mim durante esta semana. Cerca de 30 estavam já em modo de enxameação ou a preparar-se para tal; dividi-as, as abelhas continuam na minha posse a criar mais abelhas.

Actualização de 10-03-2020: Li há poucos dias atrás que Mark L. Winston, investigador canadiano que está entre os mais referenciados na literatura apícola, concluiu através dos seus trabalhos de campo que as abelhas tendem naturalmente a enxamear quando ocupam cerca de 90% da área disponível dos favos na cavidade/colmeia que habitam. Não andei muito longe da conclusão de Winston quando escrevi em cima “A análise do histórico das minhas colmeias tem-me mostrado que trabalhando com uma só caixa a ninho, existe uma correlação assinalável entre os 8 a 9 quadros de criação no ninho e o facto de as abelhas entrarem em modo de enxameação.”

14 thoughts on “a regra “não mais de 6””

  1. Olá Eduardo

    Em primeiro lugar os meus votos de Festas da Páscoa doces e com muito mel, para si e para os seus seguidores.
    Depois a minha intenção piedosa de ensinar o Padre Nosso ao Cura. Como uma história pode não ser suficiente , vão duas :
    1 – O passado histórico
    Em meados do século passado dominavam, em Portugal os cortiços. Nas décadas de 50 e 60 o governo da época, estável e duradouro, iniciou uma política de fomento apícola, quando nos USA e Europa já eram usuais as colmeias de quadros móveis . Fez-se alguma formação escassa, propaganda quanto baste e por imitação e contágio os apicultores portugueses lá foram fazendo a mudança . Hoje, ainda há vestígios de cortiços. Eu tenho um, em uso.
    Os cortiços, com pequeno volume, dividiam-se em três partes : a inferior que era o ninho, a média para as reservas e a superior que se crestava. Não eram estimulados, nem alimentados e raras vezes visitados. Se o ano era bom 30 a 40 % enchiam-se de abelhas, eram batidos e retirado , de cada, um enxame. Os enxames cobriam as perdas, acrescentavam o numerário ou eram vendidos. A produção dum cortiço crestável era de cerca de 1,5 Kg de mel . Não havia enxames artificiais, nem produção de rainhas. Um mistério era o de alguns cortiços cheios de abelhas, em que a rainha se recusava a sair com as abelhas e o enxame falhava .
    Com a mudança para as colmeias de quadros móveis, com maior volume do que os cortiços, mesmo com as reversíveis, constatou-se que enxameavam muito pouco .
    Mudou-se o processo e começou-se a estimular , alimentar e a fazer enxames artificiais e outras habilidades que reduzissem a enxameação. Hoje , em França , gastam-se tantas toneladas de açucar com as abelhas, quantas é possível retirar-lhes de mel !
    2 – O presente e o futuro
    Esta história baseia-se no seu relato, que me parece correto, com uma pequena modificação que pode fazer a diferença. O seu objectivo é evitar a enxameação e a técnica que apresento é evitar a enxameação e aumentar a produção .
    Como saberá ( só não percebo porque não aplica), o princípio está em uso pelos apicultores de vanguarda e baseia-se na harmonização da força das colmeias.
    O apicultor, grande ou pequeno, faz uma visita rápida ao apiário antes da época de enxameação e conta e regista os quadros com criação de cada colmeia (identificada,nº) . Do total de quadros com criação a dividir pelo número de colmeias calcula a média de quadros com criação por colmeia.
    Numa ou duas visitas imediatas retira o/s quadro/s, a mais, só com criação , sem abelhas, das colmeias fortes e introduz o défice nas fracas . Todas as colmeias ficam com o mesmo número de quadros com criação. A média dos 6 quadros dificilmente será ultrapassada.
    A enxameação das colmeias fortes é prevenida, como comprovou, e a produção total é aumentada porque as colmeias mais activas são pouco afectadas e a produção das mais fracas é reforçada .
    Quanto ao acréscimo de trabalho de manuseamento parece-me pouco relevante e muito compensado . Mas a avaliação é sua .
    Saudações apícolas

    1. Viva, José Marques!
      Uma Santa Páscoa para si e para todos nós!
      Tal como o José, eu e outros não passamos de aprendizes dedicados e apaixonados.

      Sobre o maneio dos cortiços li-o com muito agrado. É uma arte que desconheço quase por completo.

      Acerca da estimulação de enxames com recurso ao açúcar diluído, parece-me que ambos concordamos que na grande maioria das vezes parece ser feito de forma excessiva e inoportuna. Até agora não escrevi uma linha sequer acerca da alimentação estimulante. O meu silêncio acerca desta prática mostra bem a pouca relevância que lhe atribuo.

      Tal como o José entendo que a harmonização/equalização das colmeias é a melhor forma de estimular as mais atrasadas e arrefecer as adiantadas demais. E sobre a equalização tenho escrito mais que uma vez neste blogue. Desconheço a razão que o leva a dizer que não aplico a harmonização/equalização de colónias, porque já escrevi mais que uma vez que o faço.

      Neste momento, contudo, a equalização já não é suficiente na grande maioria dos meus apiários. Por sorte, por trabalho, pelas duas coisas talvez, a verdade é que cerca de 90% das minhas colmeias estão com 7 a 9 quadros repletos de criação. As 10% restantes não são suficientes para receberem 2 quadros com criação das 90% mais fortes. Num post que espero ter tempo para escrever nos próximos 10 dias detalharei o que estou a fazer.
      Um abraço!

  2. Caros colegas apicultores

    Antes demais um sincero agradecimento pelo conhecimento aqui disponibilizado.

    A minha dúvida prende-se com a altura ideal para a realização dos desdobramentos. Já ouvi falar de desdobramentos de inverno e de primavera o que vos diz a experiência vs ciência?

    1. Olá Eduardo
      Respondo, primeiro, ao Sr. João Ferreira para Você depois corrigir.
      No hemisfério norte não creio que se possam fazer desdobramentos de inverno.
      A questão que se poderá colocar é desdobramentos de Primavera ou de
      Verão/Outono ?
      – A minha resposta apoiado em pessoas conhecedoras é: Desdobramentos de Primavera .
      A regra de boas práticas é multiplicar colmeias na Primavera (desdobramentos e enxames) e reduzir no Outono (reunião).
      Pode assim, multiplicando colmeias boas e reduzindo fracas melhorar o apiário e evitar trabalho e despesa com colmeias improdutivas.
      Saudações

    2. Bom dia, João!
      Na Beira Litoral há quem faça desdobramentos nos meses invernais. A apicultura é local.
      Contudo, a resposta do José Marques reflecte a minha opinião e a minha prática na Beira Interior: deixo de efectuar os desdobramentos à entrada do verão. Em algumas vezes que tentei fazer desdobramentos em Julho a taxa de insucesso foi grande e a fecundação das rainhas quando se concretizou foi deficiente.

      1. Olá Eduardo
        Penso que não poderíamos deixar de estar totalmente de acordo e de eu admirar o seu conhecimento, de experiência feito.
        Porém acho que será útil para os seus seguidores acrescentar três palavrinhas ao primeiro parágrafo do seu comentário :
        Na Beira Litoral há quem faça desdobramentos nos meses invernais,
        “mas não deve “.
        Na verdade cada apicultor é dono das suas colmeias e pode fazer os disparates que lhe apetecer, mas deixarmos passar, isso, como normal, já nos compromete e leva ao engano pessoas que procuram o melhor caminho.
        Na Beira Litoral as temperaturas médias históricas max. e mín. aproximadas são: 21 de Dez: 13º/8º , 21 Jan: 13º/8º , 21 Fev: 15º/8º e
        21 Março: 16º/9º .
        Poderão, talvez, obter-se Rainhas, mas a probabilidade é baixa e a qualidade será má.
        A quem goste de experiências difíceis, mas úteis, proponho: Procurem descobrir quais os factores que levam as abelhas a enxamear ou em alternativa a substituir a Rainha ? Depois divulguem !
        Saudações apícolas

        1. José Marques, eu não faço desdobramentos no inverno, seja na Beira Alta, seja na Beira Litoral. Na Beira Alta é impossível fazê-los porque não há zângãos. Na Beira Litoral não os faço porque é arriscado, é “esticar” a natureza e porque não tenho necessidade de o fazer.

          Por feitio/defeito não tenho hábito de dizer o que cada companheiro deve ou não deve fazer. Prefiro dizer o que faço e o que não faço! É, talvez, uma forma diferente de chegar ao mesmo ponto.

  3. Bom dia
    Como posso fazer essa reunião de colmeias no final do verão?
    Não existe a probabilidade de de se matarem mutuamente devi ás feromonas diferentes?
    Qual o maneio que se deve utilizar para juntar essas colónias?
    Tenho ideia que o senhor Eduardo já falou sobre este assunto mas não tenho a certeza…
    Obrigado pela ajuda.

    1. Boa tarde João
      O José Marques descreve-lhe a técnica mais usual: a reunião através do papel de jornal. Na minha opinião deve seguir os seus conselhos se necessitar de reunir duas colónias.

      O meu obrigado ao José Marques pela disponibilidade de partilhar os seus conhecimentos e enriquecer este blogue. Simultaneamente as minhas desculpas pelas respostas tardias às questões mas o elevado ritmo de trabalho associado a dificuldades no acesso à rede na “santa terrinha” levam a este desfecho.

  4. Olá Eduardo
    Como fui eu, o atrevido, que propôs a reunião de colmeias, respondo abreviadamente ao Sr. João Oliveira e, se necessário, Você corrige e completa.
    Em primeiro lugar não se devem reunir colmeias doentes (curam-se ou eliminam-se ).
    Há muitas formas de preparar as colmeias antes de as reunir, umas melhores outras piores, umas mais fáceis outras mais trabalhosas.
    Vou indicar uma, que não sendo, talvez, a melhor, é a mais fácil :
    Pulveriza as duas colmeias com um chá de ervas aromáticas (hortelã pimenta, erva cidreira, alecrim, ou alfazema etc. ) e ao anoitecer sobrepõe a colmeia mais fraca sobre a mais forte, ou menos fraca. Devem ficar bem separadas por uma folha de jornal, na qual se fazem uns rasgos com canivete ou alavanca alça quadros, para facilitar o trabalho das abelhas rasgarem, em alternativa pode deitar, sobre a folha, duas ou três colheres de água com açucar ou mel. É necessário matar a rainha da colmeia fraca ? Penso que não, porque a rainha da colmeia superior tem uma elevada probabilidade de ser a eliminada e as abelhas poupam-nos o trabalho com pequeno risco.
    Não é necessário realçar que a colmeia resultante deve ficar com condições para sobreviver ao inverno ( quadros ocupados e reservas ).
    As perdas potenciais são eventualmente algumas abelhas da colmeia fraca que se dispersem.
    Saudações

  5. Boa noite
    Como é que gere o excesso de quadros com criação quando a quase totalidade das colmeias já não comporta mais (seguindo a regra “não mais de 6 quadros de criação”)?
    Muito obrigado pela informação e muito obrigado por este excelente blog.

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